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25 de setembro de 2026, às 20:00
Por Silvio Cascione*
Em uma eleição tão apertada, é mais importante se preparar para os diferentes cenários do que tentar prever o resultado. Hoje, Flávio está levemente à frente, a julgar pela média das pesquisas; mas a capacidade de Lula para reverter a tendência com medidas de alto impacto como a restrição às bets e a redução da jornada de trabalho ainda não pode ser subestimada. Se existe um viés a favor de um dos lados, ele ainda favorece a reeleição do atual governo, mas essa tendência não é definitiva.
O maior valor da análise eleitoral, em um contexto como este, é menos o de imitar uma “bola de cristal”, e mais o de servir como uma “carta de navegação”, que ainda aponta para dois destinos bastante diferentes. Quando há dois cenários com probabilidade semelhante, o trabalho de preparação é redobrado. Mas, ao mesmo tempo, os sinais sobre o próximo governo ficam cada vez mais escassos. À medida que a eleição se afunila, o vazamento sobre futuros ministros e propostas vai rareando; as disputas internas são deixadas momentaneamente de lado, pois o que importa agora é garantir a vitória. Detalhes importantes sobre agenda econômica ou política externa continuam pendentes.
Mas já há muito que se pode dizer sobre os contornos do próximo governo. Um ponto em comum é o diagnóstico de que será necessário um controle mais rígido das despesas obrigatórias já a partir de 2027, incluindo investimentos sociais. A velocidade e a intensidade das mudanças fiscais dependerão da eleição, o que terá grande influência sobre o ambiente econômico dos próximos quatro anos.
Caso Flávio seja eleito, haverá um esforço para mudar a Constituição ainda antes da posse, a exemplo do que Lula fez em 2022, mas com o objetivo de sinalizar um controle dos gastos públicos mais parecido com o que havia com o teto constitucional criado em 2016 e quebrado definitivamente pelo próprio Jair Bolsonaro em 2022.
A intenção é contar com a boa vontade dos agentes de mercado, diante da sinalização de um aperto fiscal mais rígido, para que os juros possam cair mais rapidamente. Os detalhes de como esse controle fiscal será feito somente serão anunciados após as eleições.
Lula, se reeleito, também deve apresentar uma emenda constitucional, mas com duas diferenças cruciais. Primeiro, o objetivo é garantir a sobrevivência do atual arcabouço fiscal, que prevê um limite de gasto como proporção da receita, com aumento real máximo de 2,5%. A ideia que prevalece no governo é a de que essa regra já é suficiente para produzir um superávit primário crescente até o fim da década, sem a necessidade de uma trava mais dura nas despesas.
Segundo, Lula deve demorar um pouco mais para encaminhar essa proposta ao Congresso. Parte de sua equipe também recomenda um envio rápido, ainda este ano, mas a tendência é a de que o presidente tome mais tempo para decidir sobre os detalhes do pacote, ao mesmo tempo em que reorganiza o ministério e negocia os parâmetros de uma frágil base parlamentar. Este é um cenário muito mais propício à instabilidade de mercado, ao menos na passagem de 2026 para 2027, mas provavelmente se estendendo no primeiro semestre do ano que vem.
Outros dois pontos importantes para o cenário futuro são a política externa e a crise institucional, especialmente nos tribunais superiores. Cada um desses pontos, além da agenda econômica, precisará ser explorado com mais cuidado em colunas posteriores, ao mesmo tempo em que atravessamos a fase final da campanha. Mas, da mesma forma, existem aspectos importantes que já podem ser comentados.
Independente de quem ganhe, a política externa continuará a ser conduzida em um ambiente internacional de profunda instabilidade. Flávio espera desfrutar de um forte alinhamento regional com os Estados Unidos. Mas Donald Trump terá só mais dois anos de governo, nos quais terá a oposição do Congresso, e dificilmente conseguirá eleger seu sucessor. Nesse meio tempo, as tarifas poderão cair um pouco caso Flávio seja presidente, mas elas não serão eliminadas, pois servem a interesses da política americana que vão muito além da relação bilateral com o Brasil. Em qualquer cenário, portanto, a política externa terá de ser conduzida com pragmatismo e autonomia.
Quanto à crise institucional, está claro que ela levará a mudanças importantes na relação entre os poderes, assim como a um processo de reforma – ou captura política mais grave – no Judiciário. A eleição ajudará a decidir quem vencerá a guerra no Supremo Tribunal Federal, mas o lado vencedor não terá legitimidade no longo prazo se não abraçar propostas como o aumento da idade mínima para indicação de ministros, diminuição do poder individual dos ministros, restrição a escritórios de parentes de juízes, e outros temas como regras para precatórios, que muito têm contribuído para a degradação do Judiciário.
*Mestre em ciência política pela UNB e diretor da consultoria Eurasia Group
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