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Flávio Bolsonaro é candidato viável, mas ainda não consolidado, mostra levantamento do Travessia

20 de abril de 2026

Por Bianca Gomes, do Estadão

São Paulo, 20/04/2026 – Em um curto trajeto entre a Barra Funda e Santa Cecília, bairros da capital paulista, um motorista de aplicativo se arrisca a dizer quem é o principal adversário de Lula (PT) nesta eleição. “Fábio Bolsonaro”, disse, sem muita convicção.

A confusão sintetiza um dos principais desafios da pré-candidatura de Flávio – e não Fábio – Bolsonaro (PL) à Presidência: apesar do bom desempenho nas pesquisas e do peso do sobrenome, o eleitor ainda não tem uma percepção bem definida sobre quem é o senador. Pelo menos é o que mostram uma série de pesquisas qualitativas feitas pelo Instituto Travessia.

O cenário lembra, em parte, o que viveu Fernando Haddad em 2018, quando passou a ser chamado de “Andrade” por eleitores após substituir Lula, então preso, na disputa presidencial.

A diferença para Flávio está no peso do sobrenome familiar, que ganhou relevância a ponto de dar nome a um movimento político, o bolsonarismo, e no fato de o senador se colocar como substituto do pai desde a pré-campanha, enquanto Haddad foi oficializado faltando praticamente um mês para primeiro turno da eleição de 2018.

A pedido do Estadão, o Instituto Travessia reuniu, em um relatório, percepções de grupos focais sobre o pré-candidato do Partido Liberal ao Planalto. Ao todo, foram analisadas 12 pesquisas qualitativas realizadas entre setembro de 2025 e março de 2026 em dez Estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Santa Catarina, Amazonas, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Acre, Espírito Santo e, por fim, o Distrito Federal. O material tem caráter analítico, sem rigor estatístico.

Como já mostrou o Estadão, as pesquisas qualitativas são importantes para entender o que está na cabeça do eleitor – quais são seus desejos, anseios e visões sobre os candidatos. Nas eleições, as qualis – como são chamadas no mercado de pesquisas – são usadas pelas campanhas para entender mais profundamente a opinião dos eleitores sobre diversos temas, ajudando a identificar os fatores que influenciam na escolha do voto e a compreender a percepção sobre cada candidato.

Um dos principais achados do Travessia é o baixo nível de conhecimento estruturado sobre o primogênito de Jair Bolsonaro. Há pouca clareza entre os eleitores sobre a trajetória política de Flávio, inclusive o fato de ser senador da República pelo Rio de Janeiro e de ter exercido quatro mandatos de deputado estadual no mesmo Estado.

Para muitos eleitores, Flávio é conhecido apenas como filho de Jair Bolsonaro e é frequentemente confundido com outros membros da família, especialmente com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está em autoexílio nos Estados Unidos desde o ano passado.

As pesquisas indicam que Flávio ainda não tem uma base fiel própria, nem desperta engajamento emocional entre eleitores.

“Sua força nas pesquisas deriva do antipetismo, da transferência simbólica do bolsonarismo e da ausência de concorrência forte no campo da direita”, diz Renato Dorgan, cientista político e CEO do Instituto Travessia. Para Dorgan, responsável por conduzir essas pesquisas, Flávio tem se mostrado um “candidato viável, mas ainda não consolidado”.

As fragilidades de Flávio

Segundo o relatório, o eleitorado de Flávio é formado principalmente por homens acima de 40 anos, com posições mais ideológicas e forte rejeição a Lula e ao PT. São pessoas que afirmam votar nele por “causa do Bolsonaro” ou “contra a esquerda”.

Dorgan resume as fragilidades do pré-candidato em quatro pontos: baixo conhecimento real, ausência de identidade própria, dependência excessiva da polarização e dificuldade de expandir seu eleitorado para além do núcleo ideológico.

“Flávio Bolsonaro, neste estágio em que a pré-campanha se encontra, não se configura como um candidato de liderança consolidada, mas, sim, um vetor de continuidade da polarização”, afirma Dorgan.

As pesquisas do instituto mostram um cenário mais desafiador para Flávio entre mulheres, jovens e eleitores de classe média. O grupo mais distante do pré-candidato, no entanto, é o dos eleitores de grandes centros urbanos com maior nível de escolaridade.

Se no eleitorado geral ainda há pouca informação sobre o filho mais velho de Jair Bolsonaro, entre os eleitores mais informados, inclusive identificados com a direita, ganham força críticas ligadas ao caso das “rachadinhas” e à relação de Flávio com milicianos. Também é comum a percepção de que Flávio, assim como os irmãos, era blindado durante o governo do pai.

Os grupos focais não deixam dúvidas de que a associação com Jair Bolsonaro levou Flávio a se firmar como principal nome de oposição a Lula. No entanto, ao mesmo tempo em que herda o capital do antipetismo, o senador carrega a rejeição ao bolsonarismo e ainda não se diferencia com clareza do pai e dos irmãos. Para o eleitor, Flávio aparece como uma “continuidade sem novidade”, o que gera frustração em parte de sua base, segundo Dorgan.

“Existe uma percepção difusa de que ele é mais moderado e equilibrado que o pai pelos mais politizados e instruídos, mas essa imagem não está consolidada entre os eleitores de classe B2, C e D, nem explorada como ferramenta de marketing por ele até o momento, já que não existem reflexos entre a massa de que ele seja uma versão soft do pai. A maior parte do eleitor o considera como o filho mais velho de uma família política que age em concordância e unida.”

No voto evangélico, que foi um dos pilares da candidatura de Bolsonaro, Flávio também enfrenta dificuldade: as qualitativas mostram pouca identificação desse eleitorado com o senador, especialmente quando comparado a figuras como o próprio pai e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Embora o apoio tenda a ocorrer, não será de forma espontânea.

O que favorece o nome de Flávio

Além de Flávio Bolsonaro, a direita tem outros pré-candidatos colocados, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) e o fundador do MBL, Renan Santos (Missão). O alto desconhecimento de todos esses nomes tem mantido Flávio como principal contraponto a Lula, segundo o Travessia.

Apesar disso, as pesquisas revelam uma demanda relevante por um candidato de direita fora do bolsonarismo, principalmente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e entre eleitores de classe média e média alta, sobretudo os mais informados e com maior nível de escolaridade. É nesse segmento que Flávio corre maior risco de perder espaço caso surja um nome competitivo na direita.

Caiado aparece como o principal nome com potencial para tirar votos de Flávio. Essa perda pode acontecer principalmente entre eleitores mais informados, nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, em cidades com mais de 100 mil habitantes e maior escolaridade média.

Por outro lado, Flávio tem mais chance de não perder votos para Caiado no Norte e no Nordeste, onde o governador de Goiás ainda é menos conhecido e a polarização entre Lula e Bolsonaro está consolidada. O mesmo ocorre no Rio de Janeiro, onde o bolsonarismo é forte eleitoralmente, e em cidades com maior presença das classes C e D.

“Hoje, o crescimento de Flávio depende menos de suas próprias qualidades e mais de fatores externos, como a intensidade da rejeição a Lula e a capacidade, ou não, de surgir uma alternativa competitiva à direita”, diz Dorgan.

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