Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

O El Niño chegou

NOAA estima que efeitos do fenômeno devem se estender até 2027

6 de agosto de 2026

Fábio Alves

Das Filipinas e Índia, na Ásia, passando pelo Peru, Chile e Brasil, na América do Sul, o mundo está se preparando para enfrentar no quarto trimestre deste ano os efeitos de um dos mais fortes El Niño já registrado – e analistas de organismos internacionais e de instituições financeiras já estão fazendo cálculos sobre os estragos desse fenômeno climático. Aliás, os indícios iniciais devem começar a ser sentidos a partir do fim deste mês.

A agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) calcula em 81% a probabilidade de o El Niño ser “muito forte” entre outubro e dezembro e estima também que há 97% de chance de o fenômeno seguir afetando o clima até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte – outono no Brasil.

A maioria dos países emergentes sofrerão os efeitos de inundações causadas por chuvas torrenciais ou o contrário: secas e estiagens. Ainda está na memória dos brasileiros o desastre ocorrido no Rio Grande do Sul por contas das cheias que fizeram transbordar rios e inundar cidades inteiras, causando mortes e perdas bilionárias de casas, fábricas e de plantações. Também no último El Niño, as autoridades responsáveis pelo Canal do Panamá foram forçadas a restringir o fluxo de navios em razão de a estiagem ter afetado seriamente as condições de navegabilidade. Mas a preocupação atinge até países do Hemisfério Norte: no estado americano de Ohio, as autoridades locais pediram estudos para saber se o El Niño poderá deixar o inverno deste ano mais rigoroso por lá.

Em termos macroeconômicos, um dos principais efeitos esperados é a disparada global nos preços de alimentos, com destruição total ou parcial das safras agrícolas, quer seja por chuvas intensas, quer seja por secas. Para a América Latina, por exemplo, os economistas do Deutsche Bank projetam que, até dezembro, os efeitos do El Niño vão causar um aumento da inflação em 1,4 ponto porcentual na Colômbia; 1,1 ponto no Peru; 0,4 ponto no Brasil; e 0,3 ponto no Chile.

Os economistas do Bank of America (BofA) dizem que, na América Latina, os países mais vulneráveis aos efeitos do El Niño são Colômbia, Peru e Brasil. Mas o impacto atingirá todos os países da região, assim como outros continentes.

Segundo o BofA, a produção de trigo na Austrália costuma registrar quedas praticamente generalizadas durante episódios de El Niño e pode recuar entre 20% e 60% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

“O El Niño também coloca em risco cerca de 35% da produção de trigo da Argentina. Ao mesmo tempo, a safra de milho do Brasil é altamente vulnerável ao fenômeno e pode encolher cerca de 10% na comparação anual. A produção brasileira de açúcar também está sob risco e pode cair em torno de 5% em relação ao ano anterior”, escreveram os economistas do BofA, em nota a clientes. “Além disso, projetamos que a produção combinada de açúcar da Índia e da Tailândia recue pelo menos 10%.”

No Brasil, a preocupação não é somente com os estragos na agricultura. O setor de energia também está vulnerável, especialmente se a estiagem provocada pelo fenômeno climático nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste reduzir drasticamente os níveis dos reservatórios que alimentam a geração de energia hidroelétrica. Em outras palavras, não é só a inflação de alimento que pode subir: a conta de luz deve ficar mais cara, com o provável acionamento da bandeira vermelha. De qualquer forma, a esperança é de que esse fenômeno adverso “muito forte” não cause uma tragédia humana de grandes proporções.

Veja também