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Especial: Após rombo de R$ 85,57 bi em 2025, poupança pode ter saída líquida menor em 2026

12 de janeiro de 2026

Por Marianna Gualter

Brasília, 12/01/2026 – A caderneta de poupança registrou saída líquida pelo quinto ano seguido, em 2025. Os saques superaram os depósitos em R$ 85,57 bilhões no período. O rombo foi mais de cinco vezes superior ao registrado no ano anterior, de R$ 15,47 bilhões, e se consolidou como o terceiro resultado mais negativo da série – atrás apenas de 2023 (R$ 87,8 bilhões) e 2022 (R$ 103,2 bilhões).

Para economistas consultados pela Broadcast, o desempenho está associado a fatores conjunturais e estruturais – como o nível elevado da taxa de juros e mudanças no comportamento dos investidores.

À frente, eles avaliam que a tendência é de persistência dos resultados negativos, devido à perda de protagonismo da poupança como instrumento de investimento, mas ponderam que a saída líquida em 2026 pode ser menor do que em 2025. A perspectiva de alívio no curto prazo considera fatores como o aumento da renda disponível associado a mudanças no Imposto de Renda (IR), o mercado de trabalho ainda robusto e a maior incerteza relacionada ao ano eleitoral.

“Por ser um ano de mais incerteza, talvez as pessoas estejam um pouco mais cautelosas”, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo. Ele menciona que as propagandas eleitorais tendem a apresentar cenários “meio catastróficos” sobre a possibilidade de vitória dos oponentes, o que pode fomentar esse sentimento entre os consumidores e resultar em um fluxo menor de retiradas.

Também podem contribuir para esse movimento as mudanças recentes nas regras do saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que deram ao trabalhador mais uma alternativa para cobrir desbalanceamentos entre receitas e despesas no orçamento familiar, acrescenta.

Por outro lado, o economista avalia que a tendência é de manutenção do desempenho dos depósitos, em função de um mercado de trabalho que deve seguir sobreaquecido. “Na pior das hipóteses, talvez tenhamos um resultado da caderneta de poupança semelhante ao que tivemos em 2025.”

Para o doutor em economia e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin, é possível que o aumento da faixa de isenção do IR contribua com uma saída líquida menor da poupança em 2026. Ele ressalta que para a população de renda mais baixa, que ganha de R$ 3 mil a R$ 4 mil por mês, a isenção tende a ter um impacto importante, representando quase a um salário adicional no ano. Pondera, todavia, que é difícil cravar que se essa renda irá para a poupança ou para o consumo.

A possibilidade de contribuição positiva do aumento da isenção do IR para o resultado da caderneta também é citada pelo líder de Relações Institucionais da Polo Capital, Arnaldo Lima, junto com a perspectiva de inflação mais comportada. Segundo ele, esses fatores podem reduzir o endividamento da população e melhorar marginalmente a captação.

Ele enfatiza, no entanto, que o desafio da poupança é estrutural. “Mesmo em um cenário macro mais favorável, a tendência é de que a poupança continue perdendo protagonismo como instrumento de investimento, o que sugere, no melhor dos casos, estabilização em níveis baixos, e não uma reversão consistente do quadro negativo”, diz.

2025

O saque líquido em 2025 foi composto por R$ 4,272 trilhões em depósitos e R$ 4,358 trilhões em retiradas. Ambos os fluxos aumentaram nominalmente em relação a 2024, quando somaram R$ 4,197 trilhões e R$ 4,213 trilhões, respectivamente.

Para Rochlin, três fatores explicam, em maior ou menor grau, a multiplicação do resultado negativo da captação líquida entre os anos. O primeiro é o avanço da Selic: a taxa começou 2024 em 11,75% e fechou o ano em 12,25%. Em 2025, subiu até 15% – patamar em que, por ora, permanece. “Com uma taxa muito maior, isso significa que o ganho fora da poupança passa a ser muito maior do que dentro”, afirma.

Como segundo fator possível, elenca o aumento da bancarização nos últimos anos, que teria concedido acesso a investimentos de maior rentabilidade a uma nova parcela da população. Por último, cita o aumento do endividamento das famílias brasileiras, que pode ter motivado uma parte das retiradas, seja para pagamento de dívidas ou para consumo.

A renda disponível pressionada e o custo elevado do crédito também são citados por Lima, que menciona ainda uma mudança estrutural no perfil dos poupadores e uma maior sofisticação financeira, “que leva os investidores a migrarem para títulos públicos e fundos de investimento, cuja rentabilidade supera com folga a da poupança”.

O economista enfatiza que o resultado negativo de R$ 85 bilhões merece atenção, uma vez que a queda da captação afeta diretamente políticas públicas baseadas em crédito direcionado, especialmente o financiamento imobiliário.

Galhardo pondera que o resultado poderia ser pior, já que a poupança concorre com investimentos de maior retorno, como Tesouro Direto e renda variável. Ele lembra que a captação líquida tem oscilado nos últimos anos e considera que, diante dos desafios de 2025, o aumento do resultado negativo pode ser visto, “com muitas aspas”, como positivo.

Menciona ainda que o saldo da caderneta permaneceu acima de R$ 1,0 trilhão e associa esse desempenho ao comportamento mais forte registrado pela Taxa Referencial (TR) em 2025, em comparação aos anos anteriores.

Contato: marianna.gualter@broadcast.com.br

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