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Especial: Avanço rápido do Ibovespa lança dúvida sobre espaço adicional para altas em ano volátil

28 de janeiro de 2026

Por Luís Eduardo Leal e Maria Regina Silva

São Paulo – Após uma sequência memorável, em que avançou mesmo diante de incertezas globais, e um início de ano bem acima das expectativas, com ganho de mais de 10% em janeiro até agora, investidores e analistas se perguntam: qual é o espaço para o Ibovespa manter o ritmo, considerando as sucessivas renovações de recordes nominais e o declínio do dólar, que eleva o preço relativo dos ativos brasileiros na comparação com pares emergentes?

No fim do ano passado, prognósticos otimistas apontavam o índice da B3 a 200 mil pontos, ou um pouco além disso, no fechamento de 2026, considerando uma conjuntura perfeita de fatores que incluiria não apenas bom desempenho da economia e dos resultados corporativos, mas também o triunfo, na eleição de outubro, de um candidato a presidente alinhado a um ajuste fiscal crível a partir de 2027.

Para alguns especialistas, ainda há espaço para o Ibovespa atingir novos recordes, pelo menos até abril, quando haverá a definição dos nomes dos candidatos à Presidência da República. Além disso, cortes de juros previstos para 2026 podem aliviar os balanços de algumas empresas e atrair recursos externos para a B3.

“O que imaginávamos para o final de 2026 talvez já esteja vindo até abril. Hoje só temos comprador, o que tem feito a Bolsa esticar rápido”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

Por enquanto, tal cenário político não dá sinais de materialização, com a indicação de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), optará por concorrer a novo mandato no Palácio dos Bandeirantes, e de que o nome da oposição pode ser mesmo o do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ungido pelo pai, Jair, em dezembro passado como o candidato da família.

Flávio tem mostrado desempenho superior ao de Tarcísio nas últimas pesquisas de intenção de voto, reduzindo também um pouco a distância, em eventual segundo turno, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder nos levantamentos. Ou seja, embora haja muita água pela frente até outubro, o cenário atual é de que um ajuste fiscal, a partir de 2027, pode depender apenas da necessidade e do discernimento do atual governo – que, no entender do mercado, não demonstrou maior preocupação com o assunto desde 2023.

Contudo, no início de 2026, uma confluência de fatores externos não antecipados – como a deposição de Nicolás Maduro por uma ação militar americana e a recente elevação de tom de Donald Trump sobre a Groenlândia – deflagrou uma onda de venda de Treasuries, pressão global sobre o dólar e maior desconfiança na precificação de ativos nos Estados Unidos. As ações listadas em Nova York já vinham sob certa desconfiança desde o fim do ano passado, com dúvidas sobre uma bolha no setor de IA, a inteligência artificial, considerada a atual fronteira econômica e de ganhos de produtividade.

Como o Brasil permanece um tanto distante dessa disrupção tecnológica, a exposição da Bolsa brasileira a commodities, como petróleo (via ações da Petrobras e, em menor medida, das “juniores”) e minério (Vale ON e todo o complexo metálico, que inclui também a siderurgia), bem como o peso de ações do setor financeiro na composição do índice da B3 – considerado um segmento sólido e de elevada liquidez -, veio como um bônus neste momento, ainda que transitório, de aumento do apetite por diversificação de carteira em direção a ativos de emergentes. Como observa o economista André Perfeito, da Garantia Capital, o Ibovespa pode ser lido como uma proxy ou “derivada” de commodities, que vem ganhando força.

A boa liquidez e a escala do mercado brasileiro também tornam o Brasil uma opção preferencial quando contraposto, em especial, a alternativas latino-americanas como México (o país da região mais correlacionado à economia dos EUA) e Colômbia, apontam analistas. Quando o fluxo de ingresso líquido de investimento estrangeiro se avoluma – como visto na semana passada, em que duas sessões, mesmo sem vencimento de opções, mostraram giro diário na faixa de R$ 44 a R$ 53 bilhões na B3 – tende a se concentrar “em ativos com elevada liquidez e grande capacidade de absorção de ordens”, observa Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Dessa forma, aponta Pletes, o investidor estrangeiro consegue “montar e desmontar” posição sem deformar a carteira ou ficar, eventualmente, com pouca margem de manobra em razão de falta de liquidez no mercado local.

Nesse mesmo contexto, Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, afirma que o rápido avanço do Ibovespa neste início de ano, induzido pelo capital estrangeiro, guarda semelhança com o de 2025, mas com uma grande diferença: o papel maior desempenhado agora por Vale e Petrobras, que tiveram desempenho mais gradual no ano passado. De fato, em janeiro, Vale ON, a principal ação do Ibovespa, acumulou ganho de 17%, enquanto Petrobras ON subiu 15% e a PN, 13%. O melhor desempenho de ação de “bancão” em janeiro foi o de Bradesco ON, com alta de 13%. Itaú PN, principal ação do setor financeiro, avançou 11%.

Mais cara e muito rápido

Considerando a disseminação de ganhos por diferentes papéis e setores, surge a dúvida se a Bolsa brasileira ficou cara em pouco tempo e se uma correção aguda tende a ocorrer quando a agenda doméstica, e política, ganhar peso com a retomada dos trabalhos no Congresso e o início, de fato, da temporada eleitoral.

Analistas observam que uma das principais métricas de precificação da Bolsa, a razão Preço/Lucro, que há dois anos estava em 7 vezes, chega agora a 10 vezes. Há efeito também sobre o custo de oportunidade, dado que a taxa de juros real livre de risco segue elevada e tende a ser ajustada apenas gradualmente ao longo do ano.

Para Mauro Orefice, gestor de portfólio da B.Side, a Bolsa ainda “está barata, com múltiplos baixos”, o que tende a continuar atraindo ingresso internacional e consequentemente estimular novas altas do Ibovespa. “A indefinição eleitoral é mais preocupante para o investidor doméstico do que estrangeiro. Novas notícias ligadas à eleição podem provocar volatilidade, mas não há nada definido. O investidor deve continuar aportando no Brasil pelo menos até abril, quando podemos ter uma definição de quem de fato serão os candidatos [a presidente]”, estima.

Apesar dos sucessivos recordes do Ibovespa, Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, admite que o indicador subiu muito rápido e já atingiu seu cenário-base de 175 mil pontos. “Acredito que o alvo do ano deve estar em torno de 200 mil pontos”, afirma, completando que a eleição ainda será ponto de volatilidade. “Há chances de continuar quebrando recorde atrás de recorde, se não houver nenhuma surpresa negativa”, acrescenta Mollo.

O Morgan Stanley vê espaço para o Ibovespa avançar cerca de 20% até o fim de 2026. Em relatório, cita dois principais impulsionadores para um cenário otimista para ações brasileiras. Um deles é o início de um ciclo de flexibilização na taxa Selic no primeiro trimestre de 2026. O outro é uma potencial mudança de política após as eleições presidenciais, que desencadearia um reequilíbrio da demanda doméstica para o investimento.

Embora tal carry trade [operação de arbitragem entre os juros de fora e domésticos] continue favorável ao Brasil, contribuindo para o fluxo externo de investimento, a redução da distância entre a taxa de juros real livre de risco e o nível de precificação maior da renda variável tende a reduzir, também, o apelo das ações – sobretudo em um contexto de maior volatilidade, típico de ano eleitoral.

Contato: luis.leal@estadao.com e reginam.silva@estadao.com

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