Galípolo parece ter entendido a regra do jogo: ou fala com precisão cirúrgica, ou alguém escreve o resto por você
12 de setembro de 2026
Todo cuidado tem sido pouco para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, nas interações com o mercado depois dos ruídos de comunicação em torno da decisão de junho do Comitê de Política Monetária (Copom). Na ocasião, o colegiado recorreu a um exercício de rolagem do horizonte relevante para justificar mais um corte de juros, em um cenário em que os riscos de alta superavam os de baixa para a inflação.
De lá para cá, Galípolo tem evitado se comprometer e, mais recentemente, tem escolhido pautas menos espinhosas na agenda pública. Fala de inovação financeira, garantias de crédito, cenário internacional e do desafio estrutural da produtividade.
Sem dar muita margem para leitura nas entrelinhas, foi desarmando as críticas de que a comunicação da instituição andava confusa — numa estratégia coroada pelo comunicado, bem recebido pelo mercado, da última reunião do Copom, realizada nos dias 4 e 5 de agosto.
Ainda assim, algumas cascas de banana apareceram no caminho do presidente do BC. Não foi a política monetária, nem o caso Master, nem mesmo o clima eleitoral — onde Galípolo vira alvo aqui e ali. Foram duas situações, em eventos do setor bancário, nas quais o Pix — isso mesmo, o Pix — ameaçou tirar o banqueiro central da pista. Ironicamente, os momentos mais “perigosos” para a comunicação do BC vieram justamente do sistema de pagamentos instantâneos, que só costuma causar confusão com Trump.
Primeiro, na conferência anual do Santander, o presidente do banco espanhol no Brasil, Gilson Finkelsztain, colocou Galípolo diante de um assunto bem fora do script: a ideia de privatizar o Pix. Com uma plateia cheia de investidores, lançou o tema como quem mede a temperatura do ambiente e sugeriu, em tom de bastidor, que, se alguém perguntasse sobre isso, melhor deixar para responder no ano que vem. Afinal, a depender de qual será o governo, talvez os planos para o Pix sejam outros.
Galípolo respondeu com o sorriso protocolar de quem entendeu a provocação — e fez o mais prudente: passou longe de comentar um tema tão controverso.
Sete dias depois, porém, o Pix voltou a bater à porta, e aí não deu para fingir que não era com ele. Pouco antes de Galípolo entrar na Febraban Tech, a feira de tecnologia dos bancos, saiu a notícia de que o Banco Central estaria estudando uma “trava” de 72 horas para segurar transferências suspeitas via Pix.
É até reconfortante saber que o BC está trabalhando para deixar a plataforma mais segura, com mais lupa sobre operações suspeitas e menos espaço para fraudes. Ainda assim, a notícia caiu como uma pedrinha no sapato de fintechs que vivem de transação instantânea. Desta vez, Galípolo foi enfático e, direto ao ponto, disse que, às vezes, o Pix vira alvo de “fake news”, até mesmo de “jornais sérios”.
Sabendo que uma provocação no palco pode virar tese, que um “estudo” pode ser vendido como medida pronta e que, em poucas horas, tudo ganha interpretação política, Galípolo parece ter entendido a regra do jogo: ou se fala com precisão cirúrgica, ou alguém escreve o resto por você.