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Fertilizantes/Argus: Indústria do setor admite risco de desabastecimento em 2026

6 de abril de 2026

Por Julia Maciel

São Paulo, 06/04/2026 – O setor de fertilizantes no Brasil trabalha com um risco de desabastecimento de produtos fosfatados em 2026, cenário considerado inédito por lideranças da indústria. Durante mesa redonda no evento da Argus Media, em São Paulo, nesta segunda-feira, executivos e especialistas do setor afirmaram que a escassez global de enxofre e os preços recordes do ácido sulfúrico estão forçando a paralisação de plantas e a revisão do planejamento estratégico das companhias.

Na avaliação do presidente da operação da Itafos Fertilizantes no Brasil, Felipe Coutas, o ano de 2026 é visto como um momento de sobrevivência, com recursos escassos para o setor. “Talvez não tenha produto mesmo”, afirmou o executivo. Segundo Coutas, a indústria precisará ser inteligente para entregar volumes comprometidos, possivelmente substituindo produtos de alta concentração por fosfatos naturais reativos ou soluções que demandem menos ácido sulfúrico.

A gerente de vendas na EuroChem Brasil, Nayara Piloto, confirmou que a empresa já realiza estudos semanais para decidir se mantém ou não o plano de produção anual. “A gente já vê algumas plantas parando por falta de enxofre ou porque essa relação do enxofre dentro do produto está muito alta e não faz sentido mais produzir”, disse ela. “Muitas vezes vale muito mais a pena vender o ácido sulfúrico do que fazer um fosfatado de baixa concentração”, explicou Piloto, referindo-se ao super-simples (SSP).

Diante da baixa disponibilidade e dos preços elevados, a substituição tecnológica deve avançar no campo. Coutas destacou que grandes grupos agrícolas já avaliam reduzir em até 25% a aplicação de fosfato em áreas com boa reserva no solo, além de migrar para remineralizadores e produtos parcialmente acidulados. “O agricultor está no limite. Muitos dizem que, se o cenário não mudar, não vão adubar ou vão partir para produtos alternativos”, disse o executivo da Itafos.

A executiva da EuroChem destacou que tem observado um aumento expressivo na procura de agricultores por produtos de menor concentração e subprodutos como o gesso agrícola. “A gente entende que vai ter, sim, essa migração de parte desse volume para os fosfatos de menor teor. Existe o risco na qualidade do grão no fim do dia, mas é uma discussão que precisamos ter diante da oferta menor e demanda maior”, completou Piloto.

Para o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva, o Brasil paga o preço por ter tratado o fertilizante apenas como uma commodity agrícola e não como um mineral estratégico. “Não tem muito o que fazer se não olhar de forma estrutural e de longo prazo, pois a produção doméstica atual não atende à demanda”, concluiu Silva.

Contato: julia.maciel@estadao.com

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