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Exclusivo: Tarcísio turbina acenos ao eleitor evangélico nas redes e no discurso mirando 2026

2 de dezembro de 2025

Por Geovani Bucci

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), intensificou de maneira contundente os acenos ao eleitorado evangélico ao longo deste ano, tanto nas redes sociais quanto em discursos públicos. Segundo levantamento da empresa de análise de dados Bites, realizado a pedido do Broadcast Político, o volume de postagens de teor religioso feitas pelo governador vem crescendo consistentemente e atingiu seu patamar mais alto em 2025.

De acordo com o diretor técnico da consultoria, André Eler, multiplicaram-se as citações de Tarcísio a passagens bíblicas e referências a orações, elementos que passaram a integrar o vocabulário do chefe do Executivo paulista. O aumento nas interações acompanha esse movimento e reforça que Tarcísio está cada vez mais habituado a dialogar com o público neopentecostal.

“Já são quase quatro vezes mais menções a temas religiosos, versículos, Deus ou ao Evangelho em comparação com 2023”, afirma Eler. “No ano passado, foram 36 menções; em 2024, o número subiu para 83; e agora, em 2025, até agora, já chegamos a 139.”

A pesquisa considerou dados de Instagram, Facebook e X, a partir do monitoramento de uma lista de palavras-chave associadas ao vocabulário típico do eleitorado evangélico. O volume de interações acompanhou, de forma proporcional, o aumento das publicações feitas pelo governador ao longo dos meses e dos anos. A elevação não foi uniforme e atingiu picos em certas datas do ano, demonstrando uma estratégia clara.

Em 2023, primeiro ano de mandato, Tarcísio registrou 2.183.589 interações em postagens de teor religioso. Em 2024, o número saltou para 3.850.781. Já em 2025, o governador alcançou seu maior patamar até agora, com 7.161.530 interações, sendo também o ano com o maior volume de publicações desse tipo. A mudança na abordagem digital, acompanhada por um Tarcísio mais brincalhão, tem feito o chefe do Executivo paulista aumentar o seu alcance na internet. Hoje, ele tem mais de 5 milhões de seguidores no Instagram, por exemplo.

O ápice do engajamento com o eleitorado evangélico ocorreu em junho deste ano, quando o governador subiu em um trio elétrico durante a 33ª Marcha para Jesus e se enrolou na bandeira de Israel. Em meio às especulações sobre sua possível candidatura à Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Tarcísio adotou um discurso marcado por termos como “reconciliação”, “perdão” e alertas contra “corrupção no País” e “idolatria”. “É o dia de louvar, de agradecer, de se humilhar, de orar, de pedir perdão pelos nossos caminhos. E aí, a praga vai embora. O mal se afasta. A gente se reencontra com a prosperidade”, declarou.

As referências religiosas aparecem com ainda mais força nos eventos de entrega de moradias, área sensível para o petismo por causa de suas políticas habitacionais e de renda. Em diferentes agendas, Tarcísio evocou trechos de Crônicas 7:14 (“Se o povo se humilhar, orar e se arrepender, eu ouvirei do céu e sararei a sua terra”) e passagens das cartas de Paulo, como Romanos (“Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação e perseverem na oração”). Muitas vezes, canções gospel compõem a ambiência promovida pela gestão nesses compromissos.

Associando religião e personalismo, ele também já citou a “mulher virtuosa” de Provérbios ao elogiar a primeira-dama do Estado, Cristiane Freitas. Em outros momentos, fez menções a livros como Coríntios, Efésios, Gênesis e Êxodo, consolidando uma retórica fortemente ancorada no repertório bíblico, ainda que soe memorizada e pouco natural. Não é incomum que Tarcísio relembre aos apoiadores que, apesar do pai católico, sua mãe – dona Maria Alice, que seguia a corrente evangélica da Igreja Pentecostal Vida Nova – lhe ensinou “as coisas de Deus”.

Além disso, os compromissos com lideranças neopentecostais também se ampliaram ao longo do mandato. Se no início Tarcísio dialogava majoritariamente com pastores da maior igreja evangélica do País, a Assembleia de Deus, mais ligados ao seu partido, hoje mantém interlocução frequente com representantes da Sara Nossa Terra, da Igreja Batista e da Renascer em Cristo – esta última declarada por ele patrimônio cultural e imaterial do Estado de São Paulo.

A presença de figuras religiosas na agenda de governo tornou-se recorrente também. No início de novembro, durante a inauguração de um hospital em Santana de Parnaíba, o evento foi aberto com uma roda de oração conduzida pelo bispo Dom Arnaldo, de Jundiaí, e pelo apóstolo Estevam Fernandes, da Renascer Praise.

“A gente tem que se alegrar na esperança, porque nossa esperança está em Cristo”, afirmou Tarcísio. “Quando a gente se toca da brevidade da vida, lembra-se do sacrifício de Cristo na cruz. Isso resolve todos os problemas. O maior medo do ser humano é o medo da morte, e Cristo resolveu isso na cruz por nós.”

O chefe do Executivo paulista também demonstrou publicamente ter proximidade com o pastor Silas Malafaia, o mais influente em torno do bolsonarismo. Durante o ato em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista em 7 de setembro deste ano, o líder religioso criticou os governadores de direita e centro-direita que tentam colocar-se no jogo eleitoral de 2026 sem o aval explícito do capitão reformado.

Depois, Malafaia fez uma ressalva dirigindo-se ao governador Tarcísio: “É meu amigo, já fiz críticas públicas, no privado, mas agora esse cara está sendo um ‘leão’ em favor da anistia”. As declarações foram recebidas com um sorriso por Tarcísio. Nesse mesmo dia, o chefe do Executivo paulista criticou o Supremo Tribunal Federal (STF) e chamou o ministro Alexandre de Moraes de “tirano”.

A interlocução com a população evangélica já segue em disputa mirando as eleições e, diante da recente recuperação de Lula nas pesquisas, Malafaia voltou a mobilizar sua base nas redes sociais. Em um vídeo dirigido aos fiéis, disse que um “verdadeiro cristão” não deveria apoiar o petista no ano que vem. “Há 23 anos, em 2002, eu apoiei Lula. Quando ele começou a mostrar a ideologia dele, eu caí fora. Vergonha seria estar ao lado dele hoje, depois de tudo o que defende e de toda a lama de corrupção da qual participaram”, declarou.

Apesar da melhora nas pesquisas, o presidente Lula ainda segue majoritariamente rejeitado entre os evangélicos. Segundo a mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada no último dia 11 de novembro, o petista tem 58% de desaprovação nessa parcela da população (eram 69% em julho) e 38% de aprovação (eram 28%).

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