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Soja/AgResource: sem China, preço justo em Chicago fica entre US$ 10 e US$ 10,50

16 de março de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 16/03/2026 – A ausência de um compromisso da China para comprar 8 milhões de toneladas adicionais de soja americana enfraqueceu a confiança do mercado e pode provocar uma correção nas cotações em Chicago. Para o presidente da consultoria AgResource, Dan Basse, sem essa demanda extraordinária o preço considerado compatível com os fundamentos ficaria entre US$ 10 e US$ 10,50 por bushel. “O mercado chegou a precificar parte dessas compras, mas agora começa a retirar esse prêmio das cotações”, afirmou em transmissão hoje.

O movimento já aparece nas telas de negociação. O contrato maio da soja na Bolsa de Chicago (CBOT) fechou em queda de 70 cents, ou 5,71%, a US$ 11,5525 por bushel, devolvendo parte expressiva do rali observado nas últimas semanas.

Segundo Basse, os operadores chegaram a incorporar parcialmente essa expectativa nas cotações após declarações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em fevereiro. Ainda assim, o mercado nunca acreditou que o volume integral seria efetivamente comprado. “O mercado provavelmente embutiu algo como 4 milhões de toneladas nessas cotações”, disse.

Caso esse fluxo de demanda não se materialize, os estoques finais dos Estados Unidos poderiam subir de cerca de 300 milhões para algo entre 425 milhões e 450 milhões de bushels, o equivalente a aproximadamente 11,6 milhões a 12,2 milhões de toneladas. Para a AgResource, um balanço dessa magnitude não é compatível com preços próximos de US$ 11,50 por bushel. A retirada desse prêmio também aparece na estrutura de spreads do mercado. O diferencial entre os contratos julho e novembro da soja, que havia disparado após o pedido público de compras feito por Trump em fevereiro, recuou cerca de 51 centavos.

Nas negociações realizadas no fim de semana em Paris, autoridades chinesas não assumiram compromisso com a aquisição do volume de soja mencionado por Trump. De acordo com Basse, a postura de Pequim também reflete mudanças no equilíbrio político entre os dois países. “Os chineses foram muito firmes em suas demandas por não aumento de tarifas e reagiram com força contra as investigações da Seção 301”, afirmou.

Durante as conversas diplomáticas, a China sinalizou interesse em ampliar compras de alguns produtos agrícolas americanos, como carnes e grãos. Ainda assim, a AgResource avalia que o potencial de volume é limitado. A consultoria estima que as importações chinesas de milho no mercado global devem ficar próximas de 4 milhões de toneladas neste ano, enquanto as compras de trigo podem alcançar algo entre 4,5 milhões e 5 milhões de toneladas. “A China não usa nem precisa de muito milho ou trigo”, comentou.

No cenário geopolítico, o mercado também reagiu a sinais de possível flexibilização no Estreito de Ormuz. O Irã indicou no fim de semana que poderia aceitar a passagem de navios não americanos como parte de negociações de cessar-fogo, o que pressionou os preços do petróleo nesta sessão. Segundo Basse, a volatilidade do barril chegou a cerca de US$ 38 ao longo da última semana.

Esse movimento levou parte dos investidores a buscar exposição indireta ao mercado de energia por meio de commodities agrícolas, especialmente o milho. Basse pondera, contudo, que essa relação tende a ser limitada no longo prazo. “Tenho grande dificuldade em acreditar que o milho ou o óleo de soja serão vistos como componente de energia no longo prazo”, apontou.

Outro fator observado pela consultoria é o aumento do custo logístico no comércio global de grãos. Os fretes de granéis secos subiram cerca de 26% em relação ao mesmo período do ano passado, chegando a aproximadamente US$ 2.010 por dia para embarcações com capacidade entre 50 mil e 55 mil toneladas. Segundo o analista, o encarecimento do transporte e dos seguros pode reduzir o apetite de importadores. “Vai custar mais caro para os importadores trazerem grãos. Isso vai levá-los a recuar, reavaliar e provavelmente importar menos”, disse.

No mercado de fertilizantes, apenas a ureia registrou alta significativa nas últimas semanas. O preço subiu cerca de US$ 200 por tonelada, para aproximadamente US$ 650. De acordo com o executivo, esse movimento adiciona cerca de US$ 15 por acre ao custo de plantio do milho nos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente US$ 37 por hectare. “É a ureia, mais do que qualquer outro insumo, que registrou os grandes ganhos”, comentou.

Para as próximas semanas, a AgResource aponta três eventos capazes de definir a direção do mercado agrícola: a divulgação das novas metas obrigatórias de biocombustíveis dos Estados Unidos (RVO), prevista até o fim de março; o relatório de estoques e intenções de plantio do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), marcado para o dia 31; e uma possível definição sobre a cúpula entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping em Pequim.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

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