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6 de julho de 2026
A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma promessa de produtividade. Em alguns setores, ela começa a questionar a existência de produtos, serviços, áreas inteiras e modelos de negócio.
Por Rafael D’Alessandro, CEO da iblue Consulting
Adotar IA pode ser a forma mais rápida de uma empresa descobrir que parte do seu negócio não precisava mais existir.
Essa frase soa incômoda, e deve soar. Durante anos, tratamos tecnologia como instrumento de ganho incremental: reduzir custos, acelerar processos, melhorar produtividade. A Inteligência Artificial muda essa lógica porque, em alguns setores, não melhora apenas tarefas existentes. Ela questiona a necessidade de produtos, serviços, equipes, intermediários e modelos operacionais inteiros.
O risco visível é perder produtividade. O risco real é perder relevância.
A pesquisa AI & Data Leaders 2026 – Panorama e Previsões de IA e Dados mostra a contradição: 88% das organizações pretendem ampliar investimentos em Dados e Inteligência Artificial, mas 72% ainda estão nos estágios iniciais de maturidade em IA.
O número que aparece é investimento. O número que importa é maturidade.
A pergunta errada é “como usamos IA?”. A pergunta mais difícil é: o que a IA pode tornar desnecessário no nosso negócio?
No Prêmio Broadcast, Avanish Sahai colocou o ponto central na mesa. A discussão não deveria ser sobre qual tecnologia usar, mas sobre onde a IA gera valor econômico, transforma processos e muda de fato o negócio.
Automatizar um processo ruim não transforma uma empresa. Apenas torna o problema mais rápido.
É por isso que AI First não deveria ser tratado como slogan. Como disciplina de gestão, significa colocar a IA no início da conversa: antes de criar um produto, iniciar um projeto, contratar mais pessoas ou manter um processo como está.
A pergunta passa a ser simples e desconfortável: existe uma forma melhor de fazer isso com IA?
Muitas empresas ainda tratam IA como projeto pontual, piloto ou ferramenta de produtividade. Isso pode gerar ganhos localizados, mas raramente cria vantagem competitiva sustentável.
Se a IA consegue executar partes relevantes do que sua empresa entrega hoje, o que exatamente continuará sendo indispensável no seu modelo de negócio?
Para que a IA produza valor real, ela precisa ser orquestrada: dados, sistemas, agentes inteligentes, regras de negócio, fluxos de aprovação, segurança, métricas e intervenção humana em torno de objetivos concretos.
Sem essa orquestração, a IA vira uma coleção de assistentes desconectados, automações de baixo impacto e demonstrações impressionantes que pouco mudam o desempenho do negócio.
A discussão deixa de ser sobre adotar IA. Passa a ser sobre ter coragem de rever o que a empresa faz, como faz, por que faz e o que deixará de fazer.
Tecnologia continua sendo essencial, mas IA não pode ficar confinada à TI. Operações, Vendas, Jurídico, Compliance, RH, Atendimento e Finanças precisam participar da redefinição dos processos que serão impactados.
A próxima vantagem competitiva não será de quem simplesmente usar IA, mas de quem conseguir transformar a organização antes que o mercado faça isso por ela.
Responder a essas perguntas com honestidade pode ser desconfortável. Mas talvez seja exatamente esse desconforto que separe as empresas que vão apenas adotar IA daquelas que conseguirão se transformar antes de serem substituídas.
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