Fundos que compram problema com desconto para lucrar com ele ficaram conhecidos como 'abutres', mas há o outro lado
31 de julho de 2026
Cynthia Decloedt
Ambipar, Raízen e Braskem colocaram o Brasil em destaque desde o ano passado entre os fundos especializados em comprar dívida barata e lucrar com uma reestruturação. Em outras palavras: tem gente comprando “problema” com desconto para lucrar com ele. Nesse momento, a soma de dinheiro envolvido nesses processos é da ordem de R$ 130 bilhões.
Por conta de uma estratégia agressiva nas negociações, com objetivo único de ganho financeiro, esses fundos ficaram conhecidos como “abutres”. E assim se comportam. Um advogado relata que, em conversa com representante de um desses fundos no ano passado, ouviu: “vamos quebrar uma delas para dar exemplo”. Sim: dito assim, sem rodeio.
Meu primeiro contato com fundos abutres foi há mais de dez anos. O contexto era a renegociação das dívidas da OGX, do empresário Eike Batista, que havia emitido bilhões em títulos de dívida no exterior. A palavra “abutre” exibida nos textos que contavam essa história causava de tudo: curiosidade, risos e, especialmente, repúdio. E convenhamos: não é exatamente um apelido simpático.
Mas sintetizava um novo personagem, gringo, que passou a fazer parte da mesa de renegociações de dívida de várias empresas que tinham tomado dinheiro lá fora, no bilionário mercado de bonds (títulos de dívida), e até então só tinham conversado com gente fina, senhores de afortunadas seguradoras, fundos de investimento e de pensão dos Estados Unidos e da Europa. Era o tipo de credor “de terno alinhado” – até o dia em que chegou o pessoal do jogo mais duro.
O sujeito abutre, e visto como mau, aparecia então comprando dívida das pobres empresas brasileiras, já na lama, por centavos, para ter um lucro vendendo essa dívida depois, quando a empresa estivesse um pouco melhor das pernas – e um pouco melhor somente, nem sempre de volta à forma.
Um desses abutres chegou, inclusive, a quebrar a Argentina. O famoso fundo Aurelius, que também compôs o quadro de credores da Oi. Quando o assunto vai para briga grande, esse tipo de investidor costuma jogar pesado – e por bastante tempo.
Nos anos seguintes à OGX, os encontros com tais investidores passaram a ser frequentes. De tanto que o cara do pior dos mundos circulou por aqui, foi mudando de figura, e o mercado passou a compreender que, por mais vil que pareça, o “abutre” é, na verdade, um salvador, reciclando dinheiro ruim e fazendo circular o crédito.
Doa a quem doer, muitas vezes estão evitando perdas ainda maiores de investidores enroscados em créditos com problemas e que empresas simplesmente morram. Ou seja: por trás do estigma, existe uma lógica de mercado que (em alguns casos) impede um estrago ainda maior.
A fórmula já está sendo replicada no Brasil e, até onde os olhos podem ver, vendido numa pele mais de carneiro. A palavra “abutre”, por favor, não!!!! Que tal fundos especializados em ativos problemáticos, fundos distressed ou ainda fundos alternativos? O rótulo muda, o pitch fica mais elegante, mas a essência do jogo ainda é bem parecida.
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