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24 de setembro de 2026, às 22:10
Por Marya Marcondes, do Estadão
São Paulo, 24/09/2026 – A decisão do governador do Paraná, Ratinho Júnior. (PSD), de licenciar-se do cargo para ajudar o candidato de seu grupo político, Sandro Alex (PSD) na disputa eleitoral, embute a preocupação com a dificuldade para garantir uma transferência de votos que, até aqui, não se concretizou, segundo as pesquisas. Ratinho ostenta uma aprovação próxima a 80%, de acordo com pesquisa da Quaest de agosto de 2026, mas vê seu candidato à sucessão, Sandro Alex, ainda lutando por uma vaga no segundo turno.
Na maioria das pesquisas, Sandro Alex tem aparecido em terceiro. No levantamento da Quaest divulgado nesta quinta-feira, 24, ele está empatado com Requião Filho em segundo. “Vou me dedicar, aproveitando para poder rodar o Estado sem ter as limitações que o cargo exige”, relatou Ratinho Júnior durante anúncio de seu afastamento. Enquanto isso, a liderança permanece nas mãos do ex-juiz Sérgio Moro (PL).
Mesmo sem comparecer a debates e sabatinas, Moro mantém vantagem escorado na alta visibilidade pública, principalmente pela Lava Jato, a mesma que garantiu sua eleição ao Senado em 2022 com 33,5% dos votos válidos.
Na Quaest desta quinta-feira, Moro lidera com 36% no Paraná, enquanto Sandro Alex está tecnicamente empatado com Requião Filho em segundo, com 20%. No segundo turno, Moro tem 43% contra 29% de Sandro Alex e 48% contra 32% de Requião Filho.
Para explicar por que um governo tão bem avaliado não consegue transferir votos suficientes até aqui, os cientistas políticos e professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Emerson Cervi e Bruno Bolognesi apontam para as dinâmicas das elites locais e escolhas estratégicas do atual governador.
A escolha do candidato de Ratinho Júnior
A escolha de Sandro Alex como cabeça de chapa da situação intrigou observadores da política paranaense. Como uma das hipóteses, o cientista político Bruno Bolognesi enxerga na decisão um exemplo prático do “equilíbrio de Nash”, um conceito matemático em que, para evitar o pior cenário, os atores adotam uma solução subótima, ou seja, resultado aceitável, mas inferior ao máximo desejado. Havia vários nomes de peso na disputa interna pelo apoio de Ratinho Jr., como Rafael Greca e Alexandre Curi. “Para resolver esse dilema, eu não posso dar [a chance] para nenhum. Eu tenho que eliminar todos e escolher uma decisão subótima para não gerar conflito. Eu escolho o Sandro Alex, que é um cara B”, detalha Bolognesi sobre o que pode ter sido o pensamento do governador.
Na mesma linha, Emerson Cervi ressalta que Ratinho Jr. abriu mão deliberadamente de opções com maior potencial eleitoral. O governador escolheu “um candidato que tem uma grande qualidade, que é ser fiel o escudeiro dele, mas não tem, não tem intensidade eleitoral”, pontua Cervi. O especialista também lembra que Sandro Alex enfrenta a dificuldade de nunca ter disputado uma eleição majoritária anteriormente, o que dificulta seu engajamento com o eleitorado mais amplo.
Projetos contrastantes na disputa eleitoral
As estratégias para ocupar o Palácio Iguaçu também divergem. Sérgio Moro, por exemplo, registrou sua candidatura sem sequer apresentar um plano de governo formal. Para Cervi, o planejamento prévio claramente não é uma prioridade para o candidato do PL. “O Moro é essa pessoa que tem uma visão de mundo muito particular e que se for eleito vai fazer o que der na cabeça dele”, avalia.
Do outro lado, Sandro Alex adota um discurso voltado para a continuidade, com forte ênfase em obras de infraestrutura e estradas. Segundo Cervi, essa abordagem se assemelha “mais a uma proposta de prefeito do que de governador”. Já Requião Filho tenta unificar o campo progressista focado em pautas sociais mais amplas, como o direito à moradia de qualidade.
