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ABBC/Leandro Vilain: Saldo de crédito a partir de duplicatas escriturais pode chegar a R$ 1 tri

25 de março de 2026

Por Cynthia Decloedt

São Paulo, 24/03/2026 – O presidente da Associação Brasileiras de Bancos (ABCC), Leandro Vilain, disse que as novas duplicatas escriturais, que estão em processo de formalização junto ao Banco Central e entram em vigor em 2027, têm potencial de elevar o saldo de antecipação de recebíveis para as empresas para R$ 1 trilhão, dos atuais cerca de R$ 200 bilhões.

A duplicata escritural é um título de crédito virtual, portanto, a versão eletrônica das duplicatas em papel, emitidas por fornecedores (sacador) para um comprador (sacado) e que permite a antecipação dos recursos junto a instituições financeiras.

Em entrevista à Broadcast após evento promovido pela ABBC em parceria com o escritório de advocacia Mattos Filho sobre as duplicatas escriturais, Vilain afirmou também que para alcançar este número é essencial que as informações a respeito das duplicatas escriturais, seu funcionamento e benefícios cheguem às empresas, especialmente às médias e pequenas.

Segundo Vilain, o mercado financeiro e as grandes companhias já recebem informações, entendem o conceito, se preparam tecnologicamente e capacitam profissionais dentro de suas organizações. “Mas as médias empresas ainda sequer estão recebendo as informações, no máximo algum contador já ouviu falar do assunto, mas existe uma estrutura tecnológica que será necessária para colocar o sistema em pé, a qual não é trivial”, afirmou.

Pelo cronograma do Banco Central, as duplicatas escriturais passam a ser obrigatórias a partir de junho de 2027 para as grandes empresas emissoras (sacadores), enquanto para as médias, a partir de dezembro de 2027. Aos pequenos sacadores, o prazo previsto pelo BC é junho de 2028.

Vilain afirma que os agentes do mercado financeiro, que envolvem as instituições financeiras, as registradoras e depositárias destes títulos, devem estar interconectados dentro do prazo esperado, ou seja, ao final deste ano.

Neste momento, o Banco Central está trabalhando em testes de homologação das registradoras e depositárias, que será seguido pela autorização destas instituições para operar. Em junho deste ano, o BC começa a trabalhar com estes prestadores de serviços na interoperabilidade.

A previsão é de que no final de 2026 a interoperabilidade esteja funcionando de forma plena e todas as informações relativas a estas duplicatas, como valor, vencimento, aceite, cessões e liquidação, estejam centralizadas.

Uma das grandes expectativas em torno das duplicatas escriturais é a queda no custo de antecipação desses recebíveis, uma fonte de financiamento muito relevante para empresas de todos os tamanhos no País e que complementa ou substitui muitas vezes os empréstimos bancários e os tomados no mercado de capitais.

Vilain lembra que um dos objetivos do novo sistema é justamente gerar competição entre as instituições financeiras na oferta do crédito por meio da antecipação deste recebível, uma vez que o processo deixa de ser uma negociação bilateral. “Com este ecossistema, haverá visibilidade, todos verão a qualidade dos recebíveis e todos poderão oferecer o crédito mais competitivo”, afirmou.

Cartões

Durante o evento, o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fernando Galvão de Almeida, fez um paralelo aos spreads (prêmio sobre a taxa básica de juros) cobrados para a antecipação de recebíveis de cartões, que passaram a ter um ambiente de registro unificado e obrigatório em junho de 2021.

De acordo com sua apresentação, a partir de dados da registradora Cerc, houve uma queda no spread de cerca de 6% para ao redor de 2%. O mesmo estudo levado por Almeida mostrou ainda o quanto esse crédito gerado por meio de antecipação de recebíveis de cartões era elevado. Entre janeiro de 2016 e janeiro de 2018, por exemplo, variou de 22% a 10%.

Outro efeito positivo do registro unificado dos recebíveis dos cartões é que o saldo de antecipação de recebíveis de cartão subiu de cerca de R$ 40 bilhões em meados de 2021 para perto de R$ 110 bilhões até janeiro de 2026.

Almeida confirmou a preocupação de Vilain quanto à pouca informação sobre o novo título entre as empresas. “A curva de aprendizado e a velocidade do fluxo de informações serão determinantes para que os efeitos da duplicata escritural sejam efetivamente percebidos”, afirmou.

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com

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