Economia & Mercados
17/09/2021 08:57

Exportadoras de commodities são principal exposição do Brasil ao 'risco Evergrande'


Por Wagner Gomes, Gabriel Baldocchi e Circe Bonatelli

São Paulo, 17/09/2021 - Os novos sinais de problemas financeiros da chinesa Evergrande colocam o tema no radar do mercado brasileiro sobretudo pelos potenciais impactos às empresas de commodities. A gigante imobiliária viu seus papéis caírem mais de 6% nesta quinta-feira, após informar que não vai conseguir fazer o pagamento de juros próximos a vencer. O tombo foi acompanhado pela queda dos papéis de outras incorporadoras e influenciou o preço do minério de ferro, muito consumido pelas empresas de construção. Para os analistas, a queda no preço da commodity, que ontem despencou 8%, pode se aprofundar, para menos de US$ 100, mas o impacto deve ser pontual e a expectativa é que o valor suba novamente.

O mercado imobiliário é um dos principais motores da economia chinesa, com uma participação de quase um quarto do PIB. A Evergrande é o segundo maior nome do setor e acumula dívidas de quase US$ 300 bilhões. Os problemas de liquidez da empresa embutem o temor de uma desaceleração mais profunda do setor imobiliário e de que o ritmo de crescimento esteja perdendo força, com impactos nos principais fornecedores de matéria prima pelo mundo.

Rafael Foscarini, diretor de Estratégia da Belo Investment Research, diz que o preço do minério de ferro está mais relacionado à questão política na China e que se a incorporadora conseguir rolar a sua dívida na próxima semana, o preço da commodity sobe de novo. O preço do minério fechou ontem cotado a US$ 107,21 a tonelada, no menor nível desde 27 de julho do ano passado, a caminho para a maior sequência de quedas em mais de três anos, de acordo com a Genial Investimentos.

"Houve precificação de queda da demanda e, por isso, o preço da commodity caiu. Mas o mercado acionário é exagerado tanto para cima quanto para baixo. Então, se a empresa não quebrar, o papel pode voltar a subir, levando para cima também o preço do minério de ferro", diz Foscarini.

Para Roberto Motta, chefe da mesa de derivativos da Genial, a situação vem se deteriorando e o principal impacto para o Brasil se dá pela queda no preço do minério. "A principal questão é que o mercado imobiliário na China tem um peso muito importante no PIB. Não é mais um problema isolado da Evergrande", afirma. "Quanto mais tempo a China demorar par achar uma solução, maior será a deterioração num dos setores mais importantes da China."

Segundo Motta, um eventual colapso da Evergrande poderia trazer impacto ainda no fluxo de recursos de investidores estrangeiros para os países emergentes.

Os novos indícios de dificuldade da gigante chinesa colocaram em dúvida se haveria o risco de uma eventual quebra provocar o mesmo efeito do colapso do Lehman Brothers na crise de 2008. A maior parte dos analistas descarta esse risco porque acredita numa intervenção do governo chinês. O mais provável é que as autoridades intercedam para administrar uma situação de calote organizado, em que as perdas são distribuídas gradualmente e de forma ordenada.

"A China deve absorver isso, não tem interesse que isso (quebra) aconteça com uma empresa de grande porte. Se isso acontecesse, o impacto seria muito grande", afirma Luiz Fernando Carvalho, estrategista-chefe da Ativa Investimentos.

Carvalho acredita, portanto, numa situação de queda temporária sobre o preço das commodities. Ele lembra que, do outro lado, pesam como fatores positivos a reabertura de economias pelo mundo. "Pode ser um respiro de ajuste, mas commodities permanecerão pressionadas porque as cadeias de fornecimento ainda estão sendo retomadas."

Vale

Foscarini diz que a decisão da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, de reduzir a sua produção no ano que vem para 370 mil toneladas, contra previsão anterior de 400 mil toneladas, também deve ajudar a elevar o preço da commodity. Procurada, a Vale preferiu não se manifestar. Os papéis da mineradora brasileira caíram mais de 4% nesta quinta-feira.

