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Isso (não) é um plano

A cobertura da negociação da dívida da Braskem lembra a obra de René Magritte

16 de outubro de 2026, às 12:55

Braskem
Crédito: Divulgação/Braskem

Por Talita Nascimento e Cynthia Decloedt

A cobertura jornalística sobre a negociação entre credores e a Braskem tem dado a sensação de se estar contemplando a obra do pintor belga René Magritte “isso não é um cachimbo” (Ceci n’est pas une pipe, em francês). Apesar de a obra ser o desenho de um cachimbo a legenda se justificou, segundo o artista, pelo fato de que nele não se poderia fumar.

O profundo debate filosófico que se rompeu no início do século 20 sobre imagem e realidade com tal obra parece se reproduzir agora. ‘Ce n’est pas un plan’ ou ‘isso não é um plano’, poderia perfeitamente vir anotado abaixo do documento que a Braskem levou à Justiça em agosto.

Com o apoio de um terço dos credores, a Braskem conseguiu dar entrada a um pedido de recuperação extrajudicial com o que chamou de um “plano de plano”. Um desenho, com premissas móveis, que bem poderia ser uma referência ao cachimbo de Magritte, no que diz respeito à distância entre o desenho e a realidade. Pelo documento protocolado, não se saberia o quanto do dinheiro emprestado à empresa no passado seria possível recuperar.  

No “plano de plano”, uma inovação até aqui na história recente dos processos de recuperação extrajudicial, a Braskem insiste na ideia de negociar tempo. Sim, o tempo, o senhor dos mistérios – para trazer nosso compositor Caetano Veloso à conversa. Esse tempo, na visão de quem o pede, poderia curar uma década que se perdeu em competitividade em uma indústria desafiada pela China, que planejou há 35 anos a supremacia petroquímica. E como nada nessa história é convencional, a empresa agora é ajudada pelo tempo que durar a guerra no Oriente Médio, que, como todo conflito, gera escassez e eleva preços.

Foi nesse contexto que a Braskem conseguiu 90 dias para seguir negociando, conforme o prazo concedido por lei e pela Justiça. E durante esses dias, diversos lados passaram a usar o plano – que não era efetivamente um plano – para interpretar a realidade de formas diversas. Do lado dos credores, o que estava escrito, tinha de ser tratado como compromisso. Do lado da empresa, o “plan to plan” (eles preferem o inglês ao francês de Magritte) era apenas um trato de continuar conversando.

Já estamos em meados de outubro e o plano – o verdadeiro, se é que isso realmente existe – ainda não surgiu. Começa-se a falar, inclusive, em uma reedição do “plan to plan” para sustentar um compromisso em seguir negociando “o tempo”. Uma verdadeira discussão surrealista.