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Calote de R$ 3,6 bi no BB tem origem em 2016 com a Odebrecht e ações da Braskem em garantia

13 de fevereiro de 2026

Por Altamiro Silva Junior e André Marinho

São Paulo, 13/02/2026 – O calote de R$ 3,6 bilhões que o Banco do Brasil reconheceu no balanço no quarto trimestre de 2025, e elevou os índices de inadimplência, envolveu ações da Braskem que o banco recebeu em 2016 como garantia de empréstimos para o então grupo Odebrecht, hoje Novonor, antes de o conglomerado entrar em recuperação judicial em meio aos problemas gerados pela operação Lava Jato.

Além do BB, Bradesco, Santander e Itaú e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são credores da Novonor com uma dívida estimada em R$ 20 bilhões. A Novonor detém o controle da Braskem, com uma participação de 50,1% das ações ordinárias, junto com Petrobras (com uma fatia de 47% das ordinárias).

Por anos, os bancos credores tentaram vender a Braskem e recuperar esses recursos. Mas a venda nunca se concretizou, em meio a temores com o passivo ambiental em Alagoas. Os bancos chegaram a tentar em janeiro de 2022 uma oferta de ações no mercado, que foi cancelada na última hora por causa da queda do preço do papel. Até que no ano passado, os bancos contrataram a gestora IG4 para que um fundo dela assumisse a dívida e ficasse com o controle da Braskem. O negócio foi concretizado, mas ainda precisa de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Quando a IG4 assume a dívida dos bancos, que foi transferida para um fundo, o BB reconheceu como perda a operação, de acordo com fontes. Mas o objetivo é recuperar os recursos depois, com a melhora da Braskem.

A IG4 Capital Group é uma companhia global de investimentos alternativos e situações especiais, famosa por ter recuperado a Iguá Saneamento. A lógica na Braskem é a mesma, tentar ao lado da Petrobras, recuperar a empresa, e com isso fazer suas ações voltarem a subir e vender a companhia no futuro, recuperando o valor para os bancos.

Atualmente, as ações que os bancos receberam como garantia não cobrem nem um quinto da dívida que tinham com a então Odebrecht. Estima-se que a companhia perdeu quase R$ 40 bilhões em valor de mercado nos últimos 5 anos, por conta do ciclo de baixa da petroquímica e dos riscos ligados ao passivo ambiental em Alagoas.

Teleconferência

Sem citar nomes, o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos do BB, Felipe Prince, falou da perda de R$ 3,6 bilhões em teleconferência com analistas ontem em São Paulo. “É um caso antigo, onde algumas soluções foram tentadas e acabamos não conseguindo implementá-las no passado”, disse. “Ele já era um caso problemático e, adequadamente, provisionado há alguns anos. A negociação deu certo, a operação foi regularizada agora, em janeiro, e cedida a terceiros”, completou.

Prince explicou que o caso em questão “já cursava no nosso balaço há muito tempo” e entrou em inadimplência no quarto trimestre de 2025. “As negociações foram frutíferas e implementadas entre dezembro e janeiro. Os instrumentos, especificamente, do Banco do Brasil foram assinados em janeiro e, com isso, a gente cede a operação.”

Polêmica nas redes

A inadimplência de R$ 3,6 bilhões reconhecida pelo BB, e que pela lei do sigilo bancário não pode ter o nome revelado, gerou polêmica nas redes sociais. Vários perfis, principalmente de direita, chegaram a especular que seria o Banco Master, outros falaram que seria o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e outros ressaltaram que trata-se de um “escândalo três vezes maior que a Americanas” que estava sendo ocultado pelo banco.

A repercussão foi tão grande que o BB veio a público novamente nesta sexta-feira divulgar um comunicado ressaltando que não pode revelar nomes. “Em respeito à lei do sigilo bancário, é expressamente proibido que qualquer instituição financeira torne público o relacionamento e as condições de quaisquer operações de seus clientes, exceto em situações que envolvam determinação judicial”, disse em comunicado hoje. “O BB lamenta e refuta veementemente a circulação de informações inverídicas e suspeições sem qualquer fundamento, que circularam em mídias sociais ao longo desta quinta-feira”, conclui a nota.

Para uma fonte ligada ao banco, o assunto só ganhou tanta repercussão porque o BB tem o governo federal como maior acionista, por isso sempre é alvo de mais escrutínio que os bancos privados.

Contatos: andre.marinho@estadao.com; altamiro.junior@estadao.com

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