"A Austrália produz mais do que o Brasil, mas a Vale não deixa de ser um importante player do setor. Existem vários fatores puxando o preço para cima e para baixo. Então, é importante monitorar o curto prazo e as perspectivas de médio e longo prazos", afirma Foscarini.

Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, concorda que a queda do minério de ferro continua mais associada à parada de uma parcela das siderúrgicas na China para reduzir a poluição e principalmente pelo fato de que a economia mundial está dando sinais de fraqueza com o ressurgimento da covid-19. Ele explica que os estoques de minério de ferro na China estão um pouco acima do normal e quando a produção de aço voltar o preço da commodity vai subir novamente.

"A dificuldade é dizer quando, mas o preço do minério vai subir novamente assim que a produção voltar à normalidade", comenta Galdi.

Galdi diz que o surgimento de nova variante da covid-19 está atrapalhando o crescimento em várias regiões, inclusive na China, que já tem novamente cidades isoladas para não propagar o vírus. Segundo ele, isto acabou atrapalhando a economia daquele país. Além disto, o governo está se esforçando em atingir uma meta de reduzir a emissão de CO2, já que poluição lá está em níveis muito elevados.

"Uma forma de atender esta meta é reduzir algumas atividades, como a siderúrgica, principalmente em regiões onde a poluição se mostra mais forte. Os recentes indicadores econômicos no mundo estão mostrando uma redução do crescimento, o que justifica esta redução da siderurgia na China", comenta.

Foscarini lembra que os fundamentos de oferta e demanda ditam o preço no médio e longo prazo.

"No final do ano passado, a tonelada do minério, em torno US$ 150 a US$ 160, já era considerada um patamar elevado. O governo chinês já estava preocupado com esse valor porque eles importam 70% do minério de ferro do mundo e produzem 50% do aço do mundo. É quase que um monopólio na importação de minério e produção de aço", comenta o analista.

Houve um movimento de escalada forte e a tonelada do minério chegou a US$ 237. O governo chinês ficou bastante preocupado e começou a controlar mais.

"O discurso oficial é a preocupação com as metas ambientais, já que a produção de aço é bastante poluente. Mas historicamente a China é um país pouco preocupado com metas climáticas. E o que mais justifica esse tratamento com a produção de aço é a inflação do produtor, que estava muito alta. O motivo econômico, portanto, era a inflação alta do produtor que poderia ser passada, inclusive para o consumidor chinês. Então, o governo fez essa manobra de justificar as questões climáticas", explica Foscarini.

Imóveis

Enquanto o impacto em commodities é mais evidente, o potencial colapso da Evergrande tem pouco risco de diminuir o apetite dos investidores globais de mercado imobiliário, na visão de Fábio Bergamo, diretor da JLP Asset Management, gestora de ativos imobiliários com atuação nos EUA, Europa e Ásia. Isso porque, segundo ele, os investidores sabem diferenciar as particularidades do setor em cada país.
"O setor imobiliário é uma operação muito local. E os outros mercados ao redor do mundo, como Estados Unidos e Brasil, estão em um momento positivo", explicou.

Os problemas financeiros da Evergrande vão afetar detentores de títulos de dívidas corporativas espalhados pela China e por outros países. Mas o grande peso, avalia Bergamo, será sobre os bancos credores chineses, fornecedores locais de materiais de construção e cerca de 1,5 milhão de cidadãos que compraram imóveis na planta.

Isso vai forçar o governo chinês a pensar se intervém e evita a quebra da incorporadora, evitando o descontamento de cidadãos locais, ou se lava as mãos, afastando o risco de grandes conglomerados acreditarem que podem especular à vontade. "Esse é um desafio para o governo de Beijing", apontou Bérgamo.

Contatos: wagner.gomes@estadao,gabriel.baldocchi@estadao.com e circe.bonatelli@estadao.com
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