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TACO 2.0

O jeitão de Trump Always Chickens Out e a guerra de narrativas mexe com preço de ativos como o petróleo. Saiba mais

30 de março de 2026

Por Isabella Pugliese Vellani e Pedro Lima

As tensões no Oriente Médio têm dado a sensação de um episódio inédito na história, mas com um roteiro repetido. Enquanto o conflito incitado pelos EUA e Israel contra o Irã avança, o mundo acompanha declarações ambíguas e contraditórias, no estilo morde e assopra, que saem de Washington pela boca do presidente americano, Donald Trump.

Para analistas, as reiteradas sinalizações de Trump por um cessar-fogo mostram que o mandatário americano reforçou sua política TACO (Trump Always Chickens Out, algo como Trump sempre amarela ou recua, na tradução em português). O termo descreve essa mania recorrente do líder da Casa Branca de subir o tom, fazer ameaças tarifárias ou militares e, poucos dias depois, dar aquele passo atrás estratégico.

Mas a tática de morde e assopra não parece mais funcionar como antes. Para a analista sênior do Swissquote Bank, Ipek Ozkardeskaya, Donald Trump sim “amarelou” contra o Irã porque, nas palavras dela, a mordida iraniana provavelmente era grande demais para ser engolida. No entanto, ainda segundo Ozkardeskaya, o fato de ele recuar não vai acalmar o cenário financeiro geral se os iranianos não cooperarem.

A indicação é a de que otimismo gerado pelo efeito TACO tem perna curta. A ideia de que Trump pode agir sozinho e moldar os resultados à sua vontade cai por terra quando o outro lado se recusa a jogar. Qualquer resolução no Oriente Médio agora depende, e muito, da disposição do Irã em desescalar a situação.

Talvez o elemento mais relevante para os mercados seja a disputa aberta entre fato e narrativa.

Nas últimas semanas, Trump tem sugerido repetidamente que há conversas em andamento com Teerã ou, ao menos, algum avanço nessa direção. Do outro lado, a resposta iraniana é direta: não há negociação. Mais do que isso, autoridades do país classificam essas declarações como grandes mentiras e parte de uma campanha de desinformação.

E não para por aí. Teerã passou a associar essas falas diretamente ao comportamento dos mercados, dizendo que notícias falsas estariam sendo usadas para influenciar preços, especialmente do petróleo, ao alimentar expectativas de cessar-fogo.

Manchetes movem ativos em tempo real. Qualquer sinal de trégua tende a derrubar o petróleo e melhorar o apetite por risco. Nesse ambiente, até a sugestão de diálogo já funciona como ferramenta de mercado, independentemente de ser verdadeira.

Do lado americano, a ambiguidade pode ser parte da estratégia: alternar entre ameaça e negociação mantém opções abertas e testa reações. Do lado iraniano, negar tudo também tem função clara: evitar sinal de fraqueza e deslegitimar a narrativa de Washington.

O resultado é um ruído constante, onde versões competem não só na diplomacia, mas também nas telas de trading. No fim, mais do que esclarecer o rumo do conflito, esse vaivém vira parte do próprio mecanismo de formação de preços. A dúvida, muitas vezes, vale tanto quanto os fatos.

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