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21 de novembro de 2025
Por Luciana Dyniewicz, Paula Ferreira e Juliana Domingos de Lima, do Estadão
Belém, 21/11/2025 – O novo rascunho do documento final da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP30), publicado no na madrugada de hoje e que não traz nenhuma menção à necessidade de criar o chamado mapa do caminho rumo ao fim do uso de petróleo e outros combustíveis fósseis, frustrou ambientalistas e repercutiu entre autoridades.
O mapa do caminho havia ganhado apoio de cerca de 80 países, segundo organizações da sociedade civil, e foi uma das demandas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Cúpula de Líderes, que antecedeu a COP30. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, também defendeu a medida.
Entre os apoiadores, estão Alemanha e Reino Unido. Nações produtoras de petróleo, porém, resistem. Em 2023, na COP28, em Dubai, foi fechado um acordo que propôs pela primeira vez a “transição em direção ao fim dos combustíveis fósseis”, mas sem apresentar um mapa do caminho para a mudança.
Poucas horas após o rascunho ser concluído, um grupo de países já enviou carta à presidência da COP30, em que afirmam não aceitar um documento sem o mapa do caminho. “Não podemos apoiar um resultado que não inclua o roteiro de implementação de uma transição para longe dos combustíveis fósseis justa, ordenada e equitativa”.
Entre os signatários, estão Colômbia, Alemanha, Ilhas Marshall e Vanuatu. Os dois últimos são ilhas do Oceano Pacífico que correm o risco de desaparecer com o aumento do nível do mar, um dos efeitos da crise climática.
A ministra do meio ambiente da França, Dominique Barbut, disse que o país está “extremamente decepcionado” com o texto, sobretudo pela ausência de menção ao abandono dos combustíveis fósseis e à ambição das metas climáticas, assuntos ligados aos esforços de mitigação dos países.
“No estado atual, (o texto) é simplesmente inaceitável. Não podemos aceitar que a Europa seja o único continente a fazer esforço (de mitigação)”, disse a ministra do Meio Ambiente da França, Dominique Barbut.
Ela disse esperar uma versão melhorada do texto até o fim da tarde, e sugeriu que a União Europeia aceitaria apenas uma menção aos fósseis, sem mapa do caminho. Mas admitiu a possibilidade de que a COP termine sem acordo. “Estamos em Belém, no coração da Amazônia, mas a palavra desmatamento sequer é usada nesse documento”, criticou.
A União Europeia também manifestou desânimo com o rascunho. O bloco defende ambição maior nas metas de cortes de emissão de gases estuda, mas trava a discussão sobre financiamento para adaptação climática.
“Estamos dispostos a ser ambiciosos em adaptação, mas gostaríamos de deixar claro que qualquer linguagem sobre financiamento deve estar estritamente alinhada com o compromisso alcançado no ano passado sobre o NCQG”, diz Wopke Hoekstra, comissário europeu para Clima.
Em 2024, na Cop de Baku, os países definiram o valor de US$ 300 bilhões para a meta de financiamento (NCQG). Estimativas indicam, porém, a necessidade de US$ 1,3 trilhão. Alguns países, sobretudo aqueles em desenvolvimento (como o Brasil), reivindicam triplicar a meta de recursos para área, o que é refutado pelas nações ricas.
“A COP30 demonstrou apoio crescente a um roteiro para o abandono dos combustíveis fósseis, portanto, o resultado de Belém deve incluí-lo para garantir que acabemos com a queima de petróleo, gás e carvão o mais rápido possível. Relatórios e mais negociações não são suficientes. Precisamos de um plano de resposta global”, diz a diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali.
Também é criticada a formulação, no texto, da meta de triplicar o volume de recursos. Isso porque ela usa como referência os recursos de 2025 (e não o valor total prometido), o que faz com que o aporte seja menor.
“Seria um valor bem abaixo do buscado pelos países e é necessário que fosse de ao menos US$ 120 bilhões por ano até 2030. Com base no ano de 2025, a conta fecha muito abaixo, cerca de US$ 90 bilhões por ano”, afirma Anna Carcamo, também do Greenpeace.
Outra ausência importante no rascunho é um mapa para acabar com o desmatamento, outra fonte emissora de gases estufa.
Um grupo de cientistas – entre eles o climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo (USP) – diz que o texto é incoerente com a demanda urgente de frear a crise climática. “Isso é uma traição à ciência e às pessoas, especialmente os mais vulneráveis”, escreveram.
O Observatório do Clima também classificou como “fracos” os textos. “Os roteiros (roadmaps) para combustíveis fósseis e desmatamento sucumbiram à pressão de alguns países petroleiros”, critica.
“E a resposta à lacuna de ambição, fundamental para países insulares que estão afundando sob o oceano em elevação, virou um relatório a ser produzido em três anos e sem nenhuma perspectiva de encaminhamento concreto”, continua.
Um incêndio na tarde dessa quinta-feira, 20, provocou correria e paralisou as negociações em Belém, mas o espaço da zona azul, onde ocorrem as reuniões entre as delegações dos países, foi reaberto às 20h40. As sessões plenárias devem ser retomadas nesta sexta.
O término oficial da conferência era previsto para esta sexta, mas a expectativa é de que as negociações se estendam pelo fim de semana. Em cúpulas anteriores, o encerramento ocorreu no sábado ou até no domingo.
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