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O CEO que adora trânsito

Johann Bordais preside a Eve Mobility, de 'táxis voadores', um negócio com potencial para movimentar US$ 13,5 bi

10 de setembro de 2026

Gabriel Baldocchi

No caminho para o encontro com um executivo no horário de pico do trânsito de São Paulo, levei o dobro de tempo que costuma demorar o trecho entre a região da Avenida Paulista e as torres corporativas que ficam ao lado do Shopping Eldorado, à beira da Marginal Pinheiros. Apesar da saída com antecedência, falhei: cheguei 20 minutos atrasado. Subi esbaforido pelo elevador e, ao abrir a porta, em vez de cara amarrada, vi o executivo sorrir feliz. Ué?! Que estranho. Nunca vi algo assim. Pedi licença, sentei e logo ele tratou de explicar. “Graças a casos assim é que vamos prosperar”, falou o simpático francês, naturalizado brasileiro, Johann Bordais, presidente da Eve Mobility, a empresa da Embraer por trás da missão de construir o táxi voador, uma espécie de drone enorme que promete ser a próxima fronteira da mobilidade urbana, um avanço em relação ao helicóptero.  

Bordais sorri toda vez que alguém perde hora no trânsito. Trata-se de algo comum em São Paulo, aliás, uma lembrança de quão irracional ficou a mobilidade na maior metrópole brasileira e que pode ganhar novos ares no céu. À frente da Eve, o francês passa a maior parte do tempo explicando a investidores, reguladores e o público, em geral, por que a saída pelos céus, a bordo de um modelo que decola como helicóptero e voa como um avião, é um bom negócio. Isso faz de Bordais um dos poucos – se não o único – presidentes de empresa que adoram o trânsito de São Paulo.

O encontro estava previsto para durar 40 minutos. Estendeu-se por quase duas horas. Num português rico, quase zero de sotaque, ele contou desde quando entrou na desconhecida Embraer (palavras dele), na França, há 26 anos até os meandros da engenharia que hoje fazem com que o táxi voador já seja visto como um produto viável e não mais uma aposta, como no início da empreitada da Eve, em 2020. A previsão é que o primeiro modelo comece a ser produzido pela empresa do grupo Embraer, numa fábrica em Taubaté (SP), tão logo receba a certificação de que é seguro pelas autoridades, processo previsto para 2028.

Ele garante que não vai faltar dinheiro até que o modelo comece a decolar. No caso da Eve, um dos diferenciais é a força de ter uma Embraer para dar cabo de uma empreitada que mais lembra filme de ficção científica: ao menos 800 engenheiros da fabricante brasileira estão dedicados ao projeto do táxi voador, além dos 176 funcionários próprios da Eve. Com a Embraer, a subsidiária também compartilha 22 fornecedores, além de uma rede de assistência por todo mundo, quando os produtos chegarem ao mercado.

Em bom português, o que está em jogo é um negócio com potencial enorme: US$ 13,5 bilhões em cartas de intenção de pedidos já assinados à Eve, segundo ressaltou o executivo franco-brasileiro. Nem precisaria ser tão preciso. Bastava olhar para trás, do alto da torre na Marginal, e observar o panorama de São Paulo, ao fundo. Enquanto conversávamos, ao menos cinco helicópteros levantaram voo. Um lembrete de que São Paulo tem hoje a maior frota de helicópteros do mundo – são mais de 400 unidades – e sinal de que um táxi voador por aqui há de prosperar. Mais pela dor (do trânsito), do que pelo amor (pelos ares). Nesse ponto, Bordais tem pouco a acrescentar. No comando da Eve, o executivo passa a maior parte do tempo em São José dos Campos, cidade com menos de um décimo da população de São Paulo. Trânsito mesmo só quando visita o escritório da capital paulista ou nos compromissos em Nova York, onde a empresa é listada. 

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