Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Aumento dos riscos elevam preço e encurtam prazos de contratos de compra e venda de energia

6 de fevereiro de 2026

Por Luciana Collet e Ludmylla Rocha

São Paulo, 05/02/2026 – Os contratos de compra e venda de energia elétrica no mercado livre (PPAs, na sigla em inglês) têm se tornado mais caros e mais curtos em função de mudanças da matriz elétrica e do regramento setorial, com o consequente aumento do riscos, atualmente assumidos sobretudo pelos geradores, como os cortes de geração renovável (curtailment) e modulação. Para especialistas, a mudança “veio pra ficar” e exigirá uma modificações na forma dos agentes fecharem negócios.

“Somando regulação, hidrologia, CVaR (novos parâmetros de aversão a risco), o preço praticamente dobrou desde 2020, em termos nominais, para projetos novos”, disse o diretor-presidente da Envol, Alexandre Viana, durante o evento Energyear Brasil 2026, realizado ontem e hoje, 5, em São Paulo.

De acordo com ele, o valor do megawatt-hora (MWh), que era de R$ 130 no início desta década, chegou a R$ 260, especialmente se consideradas as condições comuns nos PPAs como curva de carga “flat”, isto é, sem levar em conta as oscilações da produção de energia da usina ao longo do dia e/ou do ano.

Estimativas apresentadas pelo diretor-geral da Aurora Energy Research, Rodrigo Borges, apontam que riscos associados a um novo projeto solar, como modulação e curtailment, acrescentam R$ 109,00 por MWh ao custo da energia e até R$ 70,00 por MWh no caso de projetos eólicos. “O maior risco em projeto solar não é curtailment, mas modulação, que responde por R$ 70,00 por MWh desses R$ 109, enquanto eólica fica um pouco menos exposta porque tem geração mais ‘flat'”, explicou.

O diretor de estratégia e negócios para Energia e Serviços de Utilidade Pública da Deloitte, Jovanio Santos, afirmou que tem observado um maior “balanceamento de riscos” entre gerador e consumidor nas recentes negociações que tem assessorado, especialmente no que diz respeito aos cortes de geração. “É uma discussão que vejo mais presente nos contratos”, afirmou.

Para Viana, o consumidor terá “decisão difícil a ser tomada”: travar riscos e pagar mais caro pela energia, ou assumir alguns desses riscos. Para ele, será necessário que empresas que têm parte relevante de seus custos associados à energia elétrica passem a avaliar o suprimento de energia como parte central (core) do negócio, especialmente se a eletricidade representar mais de 20% do total de custos. “Zerar todos os riscos, por todo o prazo do contrato, de 15 anos, pode ser complicado. Pode ser melhor zerar cinco anos e rediscutir após esse prazo”, disse, salientando que em momentos de estresse, como o atual, todos os riscos ficam sobreprecificados.

Em sua avaliação, o corte de geração é um dos riscos hoje estimado em valores elevados, tendo em vista os altos níveis de cortes realizados ao longo de 2025. “Atualmente, o curtailment está acima de 20% [do potencial de geração de uma usina], mas no longuíssimo prazo acreditamos que ficará em 5%”, disse, acrescentando que até 2030 os cortes devem se manter em 15%.

Santos, da Deloitte, aponta que, diante dos novos patamares de risco e preço, os geradores precisam buscar inovação, por meio de estruturas contratuais que atendam diferentes tipo de consumidor, como forma de extrair maior rentabilidade dos projetos.

A diretora da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica, Josiani Napolitano, destacou que alguns riscos, sobretudo o curtailment, têm afetado a visão de financiadores sobre os projetos de geração renovável.

“Estamos em um momento muito delicado; bancos com receio, geradores também, estamos passando por um período de adaptação em que as coisas começam a se desenhar e clarificar”, disse.

Segundo ela, o setor de geração terá de continuar convivendo com os cortes, mas a atual falta de tratamento definido para eles traz preocupação.

A lei 15.269/2025, que moderniza o marco regulatório do setor elétrico, propôs uma solução para os cortes realizados de setembro de 2023 a novembro de 2025. “Mas restará à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) regulamentar o futuro”, disse. “A coisa começa a se configurar, espero que possa ser encaminhado”, acrescentou.

Contato: luciana.collet@estadao.com; ludmylla.rocha@broadcast.com

Veja também