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28 de setembro de 2026, às 10:58
Artigo de: Luiz Octavio Lopes

Por Luiz Octavio Lopes*
Platão imaginou que até mesmo sua cidade ideal precisaria de uma narrativa comum capaz de reforçar os vínculos entre seus cidadãos. Em sua obra, essa ideia aparece como a “nobre mentira”: uma narrativa falsa em sentido literal, concebida para produzir pertencimento e coesão. Ele talvez reconhecesse algo no Brasil de 2026. Porém, com uma diferença importante: não nos falta uma narrativa em que acreditar. Temos várias. A questão é que elas já não nos unem.
A poucas semanas das eleições, há algo curioso em um país profundamente dividido. Os dois candidatos que lideram a disputa estão muito distantes em histórias, discursos e visões de mundo. Mas se encontram em um número: 47% dos eleitores dizem não votar de maneira alguma em cada um dos principais candidatos.
A polarização não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Aqui, porém, parece haver algo além. A divergência política passou a conviver com uma crescente dificuldade de reconhecer referências comuns e de confiar que as instituições do Estado ainda sejam capazes de organizar nossos conflitos sem se tornarem, elas próprias, parte deles.
Durante muito tempo, as divergências políticas decorriam de respostas diferentes para os mesmos problemas – tamanho do Estado, carga tributária, política criminal, desigualdade ou papel do mercado. O desacordo podia ser intenso, mas havia alguma concordância sobre a pergunta e, em alguma medida, sobre as instituições encarregadas de processar essas diferenças. Hoje, discordamos também sobre a própria pergunta. Não divergimos apenas sobre como interpretar os fatos, mas sobre quais fatos são relevantes, quais fontes merecem confiança e quais instituições têm credibilidade. Pessoas diante do mesmo acontecimento chegam a descrições quase incompatíveis da realidade.
A “nobre mentira” buscava uma narrativa capaz de fazer com que pessoas diferentes se reconhecessem como integrantes da mesma comunidade política. Nosso problema parece ser o inverso: as narrativas atuais muitas vezes explicam por que o outro lado – e, cada vez mais, determinadas instituições – representa uma ameaça a essa mesma comunidade.
Para milhões de brasileiros, uma candidatura parece inevitável diante dos riscos representados pela alternativa. Para outros milhões, a conclusão é exatamente a inversa. A reação mais simples é atribuir essa diferença à ignorância do outro. Porém, a questão fica mais complexa quando distinguimos aquilo que desconhecemos daquilo que deixamos de conhecer pelas próprias escolhas que fazemos. Nunca tivemos acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil selecionar apenas aquilo que confirma o que já pensamos. Escolhemos quem seguir, que jornal ler e quais especialistas considerar confiáveis. A tecnologia deu escala a esse comportamento e os algoritmos o reforçaram.
A fragmentação, assim, deixa de ser apenas política e passa a ser também factual e, com igual relevância, institucional. Quando já não compartilhamos a mesma descrição dos acontecimentos ou reconhecemos com igual confiança as instituições encarregadas de organizar nossos conflitos, a divergência deixa de ocorrer dentro de um espaço verdadeiramente comum.
Uma democracia pode conviver com interesses radicalmente diferentes. A dificuldade começa quando parte da sociedade passa a considerar as regras válidas apenas quando produzem resultados que aprova ou deixa de reconhecer a legitimidade de quem deve aplicá-las.
A fragilidade das próprias instituições passa, então, a fazer parte do problema. Em momentos de polarização, elas deveriam oferecer alguma estabilidade ao conflito político, preservando regras, limites e procedimentos reconhecidos mesmo por quem discorda do resultado. Quando sua legitimidade se deteriora, porém, essa função também se enfraquece. Um Judiciário cuja independência é questionada, um Congresso percebido como incapaz de exercer plenamente seu papel ou um Executivo que tensiona os limites institucionais deixam de funcionar como referências comuns e passam, eles próprios, a integrar a disputa.
A confiança institucional, por isso, não é apenas uma questão de imagem. Ela determina a capacidade das instituições de exercer autoridade em momentos de conflito. Regras perdem força quando sua aplicação parece subordinada à conveniência do momento ou quando quem deve aplicá-las já não é reconhecido como suficientemente legítimo.
Quando esse espaço comum desaparece, o conflito muda de natureza. Já não se discute apenas qual política é melhor ou qual candidato representa determinados interesses. Passa-se a discutir a própria realidade a partir da qual essas escolhas são feitas. A democracia não depende de uma narrativa única. Mas depende de fatos minimamente reconhecíveis, regras que preservem seu valor independentemente do resultado e instituições com legitimidade suficiente para que vencedores e derrotados continuem reconhecendo o mesmo sistema.
Platão imaginou uma narrativa capaz de manter unida sua cidade ideal. Mais de dois mil anos depois, nosso desafio parece ser outro. Não precisamos chegar às mesmas conclusões ou escolher as mesmas soluções. Precisamos continuar compartilhando, em alguma medida, a mesma realidade e reconhecendo as instituições capazes de organizar nossas diferenças. Talvez a democracia não precise de uma nobre mentira que nos una. Precisa de algumas verdades que ainda consigamos compartilhar e de instituições que ainda mereçam nossa confiança.
* Luiz Octavio Lopes é sócio das práticas de M&A e Mercado de Capitais do Lefosse, formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e com LLM pela New York University School of Law.
Os artigos publicados no Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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