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Reag inflou patrimônio de empreendimento de luxo usado por Master para abater dívida com BRB

6 de abril de 2026

Por Gustavo Côrtes, do Estadão

Brasília, 06/04/2026 – A Reag, gestora que custodiava ativos do Banco Master, efetuou uma manobra contábil que permitiu ao banco de Daniel Vorcaro abater artificialmente cerca de R$ 560 milhões do valor devido pela instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB) em compensações por operações fraudulentas.

Em agosto do ano passado, a empresa multiplicou por quatro mil o patrimônio líquido de um empreendimento imobiliário de luxo em São Paulo que pertence a um de seus fundos, o Trevi. Investidores apontam para a falta de base metodológica na operação e pedem explicações.

Os ativos deste fundo foram entregues ao banco do Distrito Federal no processo de troca de carteiras para compensar a estatal pelo prejuízo absorvido em operações fraudulentas de R$ 12,2 bilhões do Master.

Essa troca de ativos, porém, não foi capaz de cobrir o rombo gerado pela compra de carteiras falsas, apontam as investigações. Como o BRB adiou a divulgação de seu balanço, o número final do prejuízo ainda não é conhecido, mas é estimado em pelo menos R$ 8 bilhões.

Procuradas, a Reag e a defesa de Vorcaro não quiseram se manifestar. O BRB afirmou que recebeu cotas de fundos de investimento em participação durante o processo de substituição das carteiras de crédito adquiridas junto ao Master e não participou, em qualquer momento, das decisões de gestão, alocação de recursos ou definição de investimentos do fundo.

“Todas as decisões são de responsabilidade exclusiva dos gestores e administradores dos respectivos fundos, conforme regulamentação vigente” (leia mais abaixo).

A operação

Administrado pela Reag, o Trevi mantém em sua carteira cotas de outro fundo, o FIP Novo Bairro – que, por sua vez, é dono da Novo Bairro S/A. Esta empresa foi constituída com o objetivo de construir um condomínio de alto padrão no bairro do Butantã, na zona oeste da capital paulista, próximo ao Jockey Club, área nobre da cidade.

Para isso, foram adquiridos 33 imóveis na região, com apoio financeiro do Master. O banco de Vorcaro investiu R$ 181 milhões no projeto por meio de uma sequência de quatro empréstimos efetuados de janeiro a junho de 2024. As taxas são de 5% ao ano, acrescidas de 100% do CDI, índice utilizado como base para operações de crédito entre instituições financeiras. O prazo para o pagamento termina em 2029.

As garantias da operação são os próprios terrenos adquiridos. Como o patrimônio do FIP Novo Bairro estava lastreado nesses imóveis, cujas compras geraram dívidas que ainda não foram quitadas, seu patrimônio líquido era baixo em comparação ao valor desses imóveis, devido ao alto passivo gerado pelos empréstimos.

Isso mudou no último mês de agosto, quando a avaliação do patrimônio líquido do FIP Novo Bairro saltou, de uma vez só, de R$ 409 mil para R$ 1,7 bilhão, sem que essas dívidas tivessem sido quitadas.

Assim, o Master, que era dono de um terço do negócio por meio do Trevi, pôde abater dos R$ 12 bilhões que devia ao BRB valor proporcional à sua participação no empreendimento. Isso representa cerca de R$ 560 milhões. Mas investidores que fazem parte do projeto questionam a legitimidade da manobra.

Os questionamentos

Um dos parceiros do Master no empreendimento, a Esfera Aquisições Imobiliárias, do empresário José Ricardo Lemos Rezek, enviou à gestora com questionamentos a respeito da nova avaliação dos ativos.

No comunicado, questionaram a falta de base metodológica para a atribuição do novo valor de patrimônio líquido e a falta da emissão de publicação de fato relevante junto ao mercado.

Também pediram o envio de explicações para o aumento repentino do patrimônio líquido, mas nunca receberam resposta.

O Banco Central liquidou o Banco Master Múltiplo, em março, devido a indícios de emissão de títulos falsos no valor de R$ 12,2 bilhões negociados com o BRB. Em função dessas irregularidades, o banco de Vorcaro ficou obrigado a compensar a estatal no mesmo valor. A partir daí, começou um processo de transferências de carteiras, no qual foram transferidos ativos do Master.

Técnicos envolvidos na operação têm dificuldade em precisar o valor exato do que já foi repassado ao BRB. Um desses ativos é o FIP Novo Bairro.

Veja a nota do BRB

“O BRB informa que recebeu cotas de fundos de investimento em participação durante o processo de substituição das carteiras de crédito adquiridas junto ao Banco Master.

O banco não participou, em qualquer momento, das decisões de gestão, alocação de recursos ou definição de investimentos do fundo. Todas as decisões são de responsabilidade exclusiva dos gestores e administradores dos respectivos fundos, conforme regulamentação vigente.

O banco reforça, ainda, que contratou investigação independente para apurar fatos relacionados à operação envolvendo o Banco Master. Essa apuração está sendo conduzida pelo escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da Kroll Associates Brasil.”

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