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COP30/Bastidores: Tapete vermelho para ditador e desencontro de ‘rivais’ em restaurante premiado

10 de novembro de 2025

Por Felipe Frazão, do Estadão, enviado especial a Belém

Belém, 10/11/2025 – Chefes de Estado e de governo globais passaram por Belém com histórias inusitadas, pressão para que tudo ficasse pronto, encontros – e desencontros – nos restaurantes mais famosos da cidade e compartilhamento de hotéis de luxo.

O Estadão/Broadcast flagraram alguns desses momentos, da preparação e conta agora histórias de bastidores da cúpula de líderes da COP30:

Hospedagem compartilhada

A conhecida crise de hospedagem que fez o governo Lula criar e antecipar a cúpula, levou o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, a telefonar para o empresário Jorge Rebelo de Almeida, da rede Vila Galé. Ele pediu que o empresário desse um jeito de acelerar as obras e entregasse o hotel na zona portuária a tempo. Do contrário, os portugueses não teriam onde se hospedar. Deu certo – apesar de nem tudo estar pronto ainda no hotel da rede.

Ao fim, a delegação portuguesa, liderada inicialmente pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, dividiu o hotel com a delegação da União Europeia – formada pelo também português António Costa (presidente do Conselho Europeu) e pela alemã Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia).

Outro ponto dividido foi o novo Tivoli Maiorana, onde ficou a delegação britânica – príncipe William e premiê Keir Starmer, e artistas como a cantora Fafá de Belém.

A divisão de hotéis de luxo não é incomum, mas algumas delegações, como a Chinesa e a dos Estados Unidos, não costumam aceitar. Nem pensar em dividir o quarto – o que sobrou para negociadores, funcionários dos governos, ambientalistas e jornalistas.

O red carpet do ditador

Mas foi outro hóspede quem roubou a cena no Vila Galé Collection Amazônia. Lá também ficou alojada a comitiva presidencial da República do Congo.

O governo de Brazzaville estendeu um tapete vermelho no hall de entrada e nos corredores de acesso à suíte ocupada pelo ditador Denis Sassou N’Guesso, ex-oficial militar que comanda o país africano desde 1997.

O tapete foi estendido no chão para que o congolês entrasse e saísse do quarto, cujo ambiente também foi modificado para atender suas exigências. Veja a foto abaixo obtida pela reportagem:

Mesmo na divulgação oficial do país é possível ver o red carpet, na entrada da suíte.

Nem todos tiveram a exigência, mas no exterior o tapete também é colocado, por exemplo, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi assim na Malásia, na recepção do hotel Renaissance de Kuala Lumpur.

A cúpula também permitiu a primeira breve interação entre o presidente Lula e Ahmad Al-Sharaa, novo líder do governo da Síria, que assumiu após a queda do regime de Bashar Al-Assad. O petista o cumprimentou na recepção aos líderes.

O governo talebã reclamou de o Afeganistão não ter sido convidado para participar da conferência.

A exclusão motivou nota pública de protesto, publicada pela Agência Nacional de Proteção Ambiental afegão, a Nepa. Em nome do governo, o órgão disse que o país é um dos mais vulneráveis a mudanças climáticas.

Ilha, jardim botânico ou museu

Como a imagem diz muito na política, os chefes de Estado e de governo aproveitaram a passagem para garantir registros que mostrassem o ambiente de uma floresta tropical – embora a maioria não tenha sequer saído da área urbana de Belém.

Quem teve mais tempo, optou por uma experiência imersiva na Ilha do Combu, que requer uma travessia curta de lancha e permite, em algumas horas, de banho de rio à prova de chocolates orgânicos, como fez o presidente do Conselho Europeu, o português António Costa.

Já a colega dele Ursula von der Leyen aproveitou para circular no Bosque Rodrigues Alves, onde conheceu exemplares da fauna e da flora local, segurou um papagaio, observou quelônios e pegou no colo e afagou um quati.

