Economia & Mercados
26/03/2020 13:55

Líderes na crise:após reabrir fábricas na China, Marcopolo e Randon se unem a fechá-las no País


Por Cristiane Barbieri

São Paulo, 27/03/2020 - Com experiências prévias de terem fábricas fechadas na China, Marcopolo e Randon uniram-se na hora de levar adiante o plano de suspensão temporária da produção no Brasil. Duas das maiores multinacionais brasileiras, as empresas com sede em Caxias do Sul (RS) estavam preocupadas com o impacto que causariam nas cidades em que atuam e em dar o exemplo a empresas menores.

Assim, lideranças da fabricante de carrocerias de ônibus e da produtora de autopeças e implementos rodoviários começaram a combinar a estratégia, adotada desde ontem em todas suas unidades. Antes do Carnaval, exatamente por terem passado por processo semelhante na China, perceberam que teriam de estender a medida ao Brasil.

"Trocamos informações práticas, para a tomada de decisão em conjunto", diz Rodrigo Pikussa, diretor da divisão Negócio Ônibus Brasil da Marcopolo. "Apesar de as fábricas terem dinâmicas de trabalho diferentes, a iniciativa serviu, de certa forma, para que outras empresas da região seguissem com processos similares."

Só em Caxias do Sul, principal município de 500 mil habitantes na Serra Gaúcha, a Marcopolo tem 8 mil pessoas trabalhando em duas fábricas. A Randon tem outros 8.500 funcionários. Com os empregos indiretos, cada uma delas movimenta entre 12 mil e 13 mil pessoas todos os dias em suas operações. Em outras palavras, a parada significou não só colocar em casa cerca de 5% da população da cidade, mas também provocar efeitos sobre a movimentação do comércio e do serviço locais, a previsão de arrecadação de impostos e até as conversas diárias dos moradores.

"Juntamos nossas equipes técnicas e fomos, aos poucos, adotando medidas simultaneamente, que culminaram com a suspensão da produção nesta segunda", afirma Daniel Ely, diretor de recursos humanos e planejamento da Randon. "Era importante que fizéssemos o processo juntos porque, quando tomamos uma ação, geramos impacto em toda a região em que atuamos." O compartilhamento da ação nasceu após um grupo de empresas se juntar para levar adiante iniciativas voltadas à inovação. A proximidade, criada entre 14 empresas da Serra Gaúcha, facilitou o trânsito entre ambas.

A experiência chinesa serviu para entender que haveria a necessidade de uma parada programada - e trouxe aprendizados também para a retomada. "Passamos a entender melhor como tornar um ambiente mais seguro para essa nova realidade", diz Ely. "Entendemos que precisaremos ter mais espaço entre as pessoas na hora em que a produção voltar e que provavelmente haverá a necessidade do uso de máscaras e do controle de temperatura das pessoas."

Algumas práticas adotadas no país asiático, porém, não puderam ser reproduzidas no Brasil. Os 200 funcionários da Marcopolo que produzem uma carroceria por dia na fábrica de Changzhou, por exemplo, receberam um código QR para ser escaneado. O governo garantia que estavam em casa, acompanhando-os por meio do celular que leu esse código. O mesmo aconteceu com os 130 trabalhadores da Fras-Le Ásia, uma das marcas da Randon, que tem fábrica em Pinghu na qual são feitas 10 mil peças por dia.

"Não temos como fazer o mesmo controle da China, evidentemente, mas foi feita uma ampla campanhas de sensibilização com os funcionários", diz Pikussa. "Há um apelo para que sejam responsáveis, pois é um período de resguardo e respeito à sociedade." As duas unidades chinesas retomaram a produção nas últimas semanas.

Com posição confortável de caixa, ao contrário de boa parte das empresas brasileiras, as duas companhias puderam se dedicar inteiramente à emergência de preservar a saúde dos funcionários e suas famílias. Num primeiro momento, eles terão 20 dias de férias coletivas e, caso seja necessário, entrarão em banco de horas.

Com receita de R$ 4,3 bilhões no ano passado, a Marcopolo já percebeu que seus clientes serão seriamente afetados pela crise. Com mais de 60% das viagens canceladas, as empresas de ônibus preveem que podem entrar em colapso financeiro em pouco mais de dois meses, caso a situação não se reverta, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transporte Coletivo (Anatrip). "O que as empresas menos devem estar preocupadas neste momento é em receber um ônibus novo", afirma Pikussa. "Temos disposição de auxiliar os clientes para que esse período possa passar rápido e a recuperação aconteça no menor tempo possível."

Na Randon, que teve faturamento de R$ 5,1 bilhões no ano passado, a experiência não foi muito diferente: todos os clientes estão parando, sendo que os pequenos e médios sofrem mais. "Ainda vamos olhar com mais profundidade para outros temas", diz Ely. "Por enquanto, nossa primeira preocupação foi colocar todo mundo em casa, com segurança. Estamos em uma situação em que vivemos um dia por vez."

Líderes na crise é uma série de reportagens especiais feitas pelo Broadcast a partir de experiências e aprendizados das maiores empresas e lideranças do País para enfrentar a pandemia de coronavírus

Contato: cristiane.barbieri@estadao.comP
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