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23 de março de 2026
Por Aline Bronzati, correspondente
Nova York – Bancos centrais ao redor do globo alertaram para o risco de alta da inflação e adotaram postura cautelosa no primeiro teste de política monetária global após o início dos conflitos no Oriente Médio, no fim de fevereiro. Do Brasil aos Estados Unidos, prevaleceu um tom hawkish -menos inclinado ao corte de juros -, com algumas autoridades já cogitando elevar as taxas para conter os efeitos da guerra nos preços.
A semana passada foi palco de mais de uma dezena de decisões de política monetária nos quatro cantos do mundo. O primeiro movimento veio do Banco Central da Austrália, que subiu os juros, como previsto, e cuja decisão foi interpretada pelo mercado como um sinal do que viria adiante. No Brasil, o Banco Central (BC) optou por iniciar o esperado ciclo de decisão monetária de forma mais tímida, com um corte de 0,25 ponto porcentual.
Enquanto decidiam por mais uma manutenção dos juros, dirigentes do Fed cogitaram a possibilidade de aumento à frente, o que também está no radar de banqueiros centrais na Europa. Do outro lado do Atlântico, os bancos centrais da zona do euro, Inglaterra, Suíça e Suécia igualmente decidiram manter as taxas. A bateria de decisões monetárias passou pela China, na noite de ontem, e terminou com a Rússia, nesta sexta-feira, que, ao lado do Brasil, foram as únicas autoridades a flexibilizar suas políticas em meio à guerra no Oriente Médio. Na próxima semana, África do Sul e México anunciam suas decisões de política monetária.
“Os bancos centrais começaram a abordar a perspectiva de inflação mais alta ajustando suas orientações e tendências, afastando-se de cortes nas taxas de juros e se aproximando de aumentos”, diz o estrategista global de câmbio e juros do Grupo Macquarie, Thierry Wizman.
Foi exatamente o que o Fed fez. Em sua segunda reunião de política monetária do ano, os dirigentes do banco central mais vigiado do mundo debateram a possibilidade de elevar os juros já no próximo encontro, em abril, justamente por conta dos impactos econômicos da guerra. Antes dos conflitos, Wall Street previa um corte de juros entre junho e julho. Agora, o ponteiro aponta para algum momento no fim de 2027, segundo levantamento da plataforma CME Group. Ao mesmo tempo, a ferramenta mostra quase 50% de probabilidade estimada de aumento de juros em outubro deste ano – algo quem nem era cogitado uma semana atrás. Para abril, essa chance é avaliada em 12%.
“A possibilidade de que nosso próximo movimento possa ser um aumento foi, sim, levantada na reunião, tal como ocorreu no encontro anterior”, disse o presidente do Fed, Jerome Powell, em coletiva de imprensa, nesta semana. Por ora, esse não é o cenário-base da maioria dos dirigentes, mas o Fed está pronto para agir, conforme ele.
No Brasil, essa cautela também prevaleceu, com o BC mudando de marcha e optando por começar o esperado processo de flexibilização monetária mais devagar. No comunicado ao mercado, explicitou a possibilidade de seguir cortando à frente, a despeito da guerra, mas prometeu “serenidade e cautela na condução da política monetária”. O Goldman Sachs diz que o BC brasileiro pode acelerar o ritmo de corte para 0,50 pp na reunião de abril, mas tem “baixa convicção” a respeito.
Já o Banco Central Europeu (BCE) pode ter de começar a discutir aumentos de juros em abril e possivelmente apertar a política monetária da região na reunião de junho, apontam relatos na imprensa internacional. No comando da autoridade monetária, Christine Lagarde, manteve as próximas decisões em aberto, após não mexer nas taxas nesta semana.
Wizman, do Macquarie, cita a ênfase dada pelos BCs para o controle dos efeitos secundários do choque de preços de energia por conta dos conflitos. Além do aumento de juros para conter a inflação, tais impactos poderiam incluir perda do poder de compra, desaceleração econômica com risco de estagflação, e instabilidade nos mercados financeiros.
Os efeitos secundários dos conflitos estão entre as principais preocupações do Fundo Monetário Internacional (FMI). A orientação do organismo, com sede em Washington, nos EUA, é que os BCs permaneçam vigilantes para os impactos do aumento dos preços de energia sobre as expectativas de inflação e de longo prazo. “Neste momento, os bancos centrais precisam analisar os dados que vão surgindo, mas com um olhar muito atento para o que chamamos de efeitos de segunda ordem”, disse a diretora de Comunicações do FMI, Julie Kozack, em coletiva de imprensa ontem.
Os efeitos secundários podem alterar ainda mais o rumo da política monetária em 2026 – e estão sendo colocados nas contas dos bancos e consultorias. Clientes começam a questionar essas casas sobre os riscos de aumentos nos juros por parte do Fed, segundo o economista do Bank of America para os EUA, Aditya Bhave. O Deutsche Bank alerta que caso os temores de efeitos secundários aumentem, a justificativa para uma mudança na política monetária do BoE no segundo trimestre se fortalecerá.
“Não sabemos aonde isso vai dar, mas, temos que considerar que, talvez, a cautela por seja justificada”, disse o diretor do Fed, Christopher Waller, em entrevista à CNBC, nesta sexta-feira.
Em comum, os cautelosos discursos dos banqueiros centrais reforçaram o principal questionamento dos mercados, creditando a reposta da política monetária à duração e intensidade dos choques gerados pela guerra que tem EUA e Israel de um lado e Irã do outro. “Realmente depende do tempo que o conflito durar e do prazo em que o aumento do preço do petróleo será sustentado”, disse o assessor econômico e chefe do Departamento Monetário e Econômico do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), Hyun Song Shin, em recente conversa com jornalistas.
Contato: aline.bronzati@estadao.com
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