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ONG norueguesa diz que fim da moratória da soja eleva incerteza comercial e custos

3 de fevereiro de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 03/02/2026 – A substituição do sistema coletivo da Moratória da Soja por compromissos individuais das tradings tende a aumentar o risco comercial, elevar o custo de compliance e reduzir a previsibilidade para compradores internacionais da soja brasileira. A avaliação é da diretora de mercados livres de desmatamento Ingrid Tungen, da Rainforest Foundation Norway, organização independente que atua há décadas no monitoramento de florestas tropicais e na análise dos vínculos entre cadeias de commodities, desmatamento e financiamento climático.

Segundo a executiva, o ponto central da mudança não é apenas ambiental, mas econômico e operacional. A moratória funcionava, na avaliação da ONG, porque estabelecia um padrão único de monitoramento territorial, com regras homogêneas, listas comuns de exclusão e uma data de corte amplamente reconhecida pelo mercado. “A força da moratória estava na aplicação das mesmas regras por todas as empresas. Isso dava previsibilidade ao mercado e permitia que compradores, investidores e a sociedade civil avaliassem o cumprimento de forma consistente”, afirmou Tungen.

Com o esvaziamento do arranjo coletivo, a Rainforest Foundation Norway avalia que a cadeia passa a operar com múltiplos sistemas, metodologias e parâmetros. “O risco agora é de fragmentação do monitoramento. Cada empresa passa a definir seus próprios critérios, seus próprios sistemas de satélite e suas próprias auditorias. Isso torna a detecção de desmatamento menos comparável e mais difícil de verificar de forma independente”, disse a diretora.

A leitura da organização ganha relevância em um momento em que o varejo europeu mantém exigências ambientais rígidas. Em 26 de janeiro, grandes redes do Reino Unido e da Europa enviaram carta aos presidentes globais das principais tradings agrícolas informando que passarão a avaliar cada empresa de forma individual. O documento, obtido pelo Broadcast Agro, manteve a exigência de exclusão de soja produzida no bioma Amazônia em áreas desmatadas após 2008 e estabeleceu prazo até 16 de fevereiro para que as companhias detalhem seus compromissos ambientais e seus mecanismos de controle.

Para Tungen, esse movimento preserva a pressão de mercado, mas não substitui plenamente o efeito disciplinador de um pacto setorial. “A exigência continua existindo, mas agora é aplicada de forma fragmentada. Isso abre espaço para diferenças relevantes entre empresas, seja em datas de corte, metodologias de monitoramento ou grau de transparência. Para o comprador, isso significa mais custo de checagem e menos clareza”, afirmou.

A Rainforest Foundation Norway aponta ainda que a adoção de compromissos individuais pode enfraquecer a responsabilização entre pares, que era um dos pilares da moratória. “Antes, as empresas respondiam coletivamente por um mesmo padrão. Agora, cada uma passa a avaliar a si mesma, o que reduz a pressão entre concorrentes e limita a capacidade de pesquisadores e organizações independentes de verificar os dados”, disse Tungen.

Como exemplo de assimetria potencial, a organização citou a decisão da trading Cargill de adotar uma data de corte posterior, em 2020, em seus compromissos individuais. Segundo a ONG, mudanças desse tipo podem permitir a entrada de soja oriunda de áreas desmatadas nas cadeias globais e elevar o risco reputacional para compradores finais. “Datas de corte diferentes enviam sinais contraditórios ao mercado sobre o que é aceitável”, afirmou a diretora.

No plano territorial, a Rainforest Foundation Norway avalia que a retirada da barreira comercial coletiva pode alterar as expectativas econômicas em regiões de fronteira agrícola. Estudos acadêmicos citados pela entidade indicam a existência de áreas florestais aptas ao cultivo de soja em Estados como Pará, Mato Grosso e Rondônia. Embora nem todas essas áreas tenham viabilidade imediata, a ONG considera que a expectativa de maior liquidez futura pode estimular movimentos especulativos, o que tende a aumentar o risco percebido por compradores e financiadores.

A entidade ressalta que os impactos não se limitam ao desmatamento direto. A expansão da soja sobre áreas já abertas pode deslocar a pecuária para regiões de fronteira, ampliando a pressão indireta sobre florestas. “Sinais precoces dessa interação entre soja e pecuária são fundamentais. A conversão de áreas já desmatadas pode empurrar outras atividades para regiões mais sensíveis”, afirmou Tungen.

Do ponto de vista técnico, a Rainforest Foundation Norway reconhece que o Brasil dispõe de instrumentos públicos robustos de monitoramento, como os sistemas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além de plataformas independentes como o MapBiomas. O desafio, segundo a entidade, será integrar essas bases a políticas corporativas transparentes e comparáveis em um cenário sem coordenação setorial.

Para a organização norueguesa, o papel do mercado será decisivo nos próximos meses. “Neste momento, sinais fortes, responsabilidade e liderança dos compradores são essenciais. É preciso deixar explícito que a tolerância é zero para soja ligada ao desmatamento na Amazônia, que a data de corte de 2008 deve ser respeitada e que a rastreabilidade em nível de fazenda é condição para acesso a mercado”, afirmou Tungen.

Na avaliação da Rainforest Foundation Norway, o novo arranjo não inviabiliza a exportação de soja brasileira, mas torna o ambiente mais exigente. “O risco agora é menos previsibilidade e mais custo para provar conformidade. Esse é um tema central para o mercado”, concluiu.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

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