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Angola e seus contrastes

Apesar das terras ricas e produtivas, 22% dos angolanos estão subnutridos

30 de agosto de 2026

Talita Nascimento

A vista de um dos restaurantes do hotel que hospeda empresários e autoridades estrangeiras em visita a Angola, revela uma cidade de contrastes evidentes. O prédio da frente, sem pintura, tem falhas no reboco e roupas estendidas para fora da janela. Mais ao fundo, há ao menos dois edifícios espelhados dignos da Faria Lima. Perto da faixa de areia, surge o Banco Nacional de Angola, uma construção com a pintura irretocável, rosa e branca. Ao continuar a vista panorâmica, aparecem construções regulares, dois terrenos vazios e o prédio de uma grande companhia de diamantes.

Uma ida ao mercado é marcada pela abordagem insistente de uma criança; logo são duas. Elas chamam de madrinha a quem pedem ajuda financeira. Uma passagem rápida pelo calçadão da praia, próximo ao letreiro de “Eu amo Luanda”, com a luz de uma das letras queimada, também tem crianças em situação vulnerável: “madrinha, madrinha…”. Segundo o Índice Global da Fome de 2025, 47,7% das crianças angolanas sofrem de atraso no crescimento e mais de 22% dos cidadãos estão subnutridos.

Já em um bairro onde imperam os prédios rosa e branco, com asfalto perfeito e jardins dignos de se observar, está a “casa do presidente”, como diz o motorista da van, Xavier. Nós entramos no prédio; ele, não. Quem fica de fora não pode fotografar, por ordem da segurança. Lá dentro, uma sala tem a escultura que faz referência à figura O Pensador, ou Cokwe, um símbolo angolano de sabedoria e respeito aos mais velhos.

Saindo de lá, em cerca de 30 minutos, a caminho de uma plantação de frutas em Caxito, na província vizinha de Bengo, os contrastes se vão, para se tornarem poeira e multidão à beira da estrada. A estrada é asfaltada; o restante é terra. As mulheres com bacias na cabeça e crianças amarradas às costas, frequentes na capital, ali se multiplicam. As bandeiras com o brasão do governo, empoeiradas, amarradas aos postes, também. Os símbolos estão presentes; o governo, não se sabe. Não há anciões sábios em meditação à vista.

Na plantação, a terra é rica, irrigada e produtiva. De lá, nessa época do ano, saem 15 contêineres de bananas, com 22 toneladas cada um, diretamente para a exportação. Ainda são produzidas 300 toneladas de bananas por semana, essas de menor qualidade, para o mercado interno do país. De volta à capital e ao hotel, o assunto de empresários brasileiros e angolanos, junto a representantes do governo do país, é a atração de investimentos para produção agropecuária, segurança alimentar interna e o potencial do país para exportar para nações africanas vizinhas.