Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

FMI: Retorno da política industrial enfrenta desafios de eficácia e risco fiscal elevado

3 de outubro de 2025, às 11:20

Por Aline Bronzati, correspondente

Nova York, 03/10/2025 – A política industrial voltou ao centro dos debates em meio à desaceleração da economia global e preocupações com interrupções nas cadeias de suprimentos e segurança energética. Mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta, em estudo publicado nesta sexta-feira, que os riscos de não gerar ganhos econômicos são significativos. Entre os desafios estão a eficácia dos programas industriais e o possível desperdício de recursos fiscais, diz o organismo, com sede em Washington, nos Estados Unidos.

Desde 2009, o número de novas intervenções de políticas industriais aumentou significativamente, com uma aceleração notável após o início da pandemia de covid-19, conforme o FMI. O avanço é mais evidente no setor de energia. Um terço de todas as políticas industriais implementadas entre 2009 e 2022 teve como alvo o segmento, dos quais cerca de 80% ocorreram em países dependentes de energia, numa ofensiva para reduzir a dependência de importações de combustíveis fósseis e acelerar a eletrificação da economia.

O estudo do FMI mostra que tanto nas economias avançadas quanto nas emergentes e em desenvolvimento, o financiamento subsidiado e as medidas de apoio direto responderam por mais de 80% das intervenções industriais na última década. Outras ações, como tarifas – em destaque na gestão do presidente dos EUA, Donald Trump – e barreiras não tarifárias tiveram papel marginal.

“A relevância da política industrial como ferramenta política tem aumentado em meio ao crescimento das tensões geopolíticas”, destacam os autores da análise do FMI. O trabalho traz como exemplos históricos “proeminentes” os estudos de caso do Brasil e da Coreia do Sul na década de 1970. Na ocasião, ambos adotaram políticas industriais em larga escala, com o objetivo de promover a transformação estrutural em setores estratégicos específicos.

No entanto, cada país adotou abordagem distinta. O Brasil concentrou-se na industrialização por substituição de importações e contou com estatais para executar a política; já a Coreia do Sul seguiu modelo voltado à exportação, baseado em grandes conglomerados privados, segundo o organismo.

Segundo o FMI, a experiência da Coreia do Sul é amplamente considerada mais bem-sucedida, tendo se refletido em taxas de crescimento mais altas. “No Brasil, a substituição de importações condicionou as empresas estatais a um mercado doméstico limitado, restringindo sua capacidade de aumentar os volumes de produção”, diz o FMI.

O estudo do FMI mostra que, se bem desenhada e direcionada para corrigir falhas de mercado do lado da produção, a política industrial pode melhorar os resultados econômicos em nível setorial. “No entanto, os riscos de que a política industrial não traga ganhos econômicos são significativos”, alerta.

Conforme o Fundo, a eficácia de programas industriais é “altamente sensível”. “Mesmo quando bem direcionadas, as intervenções podem ser fiscalmente custosas”, reforça o organismo. Políticas mal direcionadas podem desperdiçar recursos fiscais escassos sem entregar retornos significativos, avaliam os autores do estudo. Nesse sentido, o Fundo recomenda uma análise específica em cada país e reformas estruturais que não mirem apenas setores específicos. “É vital”, diz.

E, mesmo quando entrega melhorias setoriais, a política industrial envolve importantes trade-offs, lembra o FMI. “Os efeitos colaterais entre setores podem ser negativos, minando a produtividade agregada mesmo quando setores específicos se expandem”, destaca o Fundo.

O FMI recomenda que os governos atentem para o risco de gastos desnecessários, sobretudo quando a dívida é elevada e o espaço fiscal, limitado. O organismo avalia que o melhor caminho é comparar o custo de oportunidade da política industrial com o de iniciativas horizontais potencialmente mais eficientes.

Contato: aline.bronzati@estadao.com

*Conteúdo gerado com auxílio de Inteligência Artificial, revisado e editado pela Redação da Broadcast

Veja também