Veja como Christine Lagarde mostrou ao mundo econômico que há diferentes cifras para lidar com a truculência
23 de janeiro de 2026
Por Isabella Pugliese Vellani e Pedro Lima
Faça música, não faça guerra. Por mais que a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, não tenha pronunciado exatamente essa frase, foi essa a mensagem que ficou ao final de sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos, quando foi a um encontro pouco convencional . Em um ambiente que tradicionalmente reverbera discursos sobre tarifas, conflitos e riscos geopolíticos, Lagarde defendeu, ainda que de forma indireta com sua presença, a importância de abordagens mais humanas, empáticas — e até musicais — em tempos de crise.
A cena ajudava a reforçar o contraste. Em uma sala de luz baixa, organizada em formato circular, Lagarde dividiu o espaço com o violoncelista norte-americano Yo-Yo Ma em um painel que misturava conversa intimista, mesclada por momentos de silêncio e música. Antes da apresentação, ela mesma ajudou a marcar o ritmo com um pequeno chocalho. Depois, ao ouvir os primeiros acordes de Over the Rainbow, falou sobre sua trajetória pessoal, sua luta em defesa das mulheres e sobre como aprendeu, ao longo da vida, a lidar com pressão, críticas e crises.
Não foi uma fala técnica. Nem poderia ser. Ao comentar sua atuação à frente de uma das instituições mais observadas (e cobradas !) do mundo, Lagarde deixou de lado o jargão econômico e falou sobre autocontrole emocional e estabilidade interior. Em momentos de crise, disse, recorre a técnicas de respiração e de equilíbrio físico e mental, práticas que associou à yoga, presente em sua rotina desde cedo. É esse centro, segundo ela, que permite manter clareza de julgamento e ajudar as equipes ao redor a desacelerar antes de tomar decisões difíceis.
O tom mais íntimo ficou ainda mais evidente quando Lagarde mencionou a perda precoce do pai, tema que, admitiu, ainda a emociona. A memória dele, contou, surge sempre que se depara com situações de injustiça, violência ou sofrimento. Nessas horas, disse sentir um impulso interno para agir. Ao se permitir esse grau de vulnerabilidade, a presidente do BCE se afastou do personagem habitual dos grandes fóruns globais e se aproximou de algo mais raro naquele ambiente: franqueza.
Provocada por jovens participantes sobre empatia, poder e liderança, Lagarde voltou a uma bandeira recorrente em sua trajetória: a defesa da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Para ela, mudanças reais só acontecem quando são construídas em coalizões e quando até aqueles que detêm poder são reconectados à própria humanidade. Muitas vezes por meio de referências pessoais, como mães e filhas.
Lagarde fez questão de separar tolerância de complacência. Tolerar, explicou, é aceitar o outro como ele é, independentemente de origem, orientação sexual ou crença religiosa, sem que isso signifique fechar os olhos para injustiças ou para aquilo que não deveria ser aceito.
Nada disso, aliás, pareceu um desvio isolado de comportamento em Davos. Ao longo da semana, Lagarde já havia chamado atenção ao deixar um jantar restrito a convidados após críticas direcionadas à Europa feitas pelo secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick. Foi um gesto lido por muitos como político, mas também como simbólico.
Yo-Yo Ma encerrou o momento com a citação de uma frase atribuída ao ditador Josef Stalin: a morte de um homem é uma tragédia. A morte de um milhão é uma estatística. Com isso, o violoncelista lançou a reflexão da noite. Em um mundo dominado por números, gráficos e decisões técnicas, disse ele, o desafio é garantir que ninguém seja reduzido a uma estatística. A fala funcionou como síntese perfeita do encontro, afinal, em Davos, entre guerras comerciais e disputas geopolíticas, Lagarde mostrou que ainda há espaço, mesmo nos fóruns mais duros, para humanidade, autenticidade e, quem diria, música.
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