16 de janeiro de 2026
Por Pedro Augusto Figueiredo, Jenne Andrade e Luiz Vassallo, do Estadão
São Paulo, 16/01/2026 – O pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, é o dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli no resort Tayayá, no interior do Paraná. A participação valia, à época, R$ 6,6 milhões.
Documentos obtidos pelo Estadão com a movimentação financeira de um fundo de investimento chamado Leal mostram que Fabiano Zettel foi seu único cotista entre 2021 e 2025. Foi com uso do Leal e de um outro fundo que o pastor passou a ser sócio do resort Tayayá. Os fundos foram usados para aportar R$ 20 milhões no empreendimento. Os familiares de Toffoli foram os principais acionistas do empreendimento.
Procurados, o ministro Dias Toffoli, seus irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, a administração do resort e a Reag não se manifestaram. O ministro não tem participação direta no Tayayá, mas frequenta o resort. Ao Estadão, Zettel, cunhado de Vorcaro, confirmou que foi cotista do fundo e disse ter deixado o investimento em 2022; e que este foi liquidado em 2025. A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não tem “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos”. Primo do ministro, Mario Umberto Degani não foi localizado.
Toffoli é relator do inquérito do caso Master no STF, que envolve também a Reag Investimentos, gestora dos fundos envolvidos na transação. Ele passou a ser responsável pelo inquérito após aceitar um pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para que o caso ficasse no STF. Zettel foi preso, e depois solto, na mesma investigação.
A teia que leva o dinheiro aportado por Zettel até o Tayayá foi construída da seguinte forma: Zettel era o único cotista do fundo de investimentos Leal, que, por sua vez, era o único cotista do fundo Arleen – todos da Reag Investimentos. Este último fundo foi usado para comprar a participação da família Toffoli no resort.
O fundo Arleen passou a ser sócio de um trio de empresas dos irmãos e do primo de Toffoli em setembro de 2021, todas responsáveis pelo resort no Paraná. Segundo os documentos obtidos pelo Estadão, foi neste período que o cunhado de Vorcaro aportou R$ 20 milhões nos fundos, que investiram a mesma cifra no Tayayá, tornando Zettel parceiro de negócios da família Toffoli nesse empreendimento.
As empresas que receberam o aporte dos fundos de Zettel são a Tayayá Administração e Participações e a DGEP Empreendimentos, donas do resort e controladas pelo primo do ministro, Mario Umberto Degani. As duas tinham como sócia a Maridt S.A., empresa dirigida por José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, irmãos do ministro.
Além de investir os R$ 20 milhões nas empresas, o fundo Arleen foi registrado formalmente como sócio delas. Segundo documentos da Junta Comercial do Paraná, o fundo comprou metade da participação societária da empresa dos irmãos do ministro na Tayayá e na DGEP, que era de R$ 6,6 milhões.
O fundo e a família Toffoli foram sócios das duas empresas até 2025. Entre os meses de fevereiro e julho, os irmãos e o primo do ministro e o fundo de investimentos se retiraram da sociedade para vender suas participações nas empresas ao advogado Paulo Humberto Barbosa. Hoje, ele é o único sócio e dono do empreendimento.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, Barbosa advogou para a JBS em causas tributárias na Justiça goiana e junto à Secretaria da Fazenda de Goiás. Ele também é sócio de uma empresa, ao lado do genro de José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley e Wesley, e de um executivo da Friboi. Em dezembro de 2023, o ministro Dias Toffoli suspendeu o pagamento das parcelas da multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F.
No dia 28 de março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) anunciou a compra do Banco Master. O negócio é investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga o negócio e tem Toffoli como relator no STF.
O padre, o engenheiro e o pastor
José Carlos Dias Toffoli é padre em Marília, cidade natal do ministro, e José Eugênio é engenheiro e chegou a prestar serviços para a Queiroz Galvão, empreiteira envolvida na Operação Lava Jato, entre 2008 e 2015. Ele não foi denunciado na operação.
Zettel foi preso na última terça-feira, 14, no âmbito da segunda fase da Operação Compliance Zero. Pastor da igreja da Lagoinha, ele é dirigente de empresas ligadas a negócios de Vorcaro. Uma delas, por exemplo, detém a mansão de R$ 36 milhões onde o banqueiro se reunia com políticos em Brasília. Ele foi solto no mesmo dia, após a deflagração da operação, autorizada por Toffoli.
Sem auditoria
O fundo Arleen foi aberto em 2021, com prazo para durar 20 anos, conforme documentos entregues à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ele tem apenas um cotista, o fundo Leal, também gerido pela Reag.
No início de novembro de 2025, dois meses depois da deflagração da operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que investiga o uso de fundos da Reag para lavagem de dinheiro para o PCC, uma assembleia de cotistas decidiu por sua liquidação.
No mesmo mês, dias depois, o banqueiro Daniel Vorcaro seria preso pela Polícia Federal por fraudes no Banco Master. Fundos da Reag também são alvo da investigação.
Pareceres de auditoria entregues à CVM mostram que empresas se abstiveram de opinar sobre a veracidade das demonstrações financeiras do Arleen em razão da falta de documentos que teriam de ter sido entregues para escrutinar seus ativos, como era o caso do Tayayá. Em um dos pareceres, foi citada preocupação dos auditores com a deflagração da Operação Carbono Oculto e suas eventuais ligações com o fundo.
O fundo Leal, que tem Zettel como cotista, e controla o Arleen, também não apresentou documentos necessários para comprovar suas demonstrações financeiras a auditores independentes. Em uma auditoria sobre suas contas, ficou constatado que não era possível avaliar o valor justo de ativos, como o próprio Tayayá.
Outros elos com Vorcaro
Segundo documentos disponibilizados pela CVM, o fundo Leal também é o único cotista de dois fundos que investiram em empresas ligadas a Vorcaro.
Um desses fundos que receberam investimentos do Leal aportou em uma companhia de tecnologia sediada em Belo Horizonte que teve Zettel como administrador e acabou vendida para o banqueiro.
O outro fundo de investimentos ligado ao Leal fez aportes em um conglomerado de turismo ligado a Vorcaro.
O que diz a defesa de Vorcaro
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não tem “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos”. Diz ainda que nunca foi cotista ou “participou de sua gestão”. A defesa afirma “não tem nem nunca teve informação ou participação em negócios relacionados ao resort ou quaisquer outros investimentos realizados por esses veículos”. “A defesa permanece colaborando com as autoridades e reitera que associações entre essas estruturas e o Sr. Vorcaro não correspondem à realidade”, diz.
Sobre os outros negócios relacionados aos fundos, a defesa afirma que se trata de empresas clientes do Master que receberam investimentos de sua holding, “sem qualquer vínculo com as operações mencionadas dos fundos”.
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