O príncipe de Gales, William, herdeiro do trono britânico, circulou pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, onde pode ouvir aves da coleção e ver as cotias soltas, um passeio interrompido pela chuva amazônica.

Rivais em restaurante premiado

Um dia depois de a reunião de líderes acabar, as delegações e autoridades foram aproveitar uma vez mais a premiada culinária paraense. Alguns dos restaurantes mais concorridos foram o Santa Chicória, a Casa do Saulo das Onze Janelas, o Celeste e o descontraído Puba.

Antes de decolar para Porto Alegre, a ex-presidente Dilma Rousseff apareceu no sábado, dia 8, para um almoço com seus assessores diretos na Casa do Saulo. O chef Saulo Jennings foi até a mesa cumprimentá-la.

Dilma vive hoje em Xangai, na China, e preside o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição financeira do Brics, tendo muita proximidade com o governo comunista de Xi Jinping.

A ex-presidente entrou de óculos escuros e blazer vermelho no salão principal climatizado e passou sem perceber ao lado da mesa ocupada por ativistas de ONGs e o embaixador Benito Liao, representante no Brasil do governo de Taiwan – ilha que desafia Xi e busca manter sua autonomia de Pequim.

Lá ocorreria outro “desencontro”. No mesmo restaurante, na mesma hora, almoçou em mesa separada por uma parede a ministra Marina Silva (Meio Ambiente), com a equipe do ministério. Marina optou por uma mesa ao ar livre, do lado de fora e voltada para a Baía do Guajará.

Marina e Dilma protagonizaram divergências quando foram ministras do governo Lula, por causa dos impactos da construção e licenciamento de usinas hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte. Marina acabou saindo do governo, e Dilma foi promovida a substituta de Lula e se elegeu presidente.

Na disputa da reeleição, Marina concorreu a presidente depois da morte de Eduardo Campos (PSB), numa queda de avião, e virou alvo de uma campanha de desinformação liderada pelo marqueteiro petista, contratado por Dilma, João Santana. A ministra sempre se queixou dos ataques.

Assim como Macron e William, Guterres dispensa peixe e maniçoba
Horas após o fim da cúpula, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reuniu a equipe das Nações Unidas numa mesa do Santa Chicória. Ele mesmo pagou a conta daquela noite de lua cheia, sexta-feira, dia 7.

Guterres e equipe conversaram sobre a COP-30. O rosto da ONU, que vai deixar o cargo em 2027, evitou os pratos com peixe – elemento central da culinária local que já causou celeuma nos preparativos para recepções a chefes de Estado.

O presidente francês Emmanuel Macron também avisou, desde sua visita em 2024 a Belém, que também não comeria peixes de rio.

Antes da COP-30, o chef Saulo Jennings se recusou a preparar um menu vegano, totalmente sem peixe, principal fonte de proteína da cozinha paraense, como exigia a família real britânica para a visita do príncipe William. Para ele, não faria sentido assinar um cardápio assim.

Autoridades não começaram o prato típico e popular, apesar de uma recomendação de Lula, durante o almoço do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (mecanismo proposto pelo Brasil), para que fossem aproveitar a gastronomia regional. O petista também sugeriu que provassem “maniçoba”, prato à base da maniva e carnes de porco, que alguns comparam como uma espécie de feijoada paraense.

A reportagem do Estadão conversou com ele e perguntou se Guterres continuava pessimista ou se os resultados da reunião de líderes o fizeram mudar previsão sobre o futuro do planeta. O português não quis comentar, mas disse que aprovou seu prato. E, sobretudo, a sobremesa.

Guterres comeu uma costela de “Brangus” assada por 24 horas, servida com arroz moreno de cebola e tomate cocasse, cebola na brasa e farofa de Bragança.

De sobremesa o secretário-geral da ONU preferiu algo à base de chocolate. Ele comeu um bolo “flerte”, assim descrito no cardápio: “irresistível bolo de chocolate cremoso com calda de chocolate, bola de sorvete de chocolate belga e calda quente. Ideal para quem quer garantir a conquista com um único pedido”.

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