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Batismo de Fogo

Proposta da Duplicata Escritural é boa, mas o nome podia ser melhor

13 de julho de 2026

André Marinho

Duplicata Escritural. O nome é técnico, burocrático e bem menos sedutor que o do carismático PIX, sucesso absoluto no mercado de pagamentos. Mas o Banco Central terá que encontrar maneiras de inserir o termo no vasto e, por vezes, peculiar léxico do setor empresarial. Mais do que um desafio de comunicação, um batismo de fogo para o novo sistema.

A explicação nem é assim tão difícil: a duplicata escritural representa nada mais que a versão eletrônica da duplicata tradicional, um título de crédito lastreado em vendas de produtos e serviços a prazo. Por ano, o instrumento movimenta mais de R$ 10 trilhões e serve de base para operações de antecipação de recebíveis.

O problema é que, hoje, esse é um processo relativamente fechado, definido na relação do banco com as empresas e sem uma comunicação integrada dos sistemas. Pelo modelo escritural, o BC quer criar uma espécie de “Open Finance” da duplicata, em que as informações serão compartilhadas de forma equânime para todo o mercado. A aposta é de que o arranjo mais transparente amplie a competição entre os bancos e derrube os juros do crédito para o setor corporativo.

Mas como convencer a sociedade de que vale a pena entender mais sobre um assunto intitulado “duplicata escritural”? Acredite: esta não é a reclamação de um jornalista incumbido da tarefa de traduzir o vocábulo para o leitor, como tem sido feito em várias reportagens da Broadcast. A questão já aparecia nas conversas do mercado com o próprio BC desde as primeiras etapas da regulamentação.

Um executivo do setor financeiro, que acompanha as discussões sobre o tema há anos, chegou a brincar com representantes da autoridade monetária durante uma reunião: “Vocês poderiam ter escolhido um nome mais simpático”. Como alternativa, sugeriu algo como “Dupli”. Não deixa de ter seu charme, mas prevaleceu mesmo a boa e velha “duplicata escritural”.

Sobra, então, para reguladores, mercado e, claro, jornalistas a missão de encontrar sinônimos. Se o histórico recente serve de referência, porém, talvez o nome importe menos que a utilidade. É improvável que “descontar uma duplicata escritural” tenha o mesmo espaço de “Fazer um PIX” no imaginário popular, mas se o novo balcão entregar a promessa de baratear o crédito para as empresas, o mercado logo logo se acostumará com a alcunha pouco inspirada.

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