8 de novembro de 2025
Por Antônio Paiva e Alessandro Fernandes, especiais para o Estadão
São Paulo, 08/11/2025 – De um lado, a paisagem natural com montanhas e faixa litorânea do Rio de Janeiro atrai competições de esportes ao ar livre, o que se soma ao seu legado olímpico. De outro, a concentração de eventos do esporte mundial em São Paulo e a necessária infraestrutura para tal permitiram duplicar os torneios no último ano. Não à toa, ambas as cidades são finalistas como Melhor Destino de Turismo Esportivo no World Travel Awards 2025, maior premiação do setor de viagens. A categoria reconhece destinos de destaque no turismo esportivo global, contribuindo para a visibilidade internacional, maior fluxo de visitantes e investimentos em infraestrutura.
Na capital paulista, o sucesso de décadas de Fórmula 1 e a realização de jogos da National Football League (NFL) resultaram em uma onda de campeonatos. Segundo o Visite São Paulo Convention Bureau, os eventos esportivos cresceram 104% em um ano, passando de 50 em 2024 para 102 em 2025. E o público saltou de 816 mil pessoas para 3,2 milhões.
Entre elas, o cearense Raul Caetano, apaixonado pelos GPs desde a infância. “Sempre fui fã do Lewis Hamilton e pensei: por que não ver uma corrida ao vivo?”, conta o bancário. Ele já esteve quatro vezes no Autódromo de Interlagos, para acompanhar o Grande Prêmio de São Paulo, e agora planeja voltar acompanhado do filho.
Infraestrutura e hotéis de São Paulo
“São Paulo tem quarto hoteleiro, espaço para eventos, grande gastronomia e mobilidade urbana. Tudo isso facilita muito para ser o principal atrativo aqui da América do Sul”, explica o presidente-executivo da Visite São Paulo Convention Bureau, Toni Sando. Ele também lembra que estádios da cidade como Allianz Parque e Neo Química Arena, junto com o Autódromo de Interlagos, tornaram-se equipamentos de entretenimento, promovendo atividades além do esporte – os eventos musicais dobraram em São Paulo no 1º semestre de 2025.
Para Gustavo Pires, CEO da São Paulo Turismo (SPTuris), empresa oficial de turismo da capital, a cidade é uma das poucas da América Latina com capacidade de receber competições desse porte. “Entendemos que é algo que traz benefícios à cidade, pois movimenta a nossa economia, gera empregos e postos de trabalho, além da exposição de São Paulo em nível mundial.”
São Paulo tem quarto hoteleiro, espaço para eventos, grande gastronomia e mobilidade urbana. Tudo isso facilita muito para ser o principal atrativo aqui da América do Sul
Pires conta ainda que há o desejo de finalizar uma arena indoor no Distrito Anhembi, com capacidade para cerca de 20 mil pessoas, para que a cidade possa receber jogos como os da NBA ou a disputa de algum cinturão do UFC.
Grande Prêmio e jogo da NFL
Considerado o principal evento recorrente do calendário esportivo brasileiro, o GP de São Paulo faz parte do campeonato de Fórmula 1 desde 1973, com exceção de 1978 e de 1981 a 1989, quando a corrida foi disputada no Rio de Janeiro, e em 2020, devido à pandemia da covid-19.
Para o CEO do GP de São Paulo, Alan Adler, o sucesso da Fórmula 1 no Brasil se deve à qualidade das corridas, além da infraestrutura da capital, em especial de sua logística de transporte e rede hoteleira. “Boa parte do público vem de fora da cidade, o que traz um impacto extremamente positivo sob a forma de geração de emprego e aumento da arrecadação”, explica.
A edição de 2024 teve público recorde de 291.717 pessoas no Autódromo de Interlagos, um crescimento de 9,25% em comparação com o ano anterior, de acordo com dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) a partir de informações da Secretaria Municipal de Turismo. Mais do que isso, os três dias de evento tiveram um impacto econômico de R$ 1,96 bilhão para São Paulo, aumento de 14,3% em relação a 2023.
Além da F1, o Autódromo de Interlagos recebeu neste ano as etapas da Fórmula E e das 6 Horas de São Paulo, fazendo da cidade a única no mundo a acolher três das principais categorias da Federation Internationale de l’Automobile (FIA). Este último, realizado em junho, injetou mais de R$ 408 milhões na economia, de acordo com a SPTuris.
Mesmo esportes com os quais o brasileiro não está tão familiarizado como o futebol americano foram bem-recebidos. Com apenas duas edições, o São Paulo NFL Game já pode ser considerado um sucesso para o turismo da cidade. Segundo Pires, da SPTuris, 57% das pessoas que compareceram às partidas eram de fora da capital – a média de público em ambos os jogos foi de 47,5 mil pessoas. A NFL promove jogos fora dos Estados Unidos desde 2007, mas só em 2024 e 2025 é que São Paulo foi incluída na programação.
Em 2024, a disputa teve um impacto de cerca de R$ 330 milhões, incluindo gastos durante o evento e a permanência na cidade. “Os megaeventos atraem mais visibilidade da mídia, do público de outros Estados e países, gerando movimentação maior também”, afirma. Pires ainda não tem os números de 2025, mas imagina que serão parecidos ou maiores. O que ele já pode adiantar é que houve um aumento de quase 104% do público entre 50 e 59 anos e de 166% de pessoas com mais de 60 anos.
