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Agrishow/Melo Filho: juros beiram a extorsão e produtor caminha para perder terra para banco

27 de abril de 2026

Por Tânia Rabello, enviada especial, e Gabriel Azevedo

Ribeirão Preto e São Paulo, 27/04/2026 – O secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Geraldo Melo Filho, afirmou nesta segunda-feira que o produtor rural brasileiro enfrenta juros que “beiram a extorsão” e que o País caminha para uma “reforma agrária” imposta pelo endividamento, com produtores perdendo terras para bancos e credores. Em discurso na 31ª edição da Agrishow, Melo Filho criticou duramente a política agrícola do governo federal e contrastou a situação com as ações do governo de São Paulo.

“O setor trabalha com margem mínima, quando não negativa, e os maus resultados sendo turbinados por juros que beiram a extorsão do nosso produtor. Eles finalmente caminham para conseguir algo que no fundo sempre desejaram: o nosso campo vai caminhando no rumo de uma verdadeira reforma agrária, só que ela vai ser imposta pelo endividamento, com os produtores endividados caminhando para perder terra para banco e para credor”, afirmou o secretário.

Melo Filho atacou o anúncio de crédito feito pelo governo federal na véspera, durante a abertura oficial da feira. “Ontem o governo anunciou uma espécie de crédito fantasma aqui, foi anunciado como se existisse, quase ninguém acredita que existe e mesmo os que acreditam não conseguem ver ou tocar esse dinheiro. Mais uma decepção dos produtores com mais uma promessa sem juros definidos, sem prazo para começar a valer, sem direcionamento nenhum que esteja focado nas dores de quem está na ponta precisando produzir”, disse.

O secretário afirmou que a política pública voltada para o agro “não passa de uma peça de ficção” e que o Plano Safra “perdeu a sua função, perdeu a sua relevância e o produtor foi entregue à própria sorte”. Segundo ele, o recurso do seguro rural, já insuficiente, “some do orçamento” no primeiro contingenciamento, e o crédito, quando vem, cobra mais de 20% de taxa de juros.

“A gente vive um momento muito particular no agro brasileiro. Por um lado a gente tem recorde de produção, as colheitas fartas, grande volume de exportação, geração de emprego e a certeza que esse setor aqui continua sustentando a economia desse país. Mas diferente de alguns anos atrás, quando nós tínhamos uma liderança nacional que se importava de fato com o nosso setor, com a nossa gente, o que a gente tem agora é uma realidade cheia de promessa vazia e que na prática essa falta de ação inviabiliza uma grande parte das atividades com juros que são impagáveis para quem precisa buscar crédito para produzir e sustentar a família”, afirmou Melo Filho.

O secretário disse que o campo continua produzindo “porque o que sustenta o agro brasileiro é a competência do produtor rural, mesmo com o sistema que pesa sobre ele”. “Quanto mais aperta, o produtor vai lá, planta de novo e bate recorde de safra, mas isso aí tem limite”, afirmou.

Melo Filho destacou recordes de inadimplência e de recuperação judicial no campo. “Além dos recordes de safra, nós temos agora os novos recordes, que é o recorde de inadimplência e de recuperação judicial no campo”, disse.

Segundo o secretário, o governo federal “não quer reformar o campo, quer confiscar o esforço de quem produz”. “Estão trocando reforma agrária ideológica pela expulsão financeira do produtor da própria terra. O produtor passou a conviver com o Estado que na prática virou sócio oculto dele, só que é um sócio que não divide o risco, mas exige resultado, que aparece no sucesso e desaparece na crise”, afirmou.

Melo Filho contrastou a situação federal com a política do governo de São Paulo. “No estado de São Paulo a realidade é diferente, o governo do estado está ao lado do produtor, ele escuta, entende e age. Enquanto Brasília oferece silêncio e o vazio, São Paulo entrega o bilhão do crédito, o título na mão e a polícia na porteira para garantir que o direito à propriedade seja sagrado. Menos retórica, mais ação, é assim que se governa aqui em São Paulo”, disse.

O secretário disse que, em São Paulo, “enquanto no Brasil a invasão de terra volta a crescer, aqui não se cria”. “Nosso setor não precisa de propaganda, precisa de política pública que funcione: crédito, seguro, assistência técnica, pesquisa, regularização fundiária e ambiental funcionando de forma integrada. Enquanto alguns se limitam a pegar carona nos números, festejar o sucesso que vem só do suor do produtor e do sacrifício do homem do campo, nós em São Paulo trabalhamos para proteger a existência e garantir a prosperidade de quem carrega esse país nas costas”, concluiu.

Contato: tania.rabello@estadao.com; gabriel.azevedo@estadao.com

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