19 de novembro de 2025
Por Ana Paula Machado
São Paulo, 19/11/2025 – O estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, avalia que a temporada de balanços do terceiro trimestre deste ano veio robusta e com números acima do esperado pela casa, que cobre 140 empresas. À Broadcast, ele conta que 55% das companhias reportaram lucro acima das expectativas e 39% delas as receitas superaram as estimativas de receitas. Para ele, o mercado reagiu de forma mais intensa aos resultados. “Na média dos últimos cinco trimestres, quem batia a expectativa subia cerca de 1% no dia seguinte e quem decepcionava, caía 0,7%. Agora, a disparidade foi maior, as altas chegaram a 1,6% e as quedas, a 2,7%”, afirma. “Em suma, o mercado penalizou quem informou resultados decepcionantes e pagou mais para quem reportou bons números.” Mesmo assim, ele adverte que o rali recente do Ibovespa exige cuidados. Nesta entrevista, Ferreira detalha os números da temporada e explica a postura defensiva das carteiras. Fala ainda sobre a perspectiva para juros e fluxo. Leia a seguir:
Broadcast: Qual o balanço geral da temporada de resultados do terceiro trimestre?
Fernando Ferreira: Foi uma temporada sólida. Dentro do nosso universo de cobertura, que são 140 empresas, 39% das empresas bateram a expectativa de receita e 55% superaram o lucro líquido. E esses porcentuais estão acima dos últimos cinco trimestres, que na média era 34% foram melhores no quesito receita e 53% com lucro acima do esperado. Quando se olha os setores, commodities, bancos, defensivos e cíclicos todos vieram relativamente bem, não teve um setor que se destacou demais. As incorporadoras também apresentaram bons números, assim como os shoppings e telecomunicação que tiveram balanços sólidos. Do lado negativo, o varejo foi o destaque, porque apresentou resultado mais fraco que esperado, mas tivemos a questão da economia em retração e o clima. Educação e saúde também vieram piores do que a expectativa, e saúde puxado principalmente pela Hapvida, que teve recorde diário de queda pós-resultados.
Broadcast: O mercado reagiu de forma mais intensa aos balanços?
Ferreira: Sim. Na média dos últimos cinco trimestres, quem batia a expectativa subia cerca de 1% no dia seguinte e quem decepcionava, caía 0,7%. Agora, a disparidade foi maior, as altas chegaram a 1,6% e as quedas a 2,7%. Natura e Hapvida o mercado penalizou bem mais do que as empresas que desapontaram no trimestre. A Natura caiu 15 % e a Hapvida 45%. A Minerva também teve um desempenho ruim no pós-balanço, mas isso ocorreu após o call de resultados. A empresa reportou números acima do esperado mas no call trouxe uma mensagem mais cautelosa em relação ao quarto trimestre e com isso caiu quase 14% no dia. Do lado positivo, vimos o Itaú, BTG, Track&Field e Petrobras. A estatal o mercado tinha um receio no trimestre e subiu bem, 4,5% no dia, o que é relevante para a empresa. As de construção também reportaram bons resultados: Cury, Cyrela, Direcional e MRV. Aliás, a MRV inclusive é uma das ações que subiram no Ibovespa em um mês, com 33% de alta, e a segunda é a MBRF. Ou seja, não foi só o resultado que ajudou a ação da construtora. Em suma, o mercado penalizou quem informou resultados decepcionantes e pagou mais para quem reportou bons números.
Broadcast: Com a Selic a 15%, a economia já mostra uma desaceleração suave. Os resultados das empresas podem ter fôlego em 2026?
Ferreira: Os próximos trimestres devem seguir sólidos, primeiro porque a desaceleração da economia, que muitos temiam que fosse mais forte, não está sendo. Não há grandes choques. Outro ponto é a melhora da inflação. O setor de supermercados, que foi mal neste trimestre por causa da inflação, deve se beneficiar na questão de custos, com os juros começando a cair no ano que vem. Adiante a visão ainda é boa. Neste trimestre, mesmo com os juros nesses níveis, 55% das empresas bateram as expectativas de lucro. Nossa estimativa para o Ibovespa em 2026 é de 170 mil pontos. Para revisarmos este número, temos de ver as empresas reportando lucros melhores do que o esperado, em primeiro lugar. Em segundo, tem de cair o custo de capital, ou seja, os juros. Nós usamos a curva longa de juros e a verdade é que, mesmo a Selic a 12% a 12,5% no ano que vem, o juro real ainda será alto.
