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A última dança

Fernando Haddad se despediu do Ministério da Fazenda, mas seus desafios podem fazer ele sentir falta da Esplanada?

20 de março de 2026

Por Flávia Said

Fernando Haddad encerrou seu último dia de expediente na sede do Ministério da Fazenda em Brasília na quarta-feira, 18. Foi na superquarta, como o mercado financeiro apelidou o dia em que coincidem as decisões de política monetária do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos e do Banco Central brasileiro. Enquanto por lá o juro ficou estável, por aqui, a redução foi de 0,25 ponto porcentual, menor do que o Executivo esperava. Como de costume, Haddad não comentou a decisão. Durante toda sua gestão, ao ser perguntado, sempre respondia que precisava ler a ata, divulgada apenas na terça-feira da semana seguinte, antes de emitir qualquer opinião.

Ao deixar o bloco P da Esplanada dos Ministérios, por volta das sete horas da noite, Haddad colocou cuidadosamente no bagageiro do carro que o aguardava um porta-retrato com a foto dele com a esposa, a secretária de Saúde Digital Ana Estela Haddad. Era um ornamento do gabinete que ocupou desde janeiro de 2023.

Antes de entrar no veículo, agradeceu aos jornalistas, dos quais poucas vezes desviou durante todo o período em que ocupou o posto. Posto esse que o jornalista Thomas Traumann classificou como o pior emprego do mundo, alcunha geralmente comprovada por imagens de antes e depois dos ocupantes da cadeira, que mostram um envelhecimento acelerado dos titulares que por ali passaram.

Sua agenda era concorrida e recheada de encontros com deputados, senadores, governadores, banqueiros, empresários, entidades sindicais. Até mesmo a rainha Máxima, dos Países Baixos, e o ator Bruno Gagliasso ele recebeu. Vez ou outra, ao dar entrevistas na portaria do prédio, recebia aplausos ou críticas de transeuntes, curiosos com as câmeras e a movimentação. Ainda assim figurou longe de ser o ministro mais popular do grande público.

No Ministério da Fazenda, se classificava como fiscalista em um governo defensor de mais gastos públicos. Experimentou, portanto, o fogo amigo. Foram embates com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e muitas críticas de aliados, como a ex-presidente do PT e atual ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

Tudo isso enquanto enfrentava reprovações “do lado de lá”. O apelido “Taxad” acabou pegando. Haddad falou muito em justiça tributária, herança do calote dos precatórios e combate aos privilégios do que chamava de andar de cima, mas foi a taxa sobre as blusinhas e as fake news da taxação do Pix que grudaram. Dor de cabeça para a Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto.

Fernando Haddad deixou o provável pior emprego do mundo, mas o que o aguarda não é tão alvissareiro assim. O petista tem o desafio de obter em 2026 um resultado diferente do de 2022 em uma disputa muito parecida. Terá o mesmo oponente de quatro anos atrás, só que agora Tarcísio de Freitas (Republicanos) é o atual incumbente, governador bem avaliado e líder nas pesquisas de intenção de voto.

Se não conseguir, Haddad irá amargar a quarta derrota eleitoral. Ao mesmo tempo, se Lula for reeleito presidente, poderá mudar de endereço e ocupar a Casa Civil da Presidência da República. Ainda há a hipótese de vitória eleitoral, embora mais distante e que, se for concretizada, tampouco será tarefa fácil. Com tanto ainda a enfrentar, a última dança de Haddad no Ministério da Fazenda talvez tenha deixado nele mais saudade do que era de se esperar.

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