Economia & Mercados
17/08/2021 09:52

Especial: De mulher para mulher, investidoras tratam de fortalecer ecossistema para empresárias


Por Bruna Camargo

São Paulo, 13/08/2021 - Uma mulher puxa a outra para o topo - e então puxa outra e por aí vai. A rede de apoio no empreendedorismo feminino é naturalmente importante. Mas ganha ainda mais relevância quando se observa os números dos fundos de venture capital no Brasil. Elas receberam apenas 0,04% (R$ 1,7 milhão) do capital aportado em 2020.

Investidoras, líderes de aceleradoras, CEOs de plataformas de equity crowdfunding e comunicadoras nas redes sociais são as responsáveis por alimentar essa teia e expandir o ecossistema de investimentos.

Neste ano, o Google For Startups Brasil entrou na aceleração de empresas lideradas por mulheres e, de modo online, selecionou uma turma para mentoria com especialistas e treinamento em resolução de problemas. “Não adianta ter mais startups fundadas por mulheres se o ecossistema não ajuda. Elas se capacitam, mas os círculos ainda são muito masculinos e os fundos precisam trabalhar sua própria diversidade e vieses inconscientes. Todos os atores têm responsabilidade”, ressalta Fernanda Caloi, gerente de programas do Google For Startups Brasil.



“As empresas de inovação nascem para ser diferentes, mas replicam o 'gap' de gênero”, avalia Dani Junco, fundadora e CEO da aceleradora B2Mamy. Mentora de empreendedoras desde 2016, Junco observou que as mulheres ainda não participavam tanto dos negócios de tecnologia e, quando participavam, tinham dificuldade no acesso ao capital para avançar. Se a mulher fosse mãe, mais difícil ainda.

A aceleradora surgiu para tentar interferir nesse cenário. A proposta da B2Mamy é conectar empreendedoras mães ao ecossistema de inovação e tecnologia por meio de capacitação e pertencimento. Além desse programa, há a Casa B2Mamy no bairro de Pinheiros, em São Paulo, local preparado para as empreendedoras com seus filhos.



“Queremos ver mais mulheres fundadoras e CEOs no mercado e nascemos obcecadas em fazê-las conseguir capital no early stage, pois sabemos que muitas startups não conseguem passar pelo ‘vale da morte’ [jargão do mercado para o momento em que empresas trabalham ‘no negativo’ até conseguirem estruturação e capital; muitas não conseguem e fecham]”, conta Junco.

A venture builder We Impact, fundada por Lícia Souza, está nessa empreitada para impulsionar empreendedoras. Com um programa de desenvolvimento, Souza apoia os novos negócios, expõe a uma rede de relacionamentos, conecta às corporações parceiras - como Microsoft e KPMG - e prepara para rounds de investimento, como com o fundo We Ventures, exclusivo para mulheres na tecnologia.



“Fazemos essa advocacy [expressão em inglês para a defesa de uma causa] da lente de gênero, apostamos no poder da diversidade como acesso real à transformação. Queremos deixar nossa semente de impacto”, conta Souza.

Capital sob a lente de gênero

Os trabalhos como advogada na área de M&As (fusões e aquisições) e depois como empreendedora em uma startup de alimentação saudável abriram os olhos de Rafaela Bassetti sobre a dificuldade das mulheres em conseguirem capital para seus negócios. Em 2018, ela decidiu que queria colaborar com empreendedoras e fundou o hub de investimentos Wishe Women Capital.



Em 2020, a Wishe teve duas rodadas privadas de captação - R$ 1 milhão para a empresa de perfumaria Amyi e R$ 385 mil para a plataforma de automação financeira Her Money. Neste ano, quando recebeu autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Wishe iniciou rodadas de equity crowdfunding com startups fundadas por mulheres e que busquem transformação na sociedade.

“Fez muito sentido para mim trazer mais pessoas para investir e ser, muitas vezes, o primeiro cheque relevante da empresa”, diz Bassetti. Muitas empreendedoras chegam via conexão da aceleradora B2Mamy e a Wishe recebe cerca de cinco pitches por dia. “Todas as rodadas que fechamos têm mais de 80% das investidoras mulheres e o tíquete médio é de R$ 10 mil. As pessoas estão sim interessadas em ajudar a construir esses negócios”, afirma a CEO do hub.

A plataforma Elas Que Lucrem já oferecia conteúdo educativo para ajudar mulheres a alcançarem independência financeira e inteligência emocional, mas a fundadora, Francine Mendes, decidiu expandir a proposta e abrir um fundo privado com recursos próprios para financiar empreendedoras. O Q+ Capital já tem três projetos em fase de investimento, com aproximadamente R$ 1,5 milhão a ser alocado em cada um. A ideia é aportar R$ 20 milhões no próximo ano com cheques de R$ 500 mil a R$ 2,5 milhões em empresas que já tenham um produto mínimo viável. “Às vezes a mulher é retraída, tem medo de contrair dívida ou não dar conta do crescimento. Queremos que a mulher tenha ambição”, diz Mendes.



Já Flávia Mello (ex-Facebook e Uber) é uma investidora anjo que promove uma tese de investimento com viés de impacto e propósito para financiar mulheres empreendedoras. “Acho que o mercado não está olhando para isso como deveria, até porque pesquisas mostram o quanto pode ser mais rentável investir em mulheres. Homens negligenciam isso”, conta.



Mello juntou-se à Erica Fridman (ex-Johnson & Johnson e Procter & Gamble) neste ano para fundar a Sororité. Essa comunidade de investidoras anjo já tem 40 integrantes que se reúnem para fazer conexões e trocar experiências e, segundo Mello, a meta é alcançar cada vez mais mulheres. “Eu me joguei e, embora tivesse o capital guardado e algum conhecimento, aprendi a investir enquanto fazia. Mas não é algo que pode ser banalizado devido ao alto risco e achamos importante ter essas trocas com outras investidoras”, explica.

Mudança real ou discurso para redes sociais?

Para Bassetti, da Wishe, o mercado tem se mostrado mais bem intencionado e grandes players a procuram para entender como promover uma transformação. “Sempre se fala no quanto o mercado de investimentos tem liquidez, mas poucos percebem quanta gente está ficando para trás. É preciso aplicar teses de diversidade nos investimentos, ter uma atitude mais proativa”, defende.

“A mudança vem, mas está acontecendo ‘na base do fórceps’”, brinca Junco, da B2Mamy. Ela acredita que a situação ainda é uma questão de “vitrine” no mercado, como a preocupação no que está sendo dito em redes sociais, como o LinkedIn. “O que eu acho que mudou é que as mulheres estão vindo mais para a roda, entendendo o jogo e investindo uma na outra. Estamos ‘brigando’ bem”, destaca.

Contato: bruna.camargo@estadao.com
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