Enquanto os EUA celebram 250 anos de independência, a democracia americana enfrenta riscos sem precedentes.
6 de janeiro de 2026
Por Fábio Alves
Há uma ironia quase trágica com a chegada de 2026: no ano que os Estados Unidos comemoram o aniversário de 250 anos da sua declaração de independência, inaugurando o regime político mais idealizado por outras nações do Ocidente, nunca sua democracia esteve tão em risco de perecer quanto agora.
Basta ver a organização dos vários eventos ao longo deste ano, especialmente para o ápice das comemorações dessa efeméride: dia 4 de julho. De um lado, há uma comissão bipartidária criada em 2016 pelo Congresso americano, cujos membros incluem até ex-presidentes, como Barack Obama e George W. Bush. De outro, há uma iniciativa da Casa Branca, atualmente comandada por Donald Trump.
E esses dois campos estão disputando o controle da narrativa sobre como celebrar a declaração da Independência em 1776.
Será essa narrativa mais inclusiva, refletindo uma sociedade composta por diversas raças, credos e ideologias – resumida na imensidão de imigrantes? Ou será essa narrativa mais nacionalista – de um país que se fecha aos estrangeiros, que minimiza direitos de minorias e que distribui privilégios, em particular, tributários, aos ricos?
Essa última visão aparentemente está endossada pela maioria do eleitorado, como se viu na vitória de Trump no pleito presidencial de 2024, quando ele conquistou não somente a maioria no colégio eleitoral, como também no voto popular.
Mas 2026 promete ser um ano decisivo não só para a democracia mais importante do planeta, mas também um divisor de águas para o resto do mandato de Trump.
É que, em novembro, haverá as chamadas eleições de meio de mandato para a renovação da Câmara dos Deputados e do Senado americanos. Por enquanto, o partido republicano tem o controle das duas Casas no Congresso. E isso permitiu Trump aprovar legislações importantes, como o seu Big Beautiful Bill, que prevê o corte de impostos, além de outros estímulos fiscais, a fim de turbinar o crescimento econômico até as próximas eleições presidenciais.
Todavia, Trump fracassou, até agora, na sua promessa de derrubar a inflação (principal crítica ao seu antecessor, o democrata Joe Biden). Em razão das tarifas de importação imposta pelos EUA, os índices de preços ao consumidor seguem pressionados. E o descontentamento do eleitor americano é visível.
Levando em conta o agregado das mais recentes pesquisas de opinião, a taxa de desaprovação de Trump está em 56%, enquanto a de aprovação é de 39%.
E um ponto de alerta é a queda vertiginosa da aprovação de Trump entre eleitores considerados de classe média – aqueles cuja renda anual fica entre US$ 50.000 e US$ 100.000.
Conforme pesquisa da Economist/YouGov, a taxa líquida de aprovação de Trump entre eleitores de classe média piorou acentuadamente: de -10 (43% de aprovação/53% de desaprovação) em outubro para -17 em dezembro (40% de aprovação/57% de desaprovação).
Não seria nenhuma surpresa, portanto, se, em razão de inúmeros eventos programadas ao longo deste ano, Trump tente puxar para si – isto é, para a comissão da Casa Branca – a narrativa das comemorações pelos 250 anos da declaração de Independência.
E através dessa narrativa, o presidente tentará unir os americanos em torno de ideais ditados por ele e pela sua base mais extremista MAGA (Make America Great Again).
Resta saber se a comissão bipartidária do Congresso, com expoentes políticos democratas e republicanos, vai deixar Trump fazer um uso político das celebrações.
No fim das contas, o que está em jogo é a própria definição de democracia. Além, é claro, do seu futuro na maior potência econômica e militar do planeta.