Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Belagrícola em recuperação extrajudicial nomeia Eron Martins, ex-AgroGalaxy, como CEO

23 de fevereiro de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 23/02/2026 – A Belagrícola, de Bela Vista do Paraíso (PR), que atua na distribuição de insumos, produção de sementes e armazenagem de grãos, anunciou hoje a substituição do presidente executivo. Alberto Araujo deixa o cargo após 13 anos e passa a integrar o Conselho de Administração. Eron Martins, ex-CEO da AgroGalaxy, assume a presidência executiva da companhia.

Segundo nota divulgada para empresa, a mudança faz parte de uma “transição planejada em sua liderança executiva em busca de um aumento da eficiência operacional e simplificação da operação para enfrentar os atuais desafios do agronegócio brasileiro e garantir a sustentabilidade do negócio”.

A troca ocorre durante o processo de recuperação extrajudicial protocolado pela Belagrícola em dezembro de 2025 na Justiça do Paraná. O pedido envolve a renegociação de R$ 2,2 bilhões em dívidas quirografárias, dentro de um passivo total estimado em R$ 3,8 bilhões. A Justiça concedeu suspensão de execuções por 120 dias. A empresa atribuiu a deterioração financeira ao ciclo adverso do agronegócio brasileiro, marcado por quebras de safra, eventos climáticos extremos, juros elevados e retração de crédito, que resultaram em receita de R$ 4,7 bilhões em 2024, queda de 39% ante o ano anterior, e prejuízo superior a R$ 400 milhões.

Até a última atualização no processo, credores que concentram R$ 788,5 milhões haviam manifestado apoio ao plano, o equivalente a 35,84% do total sujeito à renegociação, acima do mínimo legal de um terço. A empresa ainda está em prazo para obter a maioria necessária em cada classe de credores para que o plano seja homologado.

A Belagrícola informou que Eron Martins traz “ampla experiência no agronegócio, especialmente em revendas e indústria, com trajetória marcada pela atuação em posições executivas e de liderança, gestão de equipes multidisciplinares, com foco em eficiência operacional e relacionamento com produtores, parceiros e o mercado financeiro”. Alberto Araujo, por sua vez, passará a contribuir “de forma ainda mais estratégica a partir do Conselho de Administração junto aos fundadores, que possuem atuação ativa, apoiando as decisões de longo prazo e a perenidade da companhia”, segundo o comunicado.

Eron deixou o comando da AgroGalaxy menos de três semanas antes de assumir a Belagrícola. Sua passagem pela distribuidora de insumos foi marcada pela condução do processo de recuperação judicial, o maior do setor de revenda de insumos agrícolas no País. O plano, que prevê o reperfilamento de R$ 4,6 bilhões em dívidas com carência de dois a três anos e amortização por até 16 anos, foi homologado pela Justiça em 30 de maio de 2025. Durante a reestruturação, a AgroGalaxy reduziu sua rede de 170 para 63 lojas operacionais, além de manter 14 silos e a unidade de sementes.

Em 17 de dezembro de 2025, Eron havia sido reeleito por unanimidade pelo Conselho de Administração para mais um ano no cargo, com mandato iniciado em 23 de dezembro. A decisão foi justificada pela necessidade de dar previsibilidade à execução do plano de recuperação. Apenas dois meses depois, em 4 de fevereiro, a AgroGalaxy comunicou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a substituição do CEO, do CFO Luiz Conrado Sundfeld e do presidente do Conselho Sebastian Marcos Popik, além da redução da diretoria estatutária de quatro para dois executivos. A empresa afirmou que as mudanças visavam “adequá-la ao momento do negócio, ganhar agilidade e eficiência frente aos atuais desafios do setor”.

No mesmo dia, em publicação no LinkedIn, Eron confirmou a transição e citou como contexto o menor investimento do produtor, margens mais apertadas e a falta de crédito com impacto direto nas revendas. Luiz Gabriel Piovezani Silva, então vice-presidente de Suprimentos, assumiu a presidência executiva e acumulou interinamente as funções de CFO e diretor de relações com investidores.

Na Belagrícola, decisões judiciais recentes delimitaram o alcance da proteção concedida no processo extrajudicial. Em fevereiro, a 26ª Vara Cível e Empresarial de Curitiba negou pedido para suspensão de negativações em cadastros de crédito, com base em entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que a baixa dos protestos só pode ocorrer após a aprovação do plano de recuperação. Na mesma decisão, o juiz Pedro Ivo Lins Moreira determinou que a Bayer liberasse o acesso da empresa ao Portal ITS, sistema necessário para o registro e a comercialização de sementes da safra 2025/26 pela subsidiária Bela Sementes. Segundo a Belagrícola, cerca de 90% da produção da Bela Sementes depende de tecnologias licenciadas pela Bayer.

Controlada pelo grupo chinês Pengdu desde 2017, a companhia foi fundada em 1985 e atende cerca de 10 mil produtores no Paraná, São Paulo e Santa Catarina, com 52 lojas de insumos e 58 silos que somam 1,5 milhão de toneladas de capacidade de armazenagem.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

Veja também