Broadcast: A XP trabalha com que data para o início do ciclo de afrouxamento monetário?
Ferreira: O nosso cenário-base é março de 2026, mas podemos antecipar para janeiro. Dada a melhora recente dos dados da inflação, há essa probabilidade. Mas o importante é o nível de corte: vemos corte total de 300 pontos, para 12%. É uma retração razoável, mas os juros ainda permanecem em patamar restritivo.
Broadcast: As carteiras recomendadas mudaram após a temporada de balanços?
Ferreira: Revisamos a cada virada de mês. Mas sempre mantemos o viés em empresas com balanço sólido, endividamento controlado e setores defensivos, previsíveis. Temos exposição a commodities, por exemplo, que não é tão consenso, mas continuamos com Petrobras, Vale, Prio e Gerdau na carteira Top Ações. Estamos aumentando a exposição a setores domésticos, mas sem colocar papéis muito arriscados ou empresas muito endividadas. Então, temos Smartfit, Cyrela, Iguatemi. Na carteira Small Caps, temos Cury e Direcional, então seguimos preferindo empresas que entregam bons resultados. Em bancos, temos Itaú na nossa carteira Large Caps. Temos também Copel e Eletrobras. O que não temos feito nas carteiras é justamente migrar para papéis de empresas mais arriscadas, mais alavancadas, o que é natural num cenário de queda de juros. Muitos se perguntam se não é a hora de colocar um pouco mais de risco nas carteiras, mas esse pensamento não é o nosso, não tem sido a nossa estratégia ao longo deste ano. Enfim, é uma carteira, de maneira geral, que eu diria ainda defensiva, porém com exposição a setores domésticos também que podem se beneficiar da queda de juros.
Broadcast: Em 2026 teremos eleição presidencial aqui no Brasil. Este fator já está sendo considerado nas análises para o ano que vem?
Ferreira: Acho que o mercado vai se debruçar bastante neste tema, na medida em que agora estamos há 12 meses do pleito. Em geral, vemos a volatilidade em relação às eleições, quando olhamos na América Latina como um todo, incluindo o Brasil, mais em torno de seis meses antes das eleições. Mas, acreditamos que os investidores já estão olhando bastante para esse tema.
Broadcast: Mas, a XP já trabalha com algum cenário de disputa?
Ferreira: É, ainda não publicamos nada sobre isso, ainda não temos nenhuma visão oficial sobre o tema. O que escrevemos é que temos visto o interesse maior de investidores estrangeiros, não só no Brasil, como na América Latina, porque você tem eleições importantes na região como um todo. Tivemos a Argentina e o Chile. Em maio, tem eleições na Colômbia e em outubro, no Brasil. Então, de fato, parte desses recursos de investidores estrangeiros que têm vindo observam esse tema, não como central, porque eles sabem que está longe ainda. Mas, enfim, eles estão bastante de olho nessas eleições, ou seja, tende a atrair interesse, e óbvio que aumenta a volatilidade do mercado.
Broadcast: O fluxo estrangeiro entrou forte em 2025. Continua em 2026?
Ferreira: Acreditamos que sim, por um motivo principal que são os juros, ou seja, os juros caindo nos Estados Unidos e no Brasil, achamos que os investidores estrangeiros vão seguir animados com o País. E, por mais que, de fato, entrou dinheiro este ano e tenha ajudado a Bolsa, quando olhamos em dólar, ainda é muito pouco o que entrou. Quando você converte esses cerca R$ 20 bilhões para dólar, estamos falando de US$ 4 bilhões, que é ainda muito pouco. Então, acreditamos que o fluxo estrangeiro poderá continuar bem, porque seguimos vendo os mercados emergentes, de maneira geral, com uma boa tendência, principalmente nesse mundo de dólar mais fraco.
Contato: ana.machado@estadao.com
Veja também