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Exclusivo/Fitch: contratos de infraestrutura mais robustos reduzem risco político no Brasil

9 de fevereiro de 2026

Por Elisa Calmon

O risco político segue como um dos principais fatores de atenção para a análise de crédito de infraestrutura na América Latina. Apesar do tema ganhar força em ano eleitoral, a continuidade dos programas de concessão e a maior robustez dos contratos ajudam a mitigar parte dessas incertezas no Brasil, avalia Marta Veloso, diretora executiva do grupo de Corporates, Infraestrutura e Project Finance da Fitch Ratings.

“Sempre que um novo governo entra, há algum tipo de revisão dos planos anteriores, o que é esperado. No entanto, observando um horizonte mais longo, houve continuidade dos projetos. Os programas de concessão foram sendo mantidos e aprimorados”, afirma Marta, em entrevista exclusiva à Broadcast.

Segundo a diretora executiva, mesmo em momentos de troca de orientação política, a estratégia de transferir ativos do setor público para o setor privado foi mantida. Na avaliação da Fitch, os modelos de concessão passaram por revisões e ajustes ao longo do tempo para se tornarem mais atrativos ao investidor e mais equilibrados do ponto de vista de risco-retorno, o que contribuiu para reduzir a hesitação do mercado diante das mudanças de governo.

Apesar do avanço institucional observado no Brasil, o risco político segue sendo, para a agência, o principal gatilho potencial de mudança de perspectiva para o crédito de infraestrutura na América Latina.

Marta cita como exemplo a Colômbia, que em janeiro de 2023 congelou a atualização das tarifas de pedágio. “Foi uma decisão que ninguém esperava e que acabou gerando impactos relevantes de crédito em algumas concessões”, diz.

Em 2026, especificamente, Brasil e Colômbia passam por processos eleitorais, o que eleva o grau de atenção dos analistas. Além das eleições, a agência de risco também monitora outros fatores de natureza política e regulatória.

“Olhamos, por exemplo, o impacto da competição entre modais, como projetos ferroviários concorrendo com rodovias, e decisões de política pública que podem afetar tarifas, volumes ou estruturas contratuais”, afirma.

Do ponto de vista político, outro ponto que segue no radar é a reforma tributária. “Ainda não está claro qual vai ser o efeito real para as concessionárias”, diz a diretora-executiva. “O governo fala em redução de custos, especialmente nos investimentos (capex), mas ainda estamos tentando entender como isso vai se refletir no fluxo de caixa e se pode haver algum impacto negativo”, explica.

Além disso, a Fitch tem acompanhado com mais atenção os impactos das mudanças climáticas sobre os ativos de infraestrutura. “Eventos climáticos extremos podem danificar a infraestrutura e gerar custos adicionais”, afirma, citando como exemplo as enchentes do Rio Grande do Sul, que causaram danos ao Aeroporto de Porto Alegre e às estradas do Estado.

Perspectivas

A Fitch Ratings tem perspectiva neutra para os setores de rodovias, portos e aeroportos na América Latina em 2026. A classificação reflete a expectativa de crescimento moderado da demanda e a sustentação dos perfis de crédito, sem sinais, no cenário-base, de deterioração relevante das condições econômicas ou regulatórias.

Em rodovias, a agência projeta crescimento modesto do tráfego, em linha com a expansão econômica da região, especialmente em países como Brasil e México. A avaliação leva em conta a previsibilidade das receitas e a resiliência dos contratos, mas também riscos associados à execução de elevados programas de capex, à necessidade de financiamento adicional e à sensibilidade a fatores políticos, sobretudo em anos eleitorais.

Para os portos, a expectativa é de avanço moderado da movimentação de cargas em 2026, apoiado pela resiliência do comércio marítimo e pelo peso das exportações de commodities. Gargalos operacionais e déficits de infraestrutura, porém, continuam limitando uma expansão mais forte dos volumes e mantém o ritmo de investimentos como ponto de atenção.

Já nos aeroportos, a Fitch avalia que o crescimento do tráfego de passageiros deve ser modesto e desigual em 2026, condicionado ao ritmo da atividade econômica e a restrições de capacidade em grandes hubs. O setor é favorecido por um ciclo relevante de investimentos em expansão e pela expansão estrutural da carga aérea, impulsionada pelo e-commerce, ainda que com atenção ao aumento do endividamento.

Contato: elisa.ferreira@estadao.com

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