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Como Luana Lara planeja conquistar o mercado com sua bilionária Kalshi

Como conseguir travar a carteira contra surpresas no IPCA ou na Selic negociando o que o mercado espera desses dados

8 de maio de 2026

Por Aline Bronzati, correspondente

Nova York – E se fosse possível investir diretamente nas suas previsões sobre os rumos da economia? Imagine poder negociar contratos baseados no que você acredita que será a próxima taxa de inflação ou o índice de desemprego, transformando sua análise econômica em uma operação financeira. Essa é a proposta dos “mercados preditivos”, uma nova fronteira do setor financeiro que permite aos investidores operar com base em acontecimentos futuros. Uma das pessoas na vanguarda desse movimento é a brasileira Luana Lopes Lara, a bilionária self-made mais jovem do mundo, com sua plataforma Kalshi, criada em sociedade com seu colega de faculdade Tarek Mansour, um californiano criado no Líbano.

Regulamentada nos Estados Unidos e avaliada em impressionantes US$ 22 bilhões, a Kalshi desembarcou recentemente no Brasil em uma parceria com a XP. O timing, no entanto, trouxe consigo um desafio crucial. Quase simultaneamente, o governo brasileiro decidiu traçar uma linha clara para a atuação desses novos mercados no País. Em uma portaria, o Ministério da Fazenda deu sinal verde para as operações ligadas diretamente a fatos econômicos – como os resultados do IPCA, Selic ou emprego -, entendendo-os como instrumentos financeiros legítimos para gestão de risco.

Por outro lado, o governo barrou, ao menos por enquanto, contratos sobre eventos de outra natureza, como os políticos e esportivos. A lógica por trás da decisão é separar o que é considerado um derivativo financeiro do que se assemelha demais, na visão do governo brasileiro, ao universo das apostas (bets), um setor que já possui um marco regulatório próprio e rigoroso. O problema é que, como a Kalshi e outras plataformas têm toda sorte de contratos, o governo decidiu bloquear o acesso a elas.

É justamente para desatar esse nó e explicar por que acredita estar criando uma poderosa classe de ativos, e não um cassino sofisticado, que Luana Lopes Lara conversou com exclusividade com a Broadcast. Ela argumenta que, ao contrário das casas de aposta que lucram com a perda dos usuários, a Kalshi funciona como uma bolsa, oferecendo um ambiente seguro para a descoberta de preços e proteção. Ou seja, a negociação é feita entre partes, e não com a plataforma.

Em um bate-papo em seu escritório em Manhattan, ela detalha a parceria com a XP, defende a importância de se negociar o futuro (inclusive o político) e explica como pretende provar que os mercados preditivos são uma ferramenta essencial para a economia.

Lara, vale dizer, acredita que o histórico americano – tanto por operar sob a supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) nos EUA quanto por já ter sido citada até pelo Federal Reserve (Fed) – ajudará a destravar o caminho da empresa no Brasil. A parceria com a XP, aliás, prevê a oferta para clientes que possuam conta internacional e os produtos são listados por meio da corretora da XP nos Estados Unidos, aproveitando justamente o fato de a Kalshi ter autorização da CFTC. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Broadcast: A Kalshi colocou os pés no Brasil por meio de uma parceria com a XP no âmbito do seu projeto de expansão internacional. Qual é o próximo passado?

Luana Lopes Lara: Estamos considerando diferentes caminhos. No caso do Brasil, fez muito sentido buscar oportunidades de parceria com intermediários. Conversamos com várias pessoas, mas a escolha da XP foi óbvia porque eles estavam muito alinhados em tecnologia e cultura.

Broadcast: Quais outros mercados estão na mira da Kalshi?

Lara: Em paralelo, analisamos países na América Latina, além de Ásia, África e Europa. Na América Latina, o foco é desenvolver primeiro o mercado brasileiro e, então, avançar para outro país. Estamos na fase de integração técnica com brokers de outros países.

Broadcast: O modelo é o mesmo do Brasil, começa com um parceiro para atrair mais negócios para os EUA?

Lara: Nos Estados Unidos, temos dois modelos de negócios: direto e por meio de intermediários. No mercado internacional, ainda não sabemos com certeza como funcionará. No Brasil, estamos focados em fazer a parceria com a XP funcionar.

Broadcast: O foco é atrair investidores para o mercado americano?

Lara: Sim. Achamos importante ter um único pool de liquidez. Cada país, cada broker e cada novo usuário significam mais liquidez. Se passarmos a ter várias plataformas localizadas, não teremos escala econômica nem liquidez. Para nós, é importante que todos negociem juntos, porque os preços serão melhores e haverá mais liquidez. Isso não significa que todos os investidores precisem negociar no mercado americano. Podemos ter um mercado no Brasil e alguma conexão de arbitragem. Mas, agora, estamos focados em manter um único mercado nos Estados Unidos e aumentar a liquidez.

Broadcast: Quais são os produtos oferecidos aos investidores brasileiros?

Lara: Estamos lançando contratos para emprego, inflação e juros, em parceria com a XP. Nos Estados Unidos, quem quiser negociar se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) vai ganhar, terá esse poder.

Broadcast: Por quê você acredita na importância desse tipo de negociação?

Lara: Se você incentiva as pessoas a colocar dinheiro no que acreditam, é possível obter projeções melhores. É um mercado bom para qualquer democracia: joga luz sobre a eleição e mostra como o processo está funcionando. Eu adoraria ver esse mercado um dia no Brasil.

