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Coluna do Estadão: Brasil vive crise de representatividade, diz fundador do RenovaBR

20 de abril de 2026

Por Leticia Fernandes, do Estadão

Brasília, 20/04/2026 – O empresário Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, diz acreditar que o Brasil está mais uma vez atravessando uma crise de representatividade como a que ocorreu em 2012, com um forte componente de descrença no processo eleitoral que atrapalha a entrada de novos quadros na política.

“O Brasil está passando agora por um efeito parecido com o que a gente viveu entre 2012 e 2016, de ‘não acredito na política, não acredito nos representantes, não me sinto representado’. Essa crise de representação está regressando”, afirmou Mufarej à Coluna do Estadão.

Mufarej avalia que a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro, representado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa eleitoral deste ano, “atropelou” as candidaturas de centro.

“Tem uma descrença, tem um medo, e se num primeiro momento a gente viu muita gente incentivada a participar da política por conta dos novos atores, eventualmente agora tem muita gente pensando: ‘será que isso é para mim?'”, complementa o fundador do RenovaBR.

Nesta entrevista à Coluna do Estadão, ele também fala da crise no Judiciário. Avalia que o brasileiro ficou “assustado” com a percepção de corrupção e com a proximidade entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master.

Para Mufarej esse será um dos temas centrais de debate nas eleições de outubro, junto com a violência urbana e o endividamento das famílias.

O RenovaBR é a maior escola de formação política do Brasil e está na 9ª turma de capacitação de lideranças. Entre os políticos formados pelo Renova estão as deputadas Tabata Amaral (PSB-SP) e Camila Jara (PT-MS), o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e a prefeita de Uberaba (MG), Elisa Araújo (PSD).

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Crise de representatividade política

“O Brasil está passando agora por um efeito parecido com o que a gente viveu entre 2012 e 2016, de ‘não acredito na política, não acredito nos representantes, não me sinto representado’. Essa crise de representação está regressando. Tem uma descrença, tem um medo, e se num primeiro momento a gente viu muita gente incentivada a participar da política por conta dos novos atores, eventualmente agora tem muita gente pensando: ‘será que isso é para mim?'”.

“A gente precisa ter um agente de oxigenação, porque a política é muito hegemonista. Se ela continuar hegemonista e não abrir espaço para os novos, ela não se oxigena. E sem a oxigenação, a pessoa que está olhando do lado de fora sente que, eventualmente, aquele não é o espaço dela”.

Polarização X independentes

“A polarização entre Lula e Bolsonaro neutraliza a força dos independentes, que quiçá poderiam ser uma força política dominante no País. O processo político foi muito cruel com aqueles que não quiseram abraçar essas duas candidaturas nos últimos anos, e quem ficou no lugar de moderação foi atropelado. O que está faltando hoje é a clareza de que o Brasil poderia ser mais, mas a gente está preso na polarização, a gente está preso no passado, e isso não está ajudando o País a avançar e a se desenvolver”.

“A gente está num momento onde a palavra democracia é uma palavra de polarização, ela acabou virando uma discussão entre dois grupos políticos, e isso afeta o movimento de participação e engajamento democrático no Brasil. Percebo que tem uma descrença, tem um medo de entrar na política”.

Corrupção no Judiciário, violência e endividamento

“Tem uma retomada da pauta de 10 anos atrás. A corrupção voltou a ser uma temática, a sociedade está assustada com a corrupção no Judiciário, ou a sensação de que há corrupção no Judiciário, e esse é um tema novo”.

“A dívida das famílias está num patamar altíssimo, a inflação corroeu o poder de compra, além disso tem esse problema das bets, a quantidade de gente que eu percebi que começou a ter problema de inadimplência. É um assunto que está meio velado, mas as pessoas vão atrás de dinheiro com agiota, e acho que essa é uma crise contratada”.

Donald Trump e as eleições no Brasil

“A agenda externa influenciou a eleição brasileira, principalmente com a intervenção do Trump a favor do Bolsonaro no ano passado”. “Ela (a intervenção) promoveu pelo menos um exercício de retórica de que o Brasil é soberano. Não acho que a gente vai ter essa intervenção de forma muito elevada nas eleições, acho que o efeito na política brasileira é mais negativo do que positivo”.

Papel do RenovaBR na formação de lideranças políticas

“O nosso papel é dizer ‘sim, a política é para todos’. A gente está aqui para poder apoiar quem quiser participar, se tiver vontade, mas o que a gente não consegue se comprometer, como nunca fizemos, é que, se você tentar, você vai atingir os seus objetivos. Se tem uma coisa que é uma ciência não exata é o eleitorado”.

“Eu lembro de uma frase do Ulysses Guimarães, quando ele era presidente da Câmara, alguém falou da qualidade ruim dos congressistas daquela legislatura, e ele disse: ‘Se você acha que essa é ruim, espere a próxima’. Quando a gente criou o Renova, tinha uma ideia de quebrar um pouco desse ciclo, né? De falar ‘bom, nós vamos trazer gente de muita qualidade para elevar o debate, porque se gente de qualidade ocupa esse espaço, você tem a oportunidade de melhorar o impacto da política pública, do debate público’. E acho que a gente ajudou nesse processo”.

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