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Presidente da CPI do INSS rebate Moraes e diz que comissão não vazou conversas do ministro

6 de março de 2026

Por João Pedro Bitencourt, do Estadão

Brasília, 06/03/2026 – Presidente da CPI do INSS, o senador Carlos Viana (Podemos-MG) rebateu nesta sexta-feira, 6, a nota divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido do ministro Alexandre de Moraes e afirmou que a comissão parlamentar não divulgou material sigiloso envolvendo integrantes da Corte.

A manifestação foi publicada nas redes sociais após a nota a pedido de Moraes afirmar que conversas encontradas no celular do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no dia em que foi preso foram tornadas públicas pela CPI do INSS. No comunicado, Moraes nega que prints de mensagens atribuídos ao banqueiro tenham sido enviados a ele.

Segundo Viana, a comissão atuou dentro dos limites legais e não foi responsável pelo vazamento de qualquer conteúdo sigiloso. “A CPMI sempre atuou dentro dos limites legais e regimentais”, escreveu o senador. Ele acrescentou que é necessário identificar a origem das informações divulgadas antes de atribuir responsabilidade ao Parlamento.

O texto, divulgado pela Secretaria de Comunicação do STF, afirma que uma análise técnica constatou que o diálogo divulgado foi travado com outra pessoa, e que “as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes”.

Na nota, o ministro não nega, porém, que tenha conversado com Vorcaro em 17 de novembro do ano passado, dia no qual o banqueiro foi preso pela primeira vez – na primeira fase da Operação Compliance Zero. Pessoas ouvidas pelo Estadão confirmam que houve troca de mensagens entre ambos neste dia.

A troca de mensagens se dava com prints no modo visualização única. Para manter o sigilo, tanto Vorcaro quanto Moraes escreviam textos em seus blocos de notas, capturavam a tela e enviavam as imagens com o recurso que só permite uma única visualização antes de apagar o arquivo.

Como mostrou o Estadão, várias dúvidas pairam no ar depois que a nota veio a público:

1. Moraes afirma que não foi o destinatário das mensagens de Vorcaro vazadas, mas não nega, na nota, que tenha conversado com banqueiro no dia em que ele foi preso, em 17 de novembro do ano passado.
2. Se Moraes não era o destinatário das mensagens nas quais Vorcaro pede ajuda para tentar salvar o Master, sobre qual tema ambos conversaram no dia 17 de novembro, data da prisão do banqueiro?
3. Quem realizou a análise técnica dos dados telemáticos do banqueiro? A nota do STF não menciona o autor da perícia.
4. Como o ministro teve acesso ao material que estava sob sigilo para proceder à análise dos dados?
5. Os contatos dentro das mesmas pastas com os prints do bloco de notas de Vorcaro são dos destinatários das mensagens de Vorcaro, segundo a análise citada pelo ministro?
6. Na troca de mensagens, as respostas do ministro a Vorcaro não são conhecidas por se tratarem de prints de visualização única. No entanto, em resposta à última comunicação do banqueiro registrada, às 20h48, Moraes responde com um emoji de “joinha”, em suposta concordância. Sobre o que ele concordou ou deu uma resposta afirmativa?
7. O ministro avalia como coincidência o fato de o horário dos prints de blocos de notas de Vorcaro ser muito próximo ou até o mesmo do registrado no envio das mensagens do banqueiro a Moraes no dia 17 de novembro, segundo registros obtidos pelo jornal O Globo?
8. Se Moraes conversou com Vorcaro – o que ele não nega -, por que se comunicou com mensagem de visualização única, que some após o interlocutor abri-la?
9. Por que um ministro do STF tinha contato pelo WhatsApp com um banqueiro que, publicamente, já era investigado pela PF?

Questionada sobre esses pontos pela reportagem, a Secretaria de Comunicação do STF afirmou que a manifestação se restringe à nota divulgada mais cedo a pedido de Moraes.

O conteúdo das mensagens

Segundo informações da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, confirmadas pelo Estadão, Vorcaro e Moraes trocaram mensagens pelo WhatsApp durante todo o dia 17 de novembro de 2025, data em que o banqueiro foi preso pela Polícia Federal pela primeira vez.

Dados extraídos do celular do executivo indicam que ele prestava contas ao ministro sobre negociações de venda do banco e sugerem diálogos a respeito de um inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília.

A defesa do banqueiro apresentou ao STF um pedido para investigar o vazamento de informações do conteúdo de seu celular, incluindo “conversas íntimas” e “supostos diálogos com autoridades e até com o ministro do STF Alexandre de Moraes”. O pedido foi acolhido pelo ministro André Mendonça, relator do caso na Corte.

Nesta sexta-feira, Mendonça determinou que a Polícia Federal (PF) abra um inquérito para apurar a origem do vazamento de dados sigilosos de Vorcaro. As informações estavam sob a custódia da PF e foram compartilhadas com a CPI do INSS.

O Estadão confirmou com fontes ligadas ao caso que Vorcaro efetivamente trocou mensagens com Moraes naquele dia por meio de fotos de visualização única. Na extração de dados do celular do banqueiro, há sete imagens de rascunhos com mensagens sobre negociações do Master com o Banco Central. Em alguns desses arquivos, o horário de criação é próximo ao horário de envio das mensagens de Vorcaro ao ministro.

Nos textos, o banqueiro relata ter antecipado o negócio com o grupo Fictor para tentar salvar o banco e menciona que um possível vazamento de informações seria prejudicial, mas poderia servir de gancho para entrar no circuito do processo. Vorcaro questionou o magistrado por duas vezes se havia alguma novidade e chegou a perguntar diretamente: “Conseguiu bloquear?”.

Um dos prints do bloco de anotações do celular de Vorcaro, registrado às 18h32, traz a pergunta: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

A cronologia dos fatos indica que, enquanto falava com o ministro, o banqueiro monitorava o avanço das investigações. Segundo a PF, Vorcaro teria obtido informações sigilosas por meio de um acesso ilegal aos sistemas da própria corporação e tentou peticionar na 10ª Vara Federal de Brasília apenas 18 minutos após a decretação de sua prisão, em uma tentativa de barrar medidas cautelares.

Na última comunicação registrada, às 20h48, Vorcaro respondeu a uma possível dúvida sobre os negócios e afirmou que a movimentação poderia inibir algo não detalhado. Antes de encerrar, avisou que estava indo assinar com investidores estrangeiros, momento em que Moraes teria reagido apenas com um emoji de polegar levantado.

O executivo acabou preso pela PF por volta das 22h, antes de decolar rumo a Malta, de onde seguiria para Dubai.

Mendonça manda PF investigar vazamento

Carlos Viana também reagiu à decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, que determinou a abertura de investigação para apurar eventual vazamento de dados relacionados à CPI.

O senador afirmou receber a medida “com serenidade e respeito institucional”, mas ressaltou que o Congresso possui prerrogativas constitucionais próprias para conduzir investigações.

“O Parlamento não pode abrir mão de suas competências constitucionais de investigar fatos graves que atingem milhões de brasileiros”, escreveu, citando especialmente denúncias que envolvem aposentados e pensionistas.

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