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Entrevista/Goldman/Ramos: Apenas estresse de mercado forçaria Lula ou direita a ajustar contas

3 de fevereiro de 2026

Por Aline Bronzati, correspondente

Nova York, 03/02/2026 – Para o diretor de Macroeconomia para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, só um estresse no mercado financeiro levará o próximo governo, seja de esquerda ou de direita, a reorganizar as contas públicas. Assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode usar o último mandato para realizar seus projetos progressistas e socialistas, a direita não sacará um “Javier Milei da cartola” para prometer ajuste fiscal de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) logo no primeiro ano, afirma.

Segundo Ramos, o Brasil precisa de um ajuste de cerca de R$ 500 bilhões somente para estabilizar a dívida como proporção do PIB. “Se o mercado reagir bem à transição de poder, com o câmbio se apreciando e o sentimento melhorando, o senso de urgência para promover o ajuste fiscal desaparece”, alerta. Abaixo, a segunda parte da entrevista:

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Foto: Divulgação

Broadcast: Como o resultado da eleição pode impactar a agenda econômica diante do fiscal?

Alberto Ramos: A eleição é binária e será competitiva. Hoje, ninguém sabe quem vai ganhar. Se o pleito fosse agora, o presidente Lula provavelmente seria o favorito, mas não é o caso. Lula é político experiente e habilidoso; concorre como incumbente, fator de peso. O PT dispõe de máquina de campanha profissional, e a economia está razoável, em posição relativamente vantajosa. Ainda assim, ele enfrenta rejeição. Nem tudo é um mar de rosas.

Broadcast: E o fiscal?

Ramos: É óbvio e urgente – aliás, já está atrasado – que o Brasil precisa de ajuste fiscal. Caso o presidente Lula seja reeleito, a incerteza não desaparece: que tipo de governo teremos? Não é viável repetir o marco de política adotado neste mandato. Se Lula insistir em ‘taxar para gastar’, vai desarrumar a economia em seu quarto mandato e o cenário ficará mais complicado. O País não aguenta a repetição do atual arcabouço fiscal; isso pode precipitar crise econômica e financeira. Por saber disso, é provável que o governo evite esse caminho.

Broadcast: Por quê?

Ramos: Acho que o presidente Lula vai pensar no legado dele. É o último mandato, não há reeleição e, portanto, não existe a pressão de gastar para se manter popular e depois vencer a eleição. Assim, acredito que o pragmatismo levaria Lula, em um quarto mandato, a segurar um pouco a onda e a não repetir o marketing político do Lula 3, porque o desfecho poderia ser ruim. Mas, por ser o último mandato da vida dele, é também a chance de o presidente entregar todos os seus sonhos progressistas e socialistas.

Broadcast: Quais seriam as consequências econômicas?

Ramos: Isso teria um custo macro elevado e afetaria o legado do presidente Lula, inclusive as conquistas sociais. Sabendo disso, creio que ele guardará ideologia e dogmas na gaveta e adotará postura um pouco mais pragmática. Nesse cenário menos ruim – ainda sem ajuste fiscal, o que continua negativo -, o Brasil perderá mais quatro anos. Ao desperdiçar esse período, quem assumir após Lula terá de arcar com custos maiores para fazer o ajuste. O País patina no gelo; essa política aquece a economia, tornando a camada cada vez mais fina até quebrar. Um ajuste fiscal é o mínimo para evitar que o gelo quebre.

Broadcast: E se a direita vencer as eleições?

Ramos: Também há dois caminhos. A direita não fará campanha defendendo um grande ajuste fiscal. Não vai tirar um Milei da cartola e dizer: meus amigos, vem um ajuste fiscal de 5% do PIB no primeiro ano. Se o mercado reagir bem à transição de poder, com o câmbio se apreciando e o sentimento melhorando, o senso de urgência para promover o ajuste fiscal desaparece. Institucionalmente, não é só o governo que gosta de gastar; todos gostam, do Judiciário ao Legislativo. Assim, não é tão claro que, no campo conservador, virá um belo ajuste. Eu até acho que poderiam começar a caminhar devagar neste sentido, porque já reconhecem o problema fiscal – o que hoje não acontece hoje -, mas não há garantia, do ponto de vista institucional, dada a rigidez do gasto e o arcabouço político.

