Um ano após o novo marco do EaD, o modelo de cursos 100% online para o ensino superior privado perdeu fôlego
8 de maio de 2026
Por Wilian Miron
São Paulo – O ensino superior privado brasileiro atravessa um momento de transição estrutural em 2026, marcado por mudanças no perfil de oferta e demanda após a implementação do novo marco regulatório do ensino a distância (EaD), aprovado há um ano. Dados de diferentes consultorias e entidades do setor mostram que o modelo que sustentou o crescimento nos últimos anos, baseado em cursos 100% online, perdeu força e abriu espaço para formatos com maior presencialidade, como o semipresencial e o presencial.
Esse movimento já aparece de forma clara na captação de alunos. No primeiro semestre, o ritmo de ingresso desacelerou, com sinais mais evidentes nos primeiros meses do ano. Levantamento da consultoria Hoper aponta queda de 19% na entrada de novos alunos no bimestre inicial, enquanto estudo da Educa Insights indica um ciclo mais difícil, com maior competição e um funil de decisão mais curto. Ainda que algumas instituições venham a registrar crescimento de matrículas nos balanços do primeiro trimestre, o avanço ficou concentrado nas modalidades presenciais e híbridas.
A principal explicação para essa mudança está na regulação mais restritiva do EaD. Cursos que antes eram totalmente online passaram a exigir maior carga presencial, reduzindo a atratividade para um público que priorizava flexibilidade e menor custo. Como resultado, o ensino a distância registrou retração, enquanto o semipresencial cresceu de forma acelerada, absorvendo parte dessa demanda migrada.
Esse novo desenho reforça uma tendência que já vinha sendo observada desde 2025. Dados da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) mostram que, ainda no ano passado, o ensino semipresencial iniciou um ciclo de crescimento consistente, enquanto o EaD apresentava instabilidade e retração. O que era um sinal incipiente tornou-se, em 2026, um movimento mais consolidado de reperfilamento do setor.
Além da mudança regulatória, há também uma transformação no comportamento do aluno. A graduação deixou de ser uma escolha automática e passou a disputar espaço com alternativas mais curtas e direcionadas ao mercado de trabalho, como cursos técnicos e formações rápidas online. Isso torna o processo de decisão mais seletivo e reduz o universo de potenciais ingressantes no curto prazo.
Esse ambiente mais competitivo também encurta o funil de captação. Segundo a Educa Insights, a maioria dos candidatos avalia no máximo duas instituições antes de decidir, o que aumenta a importância de estratégias comerciais mais assertivas e de presença antecipada no processo de escolha. Na prática, captar alunos deixou de ser apenas uma questão de volume de leads e passou a exigir maior precisão na conversão.
Do ponto de vista financeiro, o novo perfil de oferta traz implicações relevantes para as instituições. Cursos presenciais e semipresenciais demandam mais infraestrutura física, corpo docente e operação, elevando o custo por aluno em comparação ao modelo totalmente digital. Esse aumento de custo ocorre justamente em um momento em que o setor enfrenta dificuldades para expandir volumes.
Ao mesmo tempo, o repasse desses custos para as mensalidades encontra limitações. A demanda segue sensível a preço, e parte das instituições tem recorrido a descontos para manter a base de alunos, o que pressiona margens. Há evidências de queda no preço médio de cursos presenciais no início do ano, indicando um cenário de equilíbrio delicado entre custo mais alto e capacidade restrita de pagamento do estudante.
Por outro lado, o novo mix de cursos também abre espaço para tíquetes médios mais elevados, especialmente no semipresencial, o que pode compensar parcialmente a queda de volume. Ainda assim, a leitura predominante entre analistas e consultorias é de que o setor vive uma fase de ajuste, com impacto negativo no curto prazo e necessidade de adaptação operacional.
No médio prazo, a tendência é de convergência entre os modelos presencial e digital, com formatos híbridos mais flexíveis, mas ainda dependentes de alguma estrutura física. Nesse cenário, o diferencial competitivo das instituições deve migrar para a qualidade da experiência do aluno, eficiência comercial e capacidade de equilibrar custos e preço. O crescimento tende a ser menos baseado em escala e mais em execução e posicionamento estratégico.
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