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Especial: acordo Mercosul-UE turbina competitividade do agro, mas efeitos são mistos

2 de fevereiro de 2026

Por Isadora Duarte

Brasília, 02/02/2026 – O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) promete reduzir tarifas, criar regras mais estáveis de comércio, harmonizar medidas sanitárias e aproximar o agronegócio brasileiro dos consumidores de alta renda do bloco. Entre seus apelos comerciais está o potencial de elevar a competitividade do agronegócio brasileiro, que poderá acessar o mercado europeu, bem como seus pares sul-americanos, em condições de igualdade frente a concorrentes globais. É consenso no setor produtivo que os impactos são positivos, porém em graus diferentes a depender de cada cadeia agropecuária.

A Eurasia Group é taxativa ao apontar o agronegócio latino-americano como o maior beneficiário do tratado do lado do Mercosul. Alguns setores do agronegócio europeu também verão benefícios significativos, observa a Eurasia, principalmente produtores de vinho e alimentos premium, especialmente aqueles protegidos por indicações geográficas, que deverão ser incorporadas pelo Mercosul com poucas exceções. Para a Eurasia, as economias de custos e oportunidades de negócios em ambos os lados serão significativas a partir da concessão de termos preferenciais, além de “forjar vínculos econômicos mais estreitos entre UE e Mercosul” e integração mais direta do Mercosul às cadeias globais de suprimentos”.

Para o agronegócio nacional, os efeitos econômicos do tratado comercial devem ser observados sobretudo pelo aspecto tarifário. Com o acordo de livre comércio, o agronegócio brasileiro vai obter melhores condições tarifárias para acesso ao seu segundo maior destino. Hoje a União Europeia já é responsável por 15% de todas as exportações de produtos do agronegócios, com US$ 25,2 bilhões exportados em 2025. O acordo prevê tratamento tarifário específico para produtos agrícolas, com redução de alíquotas para 91% dos produtos em até dez anos.

O acordo prevê exportação de frutas, como abacates, limões, limas, melões, melancias, uvas de mesa e maçãs, e café do Mercosul à UE sem tarifas e sem cotas. Outros produtos agropecuários do Mercosul estão sujeitos a cotas e tarifas reduzidas em relação aos tributos atuais, com condições como uma gradual desgravação (retirada da tarifa parcial ou total). Também terão tarifas zeradas gradualmente, mas com cotas, as exportações de açúcar, etanol, arroz, mel, milho, sorgo, queijos e cachaça. Produtos como suco de laranja, manteiga e iogurte terão margem de preferência. Bananas terão alíquotas reduzidas, sem limitação de volume. Já as proteínas exportadas pelo Mercosul à UE terão cotas com alíquota reduzida.

O governo brasileiro também vê o setor produtivo como um dos grandes beneficiados do acordo de livre comércio. O Ministério da Agricultura estima que com o acordo as exportações do setor podem crescer em torno de US$ 5 bilhões por ano aos países europeus, podendo se aproximar de US$ 30 bilhões em comércio em cerca de cinco anos. Os impactos começarão a ser observados em períodos diferentes conforme os setores, já que os produtos têm prazos específicos de desgravação.

Além dos reflexos no fluxo comercial e da garantia de melhor acesso tarifário, a Europa é conhecida por ser um mercado remunerador, com consumidores com renda per capita elevada, lembra o secretário de Comércio e Relações Internacionais da pasta, Luis Rua. “O acordo é positivo no curto, médio e longo prazo. É também um estímulo a setores pouco internacionalizados para que vejam na União Europeia um mercado com vantagem tarifária”, disse Rua, em entrevista recente ao Broadcast Agro.

O consenso entre as principais entidades do agronegócio é de que o acordo cria um arcabouço de previsibilidade regulatória e acesso gradual a um mercado de alto poder aquisitivo, capaz de atrair investimentos e estimular produtos de maior valor agregado – ainda que, em vários segmentos, as cotas e salvaguardas limitem ganhos imediatos de volume.

No setor de carnes, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) destaca que o País exporta sobretudo cortes de alto valor agregado, carnes nobres premium, aos países europeus. Com o acordo, as vendas da proteína do Mercosul terão alíquota reduzida, mas com limite de volume. “Estamos otimistas com o acordo, sobretudo pelo aspecto da redução tarifária no médio prazo”, afirmou o presidente da Abiec, Roberto Perosa, que vê potencial de aumento de até 7% ao ano no volume comercializado.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) também enfatizou a existência de cotas com tarifas preferenciais para frangos e suínos. “O acordo representa um avanço relevante para a previsibilidade comercial e para o fortalecimento das relações entre os blocos, com impactos graduais e bem delimitados para o setor de proteínas animais”, avaliou a entidade, em nota.

No setor de suco de laranja, a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) estima uma economia tarifária acumulada de US$ 250 milhões em cinco anos. “Em cinco anos, já alcançaremos uma tarifa 50% menor do que a praticada atualmente”, afirmou o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, em nota, considerando a ratificação do acordo ainda neste ano.

Para os exportadores de café que têm na Europa seu principal destino, o acordo vai gerar competitividade adicional ao grão brasileiro. “Pensando no nosso concorrente, o Vietnã, estaremos em isonomia”, aponta o CEO do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, ao citar que a tarifa sobre café solúvel, hoje de 9%, será zerada em quatro anos. A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) afirma que a redução gradual de tarifas cria chance de ampliar a exportação de cafés industrializados aos países europeus.

A Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR), por sua vez, vê no acordo base jurídica para destravar o embargo sanitário que persiste sobre os pescados nacionais desde 2017. A entidade cita ainda a eliminação imediata de tarifas de 7,5% a 9% para tilápia e peixes nativos e inclusão no sistema de pre-listing “colocando o País em condições de igualdade com grandes competidores globais, como o Vietnã”.

Em comum entre os setores, o tratado comercial reforça a inserção competitiva do agronegócio brasileiro ao combinar previsibilidade jurídica com incentivos a cadeias de maior valor. “Seu valor econômico central reside menos na redução tarifária isolada e mais na previsibilidade institucional, na estabilidade das regras de acesso ao mercado e na mitigação de incertezas regulatórias”, resume a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), que projeta alta de até R$ 3,5 bilhões anuais nas exportações de alimentos industrializados e geração potencial de até 30 mil empregos.

Do ponto de vista sanitário, o acordo reconhece o princípio da regionalização e aponta para o compromisso de adoção do sistema de pré-listing para habilitação de estabelecimentos exportadores. Há convergência ainda entre as diversas cadeias agropecuárias de que o acordo é um passo macroeconômico essencial para reduzir custos, diversificar mercados e atrair investimento, embora os representantes do setor reconheçam que o ritmo dos ganhos dependerá da conclusão das avaliações legislativas e da ratificação pelos Legislativos dos blocos para que o acordo entre em vigor. Nesse contexto, a revisão jurídica acionada pelo Parlamento Europeu adiciona incerteza quanto à celeridade da implementação.

Contato: isadora.duarte@estadao.com

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