A Europa tem uma arma poderosa para reagir às constantes ameaças de Donald Trump. Veja qual é.
12 de fevereiro de 2026
Por Fábio Alves
O presidente Donald Trump pode ter deflagrado um novo tipo de contra-ataque pelos seus aliados e rivais: a redução à exposição aos títulos do Tesouro americano nas reservas de bancos centrais e também nas carteiras de investidores institucionais e privados. É essa a arma diplomática que paira sobre os Estados Unidos desde que Trump começou uma nova guerra comercial, elevando as tarifas de importação, e ofensivas militares, com a ameaça de invasão à Groenlândia.
O raciocínio é o seguinte: na falta do mesmo calibre de artilharia em termos de tarifas de importação ou de poderio militar para atingir ou contrapor os EUA, países aliados, em particular os da Europa, e rivais, como a China, já perceberam o calcanhar de Aquiles da economia americana: a massiva parcela da dívida pública em mãos de estrangeiros.
Muitos chamam a esse movimento como Sell America Trade em que os investidores (quer sejam oficiais, como bancos centrais, ou privados) trocam os ativos americanos (como os títulos do Tesouro) por outros (moedas, ações em bolsas, commodities) de países ao redor do mundo, especialmente os emergentes. Há também quem chame esse movimento de de-dollarization, pois isso representa uma ameaça à posição do dólar como a principal moeda de reserva no mundo.
Seja como for, o impacto já é visível no valor do dólar ante uma cesta de moedas fortes (refletido no índice DXY) ou nas cotações ante moedas como o real brasileiro, o peso chileno e o dólar australiano.
Somente nos últimos 30 dias até hoje, 12 de fevereiro, o índice DXY acumulava desvalorização de 2,1%, enquanto o dólar australiano subia 6,7% e o real brasileiro ganhava quase 4%. Já o Ibovespa, para ficar no exemplo de um dos mais líquidos mercados acionários de países emergentes, acumulava alta superior a 16% nesse período.
Não à toa, repercutiu bastante a notícia de que um segundo fundo de pensão da Dinamarca está avaliando se reduzirá sua exposição ao mercado privado nos Estados Unidos. Em entrevista a uma agência de notícias americana, Martin Praestegaard, o CEO do fundo de pensão ATP, o segundo maior da Dinamarca, afirmou que essa reavaliação da alocação da sua carteira é baseada no sistema político dos EUA, de forma mais ampla.
Segundo ele, os ativos dos EUA têm tido um desempenho muito bom nos últimos anos. Mas a questão, disse ele, é se isso pode continuar ou não. É sempre bom lembrar que, em meados do mês passado, o fundo de pensão AkademikerPension, da Dinamarca, resolveu liquidar toda a sua posição em títulos do Tesouro americano.
Em comunicado, o fundo dinamarquês justificou sua decisão não como uma retaliação a Trump pela ofensiva sobre a Groenlândia, mas, sim, uma preocupação com a saúde das finanças públicas dos EUA, em particular a trajetória da dívida americana.
De um lado, a posição do AkademikerPension em títulos do Tesouro americano era muito pequena: cerca de US$ 100 milhões, o equivalente a apenas 0,10% do total detido por investidores estrangeiros nesses papéis do Tesouro.
Os investidores oficiais, institucionais e privados da União Europeia detêm, coletivamente, algo ao redor de US$ 8 trilhões em títulos do Tesouro americano, o que corresponde quase 25% do total desse mercado de títulos da dívida pública americana (US$ 34 trilhões).
Ou seja, é de causar temor em Trump e outras autoridades americanas se os países europeus decidirem que os Estados Unidos já não são mais um aliado confiável. E a forma de contra-atacar às medidas do presidente americano, de elevação de tarifas e de ameaças militares, poderá ser usando uma arma financeira: juntamente vendendo os títulos do Tesouro.
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