Em 2026, o jogo da NFL será realizado no Estádio do Maracanã, no Rio. A chegada do futebol americano faz parte de um acordo para que sejam realizadas ao menos três partidas nos próximos cinco anos na capital fluminense.
No Rio, natureza e legado olímpico
Conhecida pelas belezas naturais, montanhas e uma generosa faixa litorânea, a segunda capital mais populosa do país reúne características ideais para a prática de diversos esportes ao ar livre, de maratonas à natação, passando por vôlei de praia e triatlo. Em 2024, por exemplo, 78 dos 340 eventos esportivos movimentaram R$ 1,4 bilhão, segundo a fundação Visit Rio. De acordo com o estudo Rio o Ano Inteiro, elaborado pela prefeitura, o turismo esportivo representou 8,5% dos eventos realizados na cidade no ano passado.
Além de competições ao ar livre, a utilização de equipamentos indoor como a Arena Carioca, o Velódromo e o Parque Olímpico ampliam o calendário para além da sazonalidade do clima. “A cidade consolidou uma infraestrutura esportiva de padrão internacional e, mais do que isso, ganhou reconhecimento e credibilidade no cenário global”, diz Bernardo Fellows, presidente da Riotur.
Para ele, isso permite sediar grandes eventos e impulsiona a presença de atletas. Até o fim de setembro, a cidade abrigou 264 eventos esportivos, de acordo com o Visit Rio Convention Bureau, e movimentou US$ 332,7 milhões, representando 21,7% de toda a receita prevista no calendário de eventos do ano.
O Rio de Janeiro já foi eleito nove vezes Melhor Destino de Turismo Esportivo na premiação regional da América Latina do global World Travel Awards. “Há uma combinação de natureza, infraestrutura e um clima agradável para a prática esportiva. Além disso, a própria geografia da cidade ajuda bastante. Então, tudo isso contribui para o sucesso na prospecção de eventos esportivos”, destaca Luiz Strauss, presidente-executivo da fundação Visit Rio.
De corrida de rua a ginástica
Embora seja referência mundial em esportes de praia, surf e triatlo, o Rio tem um calendário diversificado e vem recebendo, nos últimos anos, provas de corrida de rua, ciclismo, esportes de luta, automobilismo, eventos de ginástica e torneios internacionais de tênis. Somente no primeiro semestre, a capital foi sede da Maratona do Rio, do L’Étape (etapa do circuito de ciclismo amador), do Rio Open, do Ironman, do UFC e do Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica. “A Maratona do Rio foi um dos maiores destaques: entre os 60 mil participantes, 85% eram turistas, o que demonstra o forte impacto econômico e o potencial do esporte como indutor de viagens”, diz Fellows, da Riotur.
A Maratona do Rio foi um dos maiores destaques: entre os 60 mil participantes, 85% eram turistas, o que demonstra o forte impacto econômico e o potencial do esporte como indutor de viagens
No ano que vem, a capital fluminense vai sediar uma das etapas do SailGP, a liga global de corridas de vela na água, que será realizada na Baía de Guanabara em abril de 2026. Em 2027, é uma das sedes para os jogos da Copa do Mundo de Futebol Feminino – que também terá partidas em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza.
Em 2029, o Rio será palco do Mundial de Tênis de Mesa. Apesar desses destaques, a candidatura Rio-Niterói, que era favorita para receber os Jogos Pan-Americanos e Parapan-Americanos de 2031, acabou derrotada por Assunção, no Paraguai.
Em ambas, torneios de tênis
As duas capitais também dividem os principais torneios de tênis do Brasil: Rio Open e SP Open. Organizados pela IMM, ambos já trouxeram grandes nomes para as quadras brasileiras, como Rafael Nadal, Carlos Alcaraz, Beatriz Haddad Maia e João Fonseca.
O Rio Open, considerado o maior torneio de tênis da América do Sul, é um ATP 500 dentro do tênis masculino (eventos que distribuem 500 pontos ao vencedor). Na sua primeira edição, em 2014, recebeu 43 mil pessoas. Em 2019, o público já era de 55 mil pessoas. Agora, 11 anos depois do primeiro campeonato, chegou a 69.350 espectadores e gerou R$ 170 milhões na economia do Estado e 5 mil empregos diretos e indiretos.
A relevância do campeonato para o cenário brasileiro e o bom desempenho de tenistas brasileiras, como Beatriz Haddad Maia e Luísa Stefani, fizeram com que São Paulo recebesse neste ano o SP Open, um WTA 250 no tênis feminino mundial (campeonato que concede 250 pontos), depois de um hiato de 25 anos. Mais de 33 mil pessoas compareceram ao longo dos nove dias de torneio, que também gerou 3,5 mil empregos diretos e indiretos e implicou na reforma de sete quadras públicas do Parque Villa-Lobos.
“O protagonismo das brasileiras mostrou que o torneio tem papel fundamental em fortalecer o tênis feminino no país, inspirando meninas a acreditarem em suas carreiras”, afirma Marcia Casz. “Esses eventos não apenas atraem grandes nomes do esporte, mas geram oportunidades de negócios, movimentam o turismo e projetam o Brasil de forma positiva no cenário internacional.”
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