Para Emerson Cervi, essa configuração não foge da série histórica de desempenho da esquerda no Paraná. “O Requião pai, em 2022, fez 24% dos votos. E o Requião Filho está mais ou menos por aí. A maior possibilidade é que ele continue nessa faixa até o final, porque essa é a faixa de votos progressistas do Paraná”, projeta o pesquisador
Apesar do conforto nas pesquisas, a campanha de Moro tem esbarrado em seus próprios tropeços. O candidato tem cometido gafes sobre dados geográficos e históricos do Estado, o que pode afastar o eleitor indeciso. Em sabatinas recentes, Moro já demonstrou desconhecer o preço da tarifa de ônibus da Região Metropolitana de Curitiba e relatou ter discutido problemas financeiros com funcionários da “Santa Casa de Cascavel”, um hospital que sequer existe no município do Oeste paranaense. A falta de familiaridade com o Estado também transpareceu em agendas pelo litoral e interior: em Paranaguá, chegou a se referir ao gentílico local (“parnanguaras”) como se fosse uma etnia indígena. A coleção inclui ainda confusões com o nome de um evento em Cianorte, deslizes sobre festividades tradicionais de Guarapuava e até uma queixa inusitada sobre o horário em que uma carreta quase tombou, atrapalhando o trânsito.
Bolognesi alerta que a construção de uma imagem de despreparo é perigosa em um estado acostumado a eleger gestores com perfil mais técnico. “Não vai impactar em quem já decidiu votar no Moro, mas essa coisa de parecer despreparado é um ponto central”, enfatiza o especialista.
O risco de ruptura na ‘Escola Lerner’ e o voto útil
Uma eventual vitória de Sérgio Moro representaria, segundo as análises, a interrupção de uma longa tradição na administração do Paraná. Bolognesi pondera que o ex-juiz não possui a capacidade de articulação característica do grupo político forjado na escola do ex-governador Jaime Lerner, que hoje inclui nomes como Rafael Greca e o próprio Ratinho Júnior. A chegada do ex-juiz ao poder, “desmonta uma estrutura de gestão muito difícil de ser replicada”, argumenta Bolognesi.
Temendo justamente esse cenário, a corrida eleitoral pode ter um movimento de voto útil. Eleitores do campo progressista podem migrar seus votos de última hora para Sandro Alex para evitar que Moro resolva o pleito já no primeiro turno. Trata-se de uma dinâmica em que os eleitores “fazem um voto que não é um voto não sincero, é um voto estratégico tentando prever o que pode acontecer no segundo turno”, descreve Bolognesi.
Paradoxalmente, até mesmo a cúpula do PSD depende do fortalecimento de um adversário. Para empurrar a decisão para o segundo turno, o partido do governador precisa que Requião Filho retenha uma boa base de votos e reduza o favoritismo de Moro. “O PSD está contando com o bom desempenho do Requião Filho para rachar a eleição e o Sandro Alex conseguir pro segundo turno”, resume Bolognesi.
Senado é cenário em aberto
Se o cenário para o governo estadual é um jogo de xadrez, a disputa por duas vagas ao Senado permanece uma incógnita. Alexandre Curi (Republicanos) tem 14%; Deltan Dallagnol, que teve a campanha suspensa pelo TSE mas segue concorrendo, soma 11%; Filipe Barros (PL) também tem 11%; Gleisi Hoffmann soma 10%. Completam a lista:> Dr. Rosinha (PT), com 5%; Cristina Graelm, com 5%; Karen Guerreiro (Missão), com 1% e Marcelo Marcelino (PCO), com 1%; Jaoaquim do MBL não pontuou.
Segundo os cientistas políticos, no meio das indefinições, a candidatura de Alexandre Curi pode ganhar força, tanto da direta quanto da esquerda como segundo voto, apoiado no slogan “Mais Paraná, menos Brasília”. Para Cervi, a frase revela e explora o descontentamento do eleitorado. “Provavelmente o pessoal dele identificou no eleitorado paranaense uma percepção de ausência dos atuais senadores”, destaca.
A força de Curi reside ainda no seu perfil agregador e enraizado nos municípios do interior. “Ele é um deputado que tem muitas relações com o prefeito, ele é um deputado institucionalista”, observa Cervi, destacando que a articulação de Curi entre os prefeitos pode ser até maior do que a do próprio governador Ratinho Júnior.
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