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FMI: Dívida pública global deve atingir 100% do PIB até 2029, um ano antes do previsto

15 de abril de 2026

Por Aline Bronzati, correspondente

Nova York, 15/04/2026 – O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a dívida pública global alcance 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2029, um ano antes da previsão do organismo feita há um ano, segundo relatório publicado hoje. A guerra no Oriente Médio tem potencial de abalar as contas públicas ao redor do globo, com efeitos fiscais desiguais, num momento em que as reservas dos países já estão fracas, avalia o FMI.

“A guerra no Oriente Médio está pressionando pessoas, empresas e países em um momento em que as finanças públicas já estão sobrecarregadas por questões de longo prazo”, dizem Krzysztof Bankowski, Natasha X Che, Era Dabla-Norris e Rodrigo Valdés, ao comentarem o relatório Monitor Fiscal, do FMI, divulgado hoje, à margem das reuniões de primavera do Fundo.

Segundo o FMI, as condições fiscais globais progrediram “minimamente”, e a dinâmica da dívida pública global permanece “desfavorável”. O déficit fiscal global continuou em 5% do PIB em 2025. Por sua vez, a dívida pública bruta avançou para 94% do PIB.

“Embora os aumentos da dívida estejam concentrados na China e nos Estados Unidos, as vulnerabilidades são generalizadas”, alerta. Muitos países, em diferentes níveis de renda, enfrentam alta dívida, dinâmicas desfavoráveis ou ambos, conforme o Fundo. “Isso os deixa mais expostos a condições de financiamento mais restritivas e menos capazes de responder a choques futuros”, diz.

De acordo com o FMI, os gastos com juros aumentaram rapidamente, passando de 2% para quase 3% do PIB global em apenas quatro anos. Ao mesmo tempo, a diferença entre os planos fiscais de médio prazo dos países e o que seria necessário para estabilizar a dívida globalmente se ampliou.

Como a dívida pública já está elevada em muitos países, o FMI recomenda que a política fiscal deva responder com “cautela”. O organismo defende apoio onde necessário, mas “sem empurrar as finanças públicas para mais perto do limite”. “A política (fiscal) deve evitar estímulos indesejados à demanda em um momento em que a política monetária está abordando os efeitos inflacionários da interrupção”, sugere o organismo.

Conforme o FMI, uma reação fiscal além da necessária levaria a uma inflação e taxas de juros persistentemente mais altas. O Fundo recomenda ainda que as medidas de apoio sejam “proporcionais à gravidade do choque, direcionadas e temporárias, focadas nos mais vulneráveis e projetadas para preservar a sustentabilidade fiscal”.

“Com espaço fiscal limitado, a realocação orçamentária deve ter prioridade, pois novos eventos adversos podem surgir e desestabilizar os mercados de dívida governamental”, diz.

O organismo alerta que subsídios amplos à energia são “distorcivos, fiscalmente caros, regressivos, difíceis de desfazer e geram grandes repercussões internacionais”. Além disso, quando a oferta é restrita, a demanda deve se ajustar globalmente, aconselha. “Se alguns países (especialmente os maiores) isolarem o consumo das mudanças de preço, o preço global será mais alto e outros enfrentarão um ajuste maior. Portanto, a coordenação e cooperação internacional são essenciais”, reforça.

O FMI diz ainda que as consequências fiscais imediatas da guerra não devem obscurecer desafios fiscais mais profundos e persistentes. Além da guerra, outros riscos são “grandes”, diz. “A fragmentação no comércio e nas finanças pode reduzir o crescimento e aumentar os custos de financiamento”, projeta.

Enquanto, de um lado, as pressões de gastos estão se intensificando, do outro, os mercados estão se tornando menos tolerantes. Investidores têm questionado a capacidade ilimitada de empréstimo soberano mesmo no caso de economias avançadas, conforme o Fundo. “Episódios de reavaliação de mercado no Japão, nos Estados Unidos e em partes da Europa refletem uma sensibilidade aumentada a deslizes fiscais e estruturas de médio prazo fracas”, conclui.

Contato: aline.bronzati@estadao.com

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