Broadcast: E em um momento em que as pesquisas de opinião estão sendo questionadas aqui nos EUA, no Brasil…

Lara: Exatamente. Acho que os mercados preditivos reduzem a polarização porque, quando você incentiva as pessoas a colocarem dinheiro no que acreditam, isso diminui. Mas, como qualquer mercado novo, demora para as pessoas entenderem e avançarem.

Broadcast: As bets têm reclamado da atuação de plataformas de mercados preditivos junto ao Ministério da Fazenda. Como é que você recebe essas críticas?

Lara: O pessoal de gambling (jogos de azar) não entende que o modelo deles não tem competição de preço. Se você começa a ganhar dinheiro, eles te cortam. Essas características são ruins para os usuários e perigosas por incentivar o vício. A lógica é viciar as pessoas para que percam mais dinheiro, porque essas plataformas ganham quando as pessoas perdem. Nós não ganhamos quando as pessoas perdem, não negociamos com as pessoas. Por isso, quando chegamos com um produto diferente e mais seguro, eles ficam amedrontados. É a mesma coisa com os cassinos nos Estados Unidos.

Broadcast: Isso pode atrapalhar o avanço da Kalshi para além dos EUA?

Lara: Não me surpreende. Eu ficaria surpresa se fosse o contrário. Nos Estados Unidos, somos regulados em nível federal, e o presidente (Donald Trump) gosta dos mercados preditivos, o que ajuda muito. Esperamos que os reguladores olhem para o que aconteceu nos Estados Unidos, para o artigo do Fed, reconheçam que nossa plataforma é algo positivo e nos permitam avançar.

Broadcast: Por outro lado, vocês estão sendo bem assediados por diferentes agentes do mercado financeiro. A ideia é transformar esse interesse em mais parcerias? E quanto aos grandes bancos, que estavam mais cautelosos neste segmento?

Lara: Estamos começando a integrar nossa plataforma com grandes bancos americanos e queremos avançar no lado institucional. Por isso, conversamos com hedge funds, bancos e outros agentes do mercado financeiro. Também queremos avançar no mercado internacional.

Broadcast: A Kalshi quer ir além da XP no Brasil?

Lara: Começamos com a XP e, claro, queremos ter o máximo possível de corretoras e usuários para aumentar a liquidez. Então, não vamos ficar só com a XP, mas, por enquanto, estamos focados em fazer a parceria funcionar.

Broadcast: Os mercados preditivos são uma nova classe de ativos? Como eles podem mudar o gerenciamento de riscos no mercado financeiro?

Lara: Com certeza, é uma nova classe de ativos, que ajuda o mercado a ter melhor informação sobre o futuro. Estamos conversando com muitos bancos sobre caminhos para que eles usem os mercados preditivos na gestão de risco. No passado, o Dia da Libertação causou um impacto enorme nos mercados, e não havia como fazer hedge. Com a Kalshi, é possível mitigar riscos como esse. Por isso, estamos muito animados com esse lado institucional. Foi assim que a Kalshi nasceu, e agora estamos nos voltando mais para esse mercado.

Broadcast: Quais os obstáculos?

Lara: Nosso principal desafio é a liquidez, mas estamos avançando nessa direção. Seria muito legal se tivéssemos um dos bancos enormes do Brasil usando nossos produtos como hedge para taxas de juros, riscos tarifários ou coisas assim.

Broadcast: A Kalshi desenvolve os produtos ou atua sob demanda dos investidores?

Lara: A maioria dos produtos surge da demanda dos nossos usuários, e conseguimos atendê-la muito rápido, em um ou dois dias. Mas há todo um processo legal e de compliance para que um novo contrato chegue ao mercado.

Broadcast: O contrário também ocorre? Produtos que não têm boa repercussão são retirados como aconteceu no caso da guerra com o Irã?

Lara: Por sermos legalizados nos EUA, uma lei nos proíbe de atuar em mercados de guerra, terrorismo, assassinato e violência. Tínhamos um contrato sobre quem poderia vir a ser o novo líder do Irã, mas, como ele foi morto, foi como se tivéssemos anulado todas as ordens do mercado. Não vamos pagar usuários por terem ganhado dinheiro porque alguém foi assassinado.

Broadcast: Como vocês estão educando o investidor para que a Kalshi não seja vista como um cassino de política, mas como um derivativo de proteção para eventos de cauda longa?

Lara: Vamos trabalhar com a XP nisso e com corretores internacionais, mas podemos ajudar muito – e estamos fazendo -, porque sabemos como essa educação precisa acontecer. Por isso, ajudamos a desenvolver materiais sobre o que o investidor precisa saber antes de investir em mercados preditivos. Estamos desenvolvendo esse processo nos EUA, e o foco internacional vai nos ajudar a ampliar esse trabalho.

Broadcast: Lara, você está participando de uma remodelagem de Wall Street, que é o mercado financeiro mais vigiado do mundo. Como é fazer parte disso sendo brasileira?

Lara: Temos um sentimento de responsabilidade pelos mercados (preditivos), porque começamos e legalizamos esse mercado nos Estados Unidos. Então, temos de fazer o negócio dar certo, usando inovação e tecnologia na direção certa. Ser brasileira ajuda a deixar tudo um pouco mais leve do que o meu compadre, que é libanês. Ele é mais estressado com tudo. Acho que é ver o lado positivo e encontrar um jeito de fazer as coisas funcionarem.

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