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Bom professor na China não é bom professor no Brasil, diz gestor de universidade em Hong Kong

12 de abril de 2026

Por Renata Cafardo

São Paulo, 12/04/2026 – Apesar de serem consideradas exemplos de sucesso em educação básica no mundo todo, o presidente da Universidade de Educação de Hong Kong, John Lee Chi-Kin, acredita que as nações asiáticas não devem ser copiadas e, sim, usadas para reflexão de boas práticas. “Um bom professor na China não necessariamente será um bom professor no Brasil. Os costumes são diferentes, os estudantes são diferentes”, disse o educador, em entrevista ao Estadão/Broadcast. A instituição é uma das mais importantes da Ásia em formação de docentes.

Ele participou da Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, que discutiu o futuro da educação diante da inteligência artificial e das mudanças no mundo do trabalho. Na universidade que preside, todos os alunos – que se formarão professores – hoje passam por uma “jornada de aprendizagem para desenvolver habilidades em IA”, que inclui questões éticas e práticas.

“Por outro lado, também precisamos ensinar – inclusive aos pais – e respeitar o fato de que as crianças podem ser até mais receptivas à IA do que nós. Elas aprendem muito rápido. Às vezes, os estudantes são mais habilidosos que os professores no uso da IA”, afirma.

Mesmo assim, ele deixa claro que “inovação na educação não é revolução” e nem precisa necessariamente estar ligada à tecnologia. “A questão é: como os professores podem motivar os alunos a aprender melhor? Como podem incentivá-los a desenvolver autodisciplina e autorregulação? A motivação para continuar aprendendo é um componente muito importante”, diz.

Lee afirma que o bom professor considera o contexto, sabe lidar com a diversidade em sala de aula, criar vínculos e inspirar os alunos. “Precisamos continuar aprendendo coisas novas, conhecendo novas pessoas, lendo artigos diferentes todos os dias, seja por redes sociais ou bibliotecas. Precisamos estar expostos a novas ideias, ser receptivos a elas e manter a motivação ao longo do tempo”, afirma. “Há muitos estudos que mostram que os estudantes podem ser motivados pela tecnologia, mas muito também por professores inspiradores, com boa comunicação e cuidado.”

Para o educador chinês, o sucesso de qualquer nova iniciativa na educação depende da crença dos professores e do apoio deles. “A tecnologia não pode garantir resultados positivos, porque o processo de ensino e aprendizagem, assim como as relações interpessoais, é complexo. Os professores lidam com diferentes tipos de estudantes em sala de aula.”

Os alunos de Hong Kong têm resultados acima da média dos outros países desenvolvidos em avaliações internacionais, como o Pisa, feito pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ranking mais recente de Matemática, estão em 4º lugar, atrás de três outras nações asiáticas: Cingapura, China e Taiwan. O Brasil ficou em 65º lugar, entre 81 países participantes.

“Qualquer que seja o resultado, o importante é como o sistema reflete sobre ele e busca melhorias. Em alguns países, as pontuações são altas, mas outros aspectos podem não ser tão bons. Precisamos olhar também para diferenças entre escolas, desigualdades de gênero, questões de equidade e acesso”, pondera.

Celulares nas salas de aula do ensino superior

Ao ser questionado sobre como lidam na universidade com os celulares em sala de aula, Lee pareceu não compreender a necessidade de proibição que passou a ser imposta em algumas instituições de ensino superior no Brasil. Como o Estadão revelou, Fundação Getulio Vargas e Insper começaram neste ano a restringir o uso na graduação. “Não sei exatamente o que significa ‘proibição’. Se o estudante leva o telefone, mas não o utiliza, isso já seria uma proibição?” questionou.

Lembrando novamente as diferenças culturais, ele contou que os alunos em Hong Kong simplesmente não usam o celular em sala de aula, sem necessidade de proibição. “Se aqui a regra é não usar o telefone durante a aula, espera-se que os estudantes também respeitem. Mesmo no ensino superior, em que eles são mais maduros, ainda precisam respeitar as rotinas e expectativas gerais. Nosso papel como educadores é orientá-los”, afirma.

“Educação não é apenas sobre conhecimento. Para mim, é sobretudo sobre valores positivos. É sobre respeitar os outros, outros sistemas, outras culturas e outros indivíduos.”

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