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Guerra no Oriente Médio chega ao balanço das construtoras

Por ora, impacto sobre margens foi discreto, com empresas mostrando boa blindagem.

16 de maio de 2026

Por Circe Bonatelli

São Paulo – A escalada dos custos de construção foi o principal tema na temporada de balanços das construtoras. Por ora, o impacto sobre as margens foi discreto, com as empresas mostrando uma boa blindagem contra as bombas. No entanto, ficou claro que a pressão vai durar por um tempo ainda indeterminado, mantendo a carapaça dos negócios à prova.

O problema decorre do aumento de preços de combustíveis, fretes e insumos importados associado à Guerra no Irã. Desde o fim de março, fornecedores estão aplicando reajustes em itens com peso relevante nos canteiros, como cimento, aço e resinas. Parte dos aumentos já foi aplicada, mas novas rodadas ainda estão previstas, o que tende a manter a pressão sobre a inflação do setor.

A dinâmica foi antecipada no início de abril pelo presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Yorki Estefan, em entrevista à Broadcast Weekend. Ele afirmou que o cenário é semelhante ao da pandemia, quando cadeias produtivas foram afetadas.

O movimento foi confirmado no fim de abril, com a divulgação do Índice Nacional de Custos da Construção (INCC) da Fundação Getulio Vargas (FGV). O índice acelerou de 0,36% em março para 1,04% em abril, com maior impacto em materiais, equipamentos e serviços, cuja alta passou de 0,27% para 1,35%. Com esse resultado, o INCC bateu em 6,28% no acumulado dos últimos 12 meses.

Para analistas, o quadro é de previsibilidade reduzida dos custos, forçando revisões orçamentárias, com potencial de queima das margens do lucro bruto. O impacto é maior nas construtoras com foco em habitação popular, dentro do programa Minha Casa Minha Vida. Nesse segmento, a prática de repassar o cliente para o financiamento bancário logo após a venda na planta elimina a correção monetária nas parcelas até a entrega das chaves.

Diante desse cenário, as companhias têm atuado em duas frentes: revisão de premissas de inflação nos orçamentos de obras e ações para mitigar tais impactos, como gestão de contratos e reajuste dos preços do estoque. Pelo lado positivo, as novas regras do Minha Casa ampliaram as faixas de renda e os tetos de preços do programa, aumentando o poder de compra da população. Ou seja: ficou ‘mais fácil’ subir os preços dos imóveis.

A Cury fez uma provisão adicional no orçamento de obras e passou a trabalhar com INCC de 8% no ano. Com isso, a sua margem bruta foi para 39% no primeiro trimestre de 2026, recuo de 1,3 ponto porcentual (pp) perante o quarto trimestre de 2025. Por sua vez, a margem do resultado dos exercícios futuros (margem REF) foi para 42,9%, baixa de 0,4 pp.

A MRV elevou em 2 pontos porcentuais a estimativa de inflação do orçamento anual (a empresa não revela o dado nominal), o que freou a trajetória de crescimento sequencial da margem bruta, ficando em 31% no primeiro trimestre. No entanto, a MRV afirmou que espera a retomada do avanço na margem a partir do segundo trimestre, com a subida nos preços de vendas de imóveis acima da inflação.

Na Direcional, a mensagem foi que as oscilações de custos estão dentro do orçamento e das provisões e que não há motivo para alarme. A empresa conta com correção monetária na carteira de pro soluto (parcelamento da entrada) no financiamento direto a clientes. Além disso, também reforçou que há condições de reajustar os preços. A margem bruta da empresa ficou em 40,7% no primeiro trimestre deste ano, estável perante o trimestre anterior.

Na Eztec, com atuação no médio e alto padrão, o recado foi que a prioridade é manter a velocidade de vendas e evitar uma eventual expansão do estoque, ainda que isso exija perder um pouco da sua margem. A companhia entende que tem uma boa gordura para lidar com o aumento de custos no curto prazo e acredita que a tendência será de normalização mais à frente. Além disso, acredita que a queda nos juros dará um novo fôlego para as vendas de imóveis, ajudando a equilibrar o cenário. Por fim, a Eztec também disse que pode subir os preços, se necessário.

A despeito do ambiente ainda controlado, as construtoras admitiram que a aceleração do INCC exigirá monitoramento nos próximos meses e que há um alto grau de incerteza em virtude da duração da guerra. Portanto, será um ano para testar a resiliência do negócio.

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