Broadcast: O que pressionaria por um ajuste fiscal no Brasil?

Ramos: Só um estresse de mercado, de fato, faria cair a ficha de que é preciso agir. Proativamente, isso não ocorreria; tenho minhas dúvidas.

Broadcast: Após a vitória do presidente Lula, nas eleições de 2022, algumas agências de rating melhoraram a nota do Brasil, criando expectativa de retomada do grau de investimento. Estamos agora na ponta oposta?

Ramos: Com a política atual, a nota não melhora e a tendência é piorar. Se o governo Lula mantiver o ‘mais do mesmo’, o fiscal seguirá como está, mas a dívida continuará subindo. A projeção é de alta de 12 pontos porcentuais no mandato de Lula. No próximo, com esse modelo, crescerá mais 10 p.p. ou 12 p.p. Um dia, a sorte acaba. Essa é a preocupação. Mesmo sem crise fiscal ou de dívida, o passivo elevado reduz o crescimento, torna a macroeconomia mais volátil, limita o uso da política fiscal de forma contracíclica, enfraquece a potência da política monetária e pode levar o País a uma situação de dominância fiscal.

Broadcast: A equipe econômica diz que o mercado não reconhece o esforço do governo…

Ramos: A meta do governo não tem nada a ver com o primário. O governo pegou uma cebola e foi descascando até chegar a zero. As estatísticas do Banco Central mostram que o País continua a registrar déficit. E do que precisa? De superávit entre 2,5% e 3%. Portanto, ainda falta um ajuste de cerca de R$ 500 bilhões para estabilizar a dívida. É outra reforma da Previdência. Além disso, a dinâmica da dívida é prejudicada porque a taxa de juro real de equilíbrio é alta e o ritmo de crescimento, baixo.

Broadcast: O senhor mencionou Milei. O governo dele é um exemplo para o próximo presidente do Brasil de que é possível fazer ajuste fiscal?

Ramos: O governo Milei é um exemplo de determinação: mostra ser possível fazer um ajuste fiscal sério. A estratégia funcionou na Argentina porque o peronismo, como modelo populista, faliu do ponto de vista econômico, político e social. A economia não crescia, as condições sociais se deterioraram, a política ficou muito disfuncional, e a Argentina empobreceu em 15 anos. Acho que o Brasil não está nesse ponto ainda. Talvez seja só nessa situação que o País abrace o ajuste fiscal, como ocorreu com as reformas após o segundo governo da presidente Dilma Rousseff.

Broadcast: Mas o Brasil não teve avanços sociais nos últimos 4 anos?

Ramos: O problema é que esse progresso econômico e social é artificial. No curto prazo, os excessos do populismo criam uma euforia: o País cresce, há emprego, os salários sobem e todos fingem que está tudo bem. O argumento intertemporal, porém, interessa apenas aos economistas. Como explicar a quem vive melhor hoje que isso é insustentável? Depois vem a crise. O populismo sempre desemboca em uma fase de ajuste – e ajuste dói: a economia contrai, o desemprego aumenta, as condições sociais se deterioram e devolvem-se os ganhos artificiais. Esse é o risco.

Broadcast: E se nada for feito nos próximos 4 anos?

Ramos: O gelo fica cada vez mais fino e, um dia, o País deixa de patinar e leva uma ducha gelada. É insustentável. Se o Brasil não sair dessa, baterá no muro.

Broadcast: O que faria o mercado endurecer com o governo?

Ramos: Não existe resposta para isso. É contextual; depende de como estiverem o ambiente externo, o humor do investidor e a dinâmica local. Qual é a gota d’água que faz o copo transbordar? Na situação atual, o Brasil já poderia estar em crise, mas não está. Não existe relação matemática. Tem muito a ver com o humor do mercado, mas sabemos que o País se encontra em maior vulnerabilidade, na qual qualquer pequeno choque pode levá-lo a uma dinâmica mais complicada de crise.

Contato: aline.bronzati@estadao.com

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