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Faria Lima de Miami

O que um distrito de Miami e o centro financeiro de São Paulo têm em comum? Muita coisa, além do dinheiro que circula por lá...

21 de março de 2026

Por Bruna Camargo

Brickell é considerado o distrito financeiro de Miami, ou mesmo chamado de Wall Street do Sul. Em nada remete ao imaginário sobre a cidade que os filmes de Hollywood nos ensinaram. Enquanto do outro lado da ponte Miami Beach oferece muito charme com prédios baixos e em tons pastéis, palmeiras enfeitando as avenidas e a maresia rodeando os turistas que se instalam nos vários bares e restaurantes da Ocean Drive, Brickell impressiona pelos seus edifícios altos e ritmo mais frenético de cidade grande. O distrito lembra e muito a Faria Lima, nome de avenida que apelidou os arredores que concentram o mercado financeiro de São Paulo. Se somarmos o fato de que há brasileiros por todos os lados em Miami, a impressão é que, na verdade, nem saímos do Brasil.

A Faria Lima de Miami acabou se tornando referência para uma região expandida, que engloba bairros como Coconut Grove, Coral Gables e Downtown. Emergiu em meio a algumas ondas de desenvolvimento na região, lembra Marcelo Coscarelli, head de private wealth management internacional na XP Private Bank, que mora na cidade há décadas. Ele citou como fatores de atração a Flórida ser um dos poucos estados americanos a não cobrar imposto de renda estadual e a flexibilidade e busca por qualidade de vida trazidas pela pandemia de covid-19.

Dados do relatório Downtown Miami Office Analysis de 2025 mostram que mais de 350 empresas migraram para o sul da Flórida após a pandemia. “Vários líderes já se referem a Miami como o novo polo financeiro do mundo. Não acho um exagero comparar a Nova York”, afirmou Coscarelli a jornalistas, durante a inauguração do escritório da XP Private em Miami. A XP é mais uma entre várias empresas do mercado financeiro que observam potencial na região. Basta andar um pouco pela área para cruzar com nomes como Bank of America, Merrill Lynch, Wells Fargo e Citibank.

No entanto, bem no coração do distrito financeiro, a dureza da Wall Street nova iorquina não parece ser replicada. Os homens engravatados têm a postura menos taciturna que só uma cidade costeira pode oferecer, enquanto as conversas complexas em inglês nas salas de reunião se misturam ao espanhol e ao português sempre mais calorosos falados pelos demais funcionários. Isso, inclusive, não acontece somente nos escritórios de casas financeiras: em lojas, farmácias, restaurantes e carros de aplicativo, o espanhol, especialmente, é a primeira língua falada. Em tempos de aperto imigratório pelo governo de Donald Trump, Miami como um todo parece uma miragem, na qual as bandeiras de países latino-americanos tremulam em comércios e as línguas resistem por todos os cantos.

Mas Brickell nem de longe é apenas sobre trabalho. Nesta segunda quinzena de março, a região está especialmente lotada, inundada por públicos distintos: os spring breakers que tiveram o azar de encontrar uma temperatura constantemente abaixo de 20 ºC, os fãs fervorosos que acompanharam o World Baseball Classic, campeonato no qual a Venezuela bateu os Estados Unidos na final do último dia 17 e os entusiastas de tênis para o Miami Open. Este último teve partidas adiadas pela chuva, mas não deixou de engajar brasileiros na expectativa por vitórias do favorito João Fonseca. O tenista venceu o húngaro Fabian Marozsan na quinta-feira passada.  

No fim das contas, talvez seja justamente essa mistura que faz de Brickell um lugar tão peculiar e… familiar. Entre arranha-céus que lembram São Paulo e conversas trilíngues, Miami parece condensar sem atritos diferentes geografias em poucos quarteirões. É um centro financeiro global com alma latina, onde negócios bilionários dividem espaço com a informalidade de quem cresceu acostumado ao calor seja do clima ou das relações. Mesmo que, nos últimos dias, para o enorme azar de brasileiros friorentos, o sol não tenha aparecido.

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